Quarta-feira, 08.09.10

MARAFILHA ÚNICA

Sim, filha, vou sempre exceder-me nos medos, nas paranóias, em tudo o que te irá irritar um dia por te limitar algumas das opções que me esforço por te conceder dentro do apertado espaço de manobra que a minha preocupação com a tua segurança, o teu bem-estar e a tua felicidade me permite.

Não, filha, eu não entendo os pais capazes de viverem a sua função sem sentirem esse aperto, esse reflexo do instinto protector que até os animais manifestam, capazes de morrerem pelas suas crias como eu me garanto capaz por ti, como não respeito os que não possuem a inteligência emocional suficiente para abarcar a vastidão, a intensidade da emoção associada a um simples abraço apertado como os que tantas vezes me dás e por isso se permitem deixar os filhos crescerem como estranhos a quem não conhecem os gostos e os desgostos, as fraquezas e as forças, a essência de alguém que possui parte da sua.

E odeio os pais capazes de magoarem, de abusarem, de maltratarem de alguma forma as pessoas mais importantes de qualquer vida digna desse nome.

 

Sabes, filha, vou sempre ensinar-te a exigir que te acreditem especial, no dia temível em que te veja exposta a todos os perigos e ameaças que enfrentei ou dei a enfrentar quando chegou o dia de a vida me ensinar os contornos difusos da paixão que nos tolda a razão e nos expõe à menoridade dos que não foram ensinados, como tu, a serem pessoas de bem. Cavalheiros, incapazes de te entenderem como mais um troféu, mais uma cabeça na parede imaginária onde penduram as peças de caça, imbecis, às quais não atribuem qualquer significado ou valor. Vou sempre ensinar-te que na verdade do amor não existe lugar para leviandades hormonais que vulgarizam os momentos especiais à altura da pessoa bonita que reconheço em ti.

Vou sempre escrutinar o gajo por detrás do olhar que te cobiça e deixar-lhe bem definida a estranha sensação de que não serei capaz de contenção alguma para quem arrisque sequer beliscar essa tua vontade espontânea de sorrir porque nasceste à pressa, prematura, tamanha a necessidade de aproveitar o tempo para experimentar a existência que constituirá sempre um orgulho meu ter partilhado na concepção.

 

Sim, filha, vou sempre exagerar na protecção e num rol extenso de cuidados e de precauções que reduzam ao mínimo ou a nada a estatística de tudo quanto de menos bom te possa ameaçar. Sim, vou continuar a avisar-te acerca dos perigos de uma vida, em cada etapa percorrida ao longo deste caminho onde te acompanharei até onde puder, se possível até já seres uma mulher adulta e senhora de ti própria como te incuto desde o primeiro dia. E mesmo aí não conseguirei por certo reprimir o tal instinto que me levará a olhar os outros como os fósforos com os quais não te deixei brincar, o perigo latente de todos os males que aprendi a identificar ao longo do meu percurso que a tua entrada revolucionou, uma nova estrada que o horizonte me apresentou, de sentido único para onde puder observar-te de perto mesmo mantendo-me discreto no lado de fora da redoma para poder a qualquer instante estender sobre ti a minha asa, o consolo carinhoso que sempre te ofereci, ou descobrir em mim o monstro capaz de estilhaçar quem te queira magoar o corpo ou a alma, a força descontrolada de um pai com a mente ensandecida pela reacção instintiva deste amor que não morrerá comigo porque deixarei o seu rasto bem marcado na tua memória daquilo que tentarei sempre representar para ti.

 

E sim, filha, o dia em que nasceste será para sempre o melhor que viverei ou vivi.

publicado por shark às 11:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Domingo, 25.07.10

A POSTA QUE ATÉ PERCEBO UM NADINHA DA COISA

No fundo, o que distingue as pessoas que amamos e supostamente nos amam (ou simplesmente gostam de nós) das restantes?

Entre muitas outras coisas distingue-as o facto de se preocuparem connosco, de sentirem a nossa falta, de nunca descuidarem as atenções que sabem importantes, mesmo quando isso nem encaixa de todo na sua forma de lidarem com outras pessoas que amam (ou simplesmente gostam).

Parece pouco relevante, eu sei, mas como se manifesta um amor ou uma amizade senão nas coisas, nos detalhes, que distinguem essas emoções de outras menos importantes?

 

Sou provavelmente das pessoas menos habilitadas a ensinarem seja o que for a alguém em matéria de relações humanas. O meu currículo social fala por si e não me deixa margem para devaneios.

Todavia, e como qualquer calhordas em qualquer área, aprendi uma ou duas coisitas acerca de mim e dos outros ao longo do tempo em que os meus cabelos entenderam mudar de cor.

Essa é a autoridade que me confiro quando discurso acerca do que respeita à interacção entre pessoas. Tal como sabemos que até escrevo bem e nem por isso sou flor que se cheire para a maioria, é legítimo presumir que mesmo sendo um tipo sem jeito para, por exemplo, relações amorosas, posso ter umas luzes acerca de um aspecto ou outro.

 

A luz que me guia pelo amor é a que ilumina alguns dogmas a que me agarro para perceber o mínimo acerca do assunto. E desses dogmas fazem parte os que obrigam as poucas (raras) pessoas a quem me entrego a respeitarem essas regrazinhas mixurucas que imponho apenas a quem achar que vale a pena tolerá-las no balanço final da relação.

Dessas regras destaco nesta ocasião a necessidade de exibir nas pequenas coisas essa enorme felicidade que é o amor que se sente ou se dá. Como enfatizo a superior capacidade de perdoar momentos infelizes ou de saber dar o braço a torcer quando metemos os pés pelas mãos.

Pequenos luxos a que não podemos dar-nos quando os outros não nos são próximos e se estão nas tintas para as mariquices e peculiaridades da nossa personalidade mais ou menos conturbada.

 

Quando numa relação alguém entende ignorar pressupostos cujo desrespeito sabe colidir de forma frontal com quem os abraça, esse alguém não pode de todo afirmar-se interessado em preservar a ligação em causa. É mais do que evidente que os focos de tensão acabam por proliferar ao ponto de a relação deixar de ser saudável e de as emoções acabarem por constituir um presente envenenado que de pouco ou nada serve, excepto para tornar ainda mais dolorosos os momentos de conflito.

É nessa altura que uma relação de qualquer tipo deixa de fazer sentido para quem nela participe, precisamente por tornar-se mais e mais distante e menos, cada vez menos, harmoniosa.

 

Ao longo de uma vida tive a sorte de conhecer muitos amores e a desdita de sofrer a sua perda. Sobrevivi, mais ou menos disponível, mais ou menos confiante, mais ou menos qualquer coisa que um amor sempre acaba por somar ou subtrair. E nunca, milagre, passei um dia sem alguém afirmar por mim a sua amizade, o seu desejo ou a sua paixão, e o milagre reside no facto de isso acontecer com um gajo maioritariamente tido (se quisermos ser rigorosos nisto das estatísticas) como difícil de aturar e incapaz de merecer grandes sacrifícios pessoais para preservar na qualidade de amigo ou de amante.

 

A vida é assim, injusta para algumas e alguns que se acham superiores a mim nessas artes da amizade e do amor mas não têm a sorte de poderem afirmar o que acima afirmei, com a arrogância justificada de quem se assume igualmente confrontado com a tal estatística que não esconde os fracassos como não oculta os méritos quando comparamos os resultados práticos de cada uma das abordagens que, afinal, não são boas nem más e apenas variam de pessoa para pessoa.

 

O problema consiste apenas naquela história das metades da maçã. E algumas não encaixam por mais que se tentem limar as arestas...

publicado por shark às 17:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Segunda-feira, 07.06.10

UMA SECA DE POSTA

Como a maioria das pessoas, embora a maioria dessas negue a pés juntos as suas, tenho características que não posso contornar na sua condição de defeitos. E não, não é feitio. É defeito mesmo.

 

Sou desequilibrado em matéria de desconfiança. Por muitas atenuantes que consiga reunir enumerando vários episódios deploráveis da minha (co)existência com os outros, é impossível não reconhecer esse mecanismo descontrolado a quase todo o tempo na minha forma de analisar quem me rodeia.

Sim, embora não tenha medo de levar uma tareia de algum que não me ature armado em campeão receio imenso a traição da minha confiança por parte das (muito) poucas pessoas a quem confio esse último bastião da minha fé nos outros.

E isso, levado ao extremo do que quase me vejo obrigado a definir como mania da perseguição, paranóia, leva-me até a ser eu quem trai a confiança alheia, sob o automatismo do tal mecanismo de protecção que a minha mente cansada desenvolveu.

A única coisa que me resta para não perder a dignidade quando me vejo confrontado com as manifestações excessivas dessa característica é isto mesmo: assumi-la. Ou seja, tenho vergonha na cara o bastante para admitir seja perante quem for (este espaço é público e eu dou a cara) que tenho este problema. Sou desconfiado, demasiado, e aí reside boa parte da minha dificuldade em manter relações saudáveis com as pessoas. A outra parte consiste na merda que os outros também são capazes de fazer.

 

Quando incorro nos tais episódios de desconfiança excessiva existem sempre duas hipóteses quando me proponho apurar a verdade dos factos. Ou estou errado nas minhas suspeitas e as vítimas do meu comportamento têm motivos sérios para me virarem as costas, ou estou certo, apesar de o método de “investigação” não ser sempre o mais decente, e nesse caso existem outras duas opções. Ou a pessoa assume a sua falha como eu assumo a minha e a força dos laços na ligação encarrega-se de injectar a necessária dose de tolerância, ou a pessoa fica mais preocupada com o facto de se ver desmascarada e com a necessidade de apagar vestígios.

E nesse caso deixa de haver muito por onde pegar na mesma...

 

Só mesmo quem me ama consegue aturar-me, ao contrário do que se possa presumir por qualquer imagem involuntariamente distorcida de mim que eu tenha vendido aqui. Mesmo a um amigo pode aplicar-se a verdade acima e não me faltam dissidências para o comprovar.

Não sou o calimero nem o patinho feio. Podia ser um canalha, um parasita, um imbecil. Assumiria qualquer dessas características, se a identificasse como tal. Mas não, sou desconfiado e submeto quem se aproxima a um escrutínio extenuante. E depois exijo transparência total, oferecendo tolerância na proporção em troca. Isso mais o mesmo respeito pelo pressuposto em causa e o privilégio valioso da confiança recíproca.

 

É impressionante como nunca consegui ao longo de uma vida, salvo raríssimas excepções, encontrar quem sentisse que valia a pena, quem gostasse de mim o bastante para arriscar na luta por essa utopia.

publicado por shark às 21:12 | linque da posta
Segunda-feira, 31.05.10

ASSOMBRAÇÕES

Com o meu futuro profissional prestes a sofrer uma reviravolta cujas repercussões ainda desconheço, tento colocar os olhos num futuro alternativo mas não consigo fazer de conta que não percebo que as sequelas do passado não deixarão de me atormentar.

 

É nítido que por vezes ficamos reféns das situações com que a vida nos confronta, incapazes de reagir de acordo com o que acabamos por pressentir poder revelar-se uma ameaça. Apanhados nas curvas tentamos apenas acalentar ilusões, prolongando as situações até ao limite ou mesmo para lá do ponto de não retorno.

E depois arriscamos tomar as atitudes acertadas tarde demais para pelo menos nos pouparmos a males maiores.

 

É curioso como a vida nos ensina lições valiosas a cada pretexto e sob as mais variadas formas. Muitas vezes, cegos por emoções descabidas ou por ligações que queremos acreditar definitivas (algo de idiota no contexto dos negócios, por exemplo), deixamos que nos embale a preguiça e um torpor que nos tolda a visão dos factos diante do nosso nariz.

Aos poucos, acabamos enredados em cenários tão complicados que nem percebemos quão vulnerável se revela a nossa condição e quão dependentes estamos de terceiros e das suas conjunturas e decisões.

E basta abrirmos os olhos um pouco para percebermos que somos dispensáveis ao ponto de ainda connosco no activo já andarem a salvaguardar as opções disponíveis para a nossa substituição.

 

Por vezes a vida obriga-nos a dar saltos no escuro, talvez a ver se aprendemos a voar.

Mas eu acho que é apenas um truque do destino para ver se depois de caídos nos conseguimos levantar.

publicado por shark às 11:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Segunda-feira, 24.05.10

A POSTA NO ET EM CADA UM/A DE NÓS

No fundo, quando percebemos que a nossa interacção com os outros expõe um fenómeno qualquer de loucura colectiva que torna normais alguns comportamentos que antes tínhamos por bizarros e indicadores de um parafuso a menos ou de uma excentricidade excessiva (fiquemos por aqui), resta-nos o sentido de humor como último bastião de defesa da sanidade mental que somos, inevitavelmente, levados a questionar.

 

Eu oscilo, confesso, na adopção do melhor critério a utilizar perante a confrontação com a loucura alheia ou com a minha.

Isso acontece não porque tenha perdido a capacidade de rir de mim próprio ou de perceber a irracionalidade inexplicável dos outros mas porque nem sempre sou apanhado com o estado de espírito adequado à mais correcta descodificação desse tipo de situação que nos espanta, nos intriga ou apenas nos leva a concluir que tá tudo doido e tudo quer dizer isso mesmo: estamos todos (ou quase) metidos no mesmo saco e boa parte de nós reagem nessas circunstâncias como gatos/as assanhados/as...

 

Existem poucas dúvidas em mim acerca do facto de o sentido de humor ser mesmo a melhor receita para contrapor às agressões que o quotidiano nos impõe à tendência para racionalizar. É um desperdício de inteligência, a tentativa de decifrar a lógica nos actos e nas palavras dos outros como na nossa própria atitude em momentos menos bons do funcionamento dos mecanismos de protecção contra a maluqueira assumida.

Muito mais prático e agradável é aplicar essa mesma inteligência (quem a possua) ao enquadramento cómico dos factos da vida em apreço, aligeirar as conclusões reduzindo à mínima expressão comum a lógica e as emoções e atribuir às bizarrias, às insanidades temporárias ou, de uma forma geral, a todas as manifestações ou revelações incompreensíveis a tolerância própria do pressuposto de que não se deve contrariá-los/as. Sem nos descartarmos enquanto membros efectivos desse colectivo, claro...

 

Qualquer alternativa ao humor implica um sacrifício qualquer, nomeadamente imposto pela amizade, pelo vínculo profissional/outro ou pelo amor, obrigando-nos a engolir em seco e sem explicações, ou a um esforço mental sobre-humano de tentativa frustrada de racionalização ou de simples contestação que para além de não nos levarem a lado algum implicam menos uma volta na rosca do próximo parafuso a desaparecer.

Rir é mesmo o melhor remédio e a ausência de seriedade na abordagem é o seu pilar fundamental. A opção ideal consiste sem margem para dúvidas na reacção cada vez mais instintiva de protecção de uma espécie de equivalente à camada do ozono na nossa tola, ou algo parecido que nos poupa aos efeitos nocivos da (ir)radiação de absurdo com que nos bombardeiam os emissores que ocupem o nosso micro-cosmos individual.

 

E nesses incluem-se os homenzinhos verdes que, no interior do vazio onde deveria situar-se o encéfalo, manipulam com gosto os nossos gestos e, muito a propósito do mote desta posta, se rebolam de riso com as consequências das nossas próprias reacções estapafúrdias.

publicado por shark às 11:54 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 20.05.10

A POSTA QUE FAÇO

Há pessoas que se arrependem imenso daquilo que fazem de errado.

Eu arrependo-me mais do erro de deixar por fazer aquilo que sinto acertado, nem que constate depois ter sido mal pensada a acção. Ajo muito em função de impulsos do momento, irracionais, confiando em simultâneo no discernimento que me impeça de dar tiros nos pés e na capacidade de desenrasque para dar a volta a alguma consequência foleira de uma iniciativa desastrada.

 

É complicado gerir uma existência assim, ao sabor daquilo que a emoção imediata e o instinto determinam. Claro que existe sempre algum factor de ponderação, nem que seja pela avaliação instantânea dos riscos que qualquer atitude menos reflectida possa implicar.

São os riscos que precisamos correr quando optamos por interferir directamente com a vida nas suas escolhas e queremos chamá-las nossas também.

Às vezes dá bronca, na maioria. E noutras até resulta num golpe de génio que nos abre as portas a generosos e bem passados pedaços da existência efémera que nos é concedida.

 

Esse equilíbrio entre o que podemos e/ou devemos fazer, sobretudo na relação com as realidades que nos sejam externas, pessoas ou organizações, acaba por influenciar sobremaneira o percurso que nos compete percorrer.

Pessoas que optam pela prudência, pela defesa, pelo medo, passam ao lado de inúmeras boas oportunidades de entre as poucas que a vida nos oferece. Têm que viver nessa inquietação permanente e definitiva: e se eu tivesse mandado a cautela às urtigas, o que iria acontecer?

Eu prefiro viver com as repercussões dos desastres que possa provocar, prefiro morrer a tentar do que cruzar os braços a ver no que dá.

Ao menos sei sempre a resposta, não fico na dúvida que corrói quando percebemos de repente que o timing certo passou e tudo se transformou em mais uma consequência do querer fazer tarde demais.

 

No fundo são estas as escassas opções que nos podemos permitir no que concerne ao que o destino nos reserva e impõe, mesmo por via de entre essas decisões poderem existir algumas particularmente desastradas.

Sim, é uma gaita, espalhei-me ao comprido e agora tenho que me levantar outra vez, sacudir o pó e tentar reparar os danos, nomeadamente a dignidade que possa sair ferida.

Antes isso do que a alternativa amorfa, silenciosa, dos que vêem acontecer a vida dos outros como a sua, na qualidade de meros espectadores de uma realidade moldada por uma dinâmica que nos sentimos incapazes de contrariar.

 

Não quero envelhecer encarquilhado na mente também, não quero (sobre)viver junto a um lago tranquilo onde possa em segurança molhar os pés. Prefiro aprender a nadar e de vez em quando arriscar a fúria das ondas num dia menos bom, sobretudo no que respeita à minha relação com os outros e com a mais valia das interacções.

 

E esses outros são cada vez mais os poucos que me valem a pena este ou qualquer outro tipo de cogitações.

publicado por shark às 12:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Segunda-feira, 17.05.10

A POSTA (IN)DOCENTE

A vida tem um jeito especial para nos oferecer lições que nos poupam às consequências de distracções, equívocos e lapsos de memória que, sobretudo com a idade, por vez nos traem. E nem é preciso um esforço por aí além para tirarmos conclusões a partir dos factos à vista desarmada, basta mesmo a atenção aos pormenores que dizem tudo, aos recados que as evidências albergam e só precisamos constatar.

Dois mais dois são quatro mas nem precisamos ir além do um mais um. É só atentar em tudo aquilo que nos ilumina o raciocínio e ilustra com clareza o que precisamos saber para arrepiarmos alguns caminhos, para alterarmos a rota do destino e evitarmos dissabores. Nem precisamos fazer algo, na verdade. Basta olhar e ter a coragem de não fazer de conta, de desprezar a hipocrisia e colocar os outros e as nós próprios no seu devido lugar, de sermos criteriosos na hierarquização das prioridades.

Basta mesmo alinharmos as nossas com as dos outros.

Tão simples, assim.

 

A vida tem esse condão, o de nos amadurecer como faz com a fruta. Pelo mesmo processo de decomposição, aplicado por exemplo a uma relação. Se for coisa que valha a pena tem sempre o aspecto tentador que nos justifica mantê-la. Caso contrário amadurece até ser impossível negarmos que apodreceu, perdeu sentido, acaba caída no chão das ligações perdidas ao longo do tempo que nos cruza aqui e além.

Mas as relações, como a fruta, requerem manutenção. Não cola o cliché tranquilizador de consciências, tal como não colam as desculpas esfarrapadas (quando elas existem sequer). Quem não aparece esquece, como a dinâmica da blogosfera tão bem comprova.

E quem acredita em dados adquiridos insulta.

 

Cada pessoa tem a sua própria sensibilidade e a sua definição do que uma prioridade representa. Damos valor ao que nos rodeia em função de interesses quase sempre egoístas, egocêntricos, e quando damos conta, levianos, não existe alguém em redor para nos prestar atenção. É esse o castigo dos que não cultivam, dos que deixam correr, qualquer que seja o formato da relação em causa. É esse o imposto que o individualismo excessivo nos tributa, algures no meio do percurso.

 

E eu, como outros e outras, já recebi o aviso de cobrança.

publicado por shark às 00:33 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 23.03.10

AQUILO QUE TIVER QUE SER

Aquilo que sou e aquilo que pareço. Aquilo que dou e aquilo que mereço.

O balanço da balança no desequilíbrio entre as diferentes dimensões quando se apura o seu peso relativo. Nos outros também. Faço mal ou faço bem e de pouco interessam as intenções, mesmo sem capas ou subterfúgios para camuflar as emoções desabridas.

Motivo à vista, liquidação total, o fiel da balança no balanço final, as contas de cabeça sem prova dos nove, as marcas do passado que o futuro não remove com uma simples esponja oferecida, um presente envenenado por contingências da vida que não servem de desculpa seja a quem for.

 

Aquilo que sonho e aquilo que faço. Aquilo que tenho e aquilo que peço.

O ponteiro sem pontaria na marcação do tempo, desencontrado com o momento certo para acontecer o que deveria. A vida que nunca adia nem antecipa, tudo acontece na hora certa, marcada, a sorte predestinada em função de decisões circunstanciais ou de evoluções naturais para os factos em curso. A ambição desmedida, toda a que transcende o agora e o já, frustração garantida por querer aquilo que não há ou pode mesmo nunca chegar a haver. Tudo o que pode ser, realismo, e não sentir como um cataclismo a impossibilidade de ir mais além seja no que for.

 

Aquilo em que fico e aquilo por que passo. Aquilo que lembro e aquilo que esqueço.

A história da vida que me compete escrever, o rasto e o resto, a memória pintada como preciso de a ver, colorida pela verdade da vida real ou apenas esboçada pela vontade de que o mal não faça parte da paleta. Espertalhão ou pateta, aquilo que me faz é tudo o que for capaz de transmitir a quem observa, pois desta curta passagem apenas se conserva a imagem que possamos deixar. Mas tudo aquilo que espero salvaguardar é a certeza do que quero recordado: é que vivi para amar.

 

E para ser amado.

publicado por shark às 14:45 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quarta-feira, 17.03.10

A POSTA SEM ESPINHAS

Já aqui abordei em diversas ocasiões as várias costelas de gaja que vou encontrando ou os outros (as outras, queria eu dizer...) descobrem em mim. Sim, cometo uma heresia aos olhos dos machões viris para quem qualquer traço de feminilidade equivale a falta de tesão.

Mas não, precisamente por estar à vontade sabendo que nada tenho a declarar (a murchar?) nessa matéria é que posso dar o corpo ao manifesto sem temer a perda de prestígio junto dos mais preconceituosos do meu género. Ou do outro.

 

Claro que, mais uma vez, ninguém tem nada a ver com as tais características femininas que me tornam híbrido nalgumas matérias, sobretudo no plano emocional, embora não bastem para me confundir nas escolhas e ainda menos nas horas da verdade que a vida generosa sempre teve o cuidado de me proporcionar.
Todavia, um blogue pessoal deve ser intimista. Pelo menos na minha concepção da coisa, onde só vale a pena um gajo dar a cara sem tema concreto se tiver os tomates necessários para se expor aqui e além às reacções que tanto podem vir dos machões acima citados como das insuspeitas leitoras que por vezes também aí se revelam mais machonas até do que eu...

 

Tudo isto para vos dizer que sim, tenho no meu carácter de gajo hetero algumas miudezas que várias moças identificaram de imediato como coisas de gaja. É difícil precisar quais são exactamente, pois manifestam-se em situações esporádicas e não são, de todo, racionais mas instintivas. Mas são coisas pequenas, adianto, e em nada (espero) afectam a minha imagem máscula junto do belo sexo e ainda menos (felizmente!) diminuem o entusiasmo que me caracteriza nos contactos mais próximos com essas fontes de vida como as entendo.
Ou seja, mais importante do que a súmula desses pecados de traição à combinação dos cromossomas, detalhes, é a minha forma de os interpretar.
E eu interpreto-os como uma honra e um privilégio, nada menos, precisamente pela ideia que tenho das mulheres e nunca aqui a escondi.

 

Embora não faltem estafermos sem pila, o padrão que sigo aplica-se à maioria e olho para elas com muito maior admiração do que para eles. E isso nem tem a ver directamente com a minha clara tendência hetero mas sim com o reconhecimento dos factos.
Poucos, mesmo poucos, homens conseguiram impressionar-me como a maioria das mulheres que conheci. São uns básicos, quase todos, e andam a leste do paraíso que elas possuem para explorar (sim, no corpo também...) nas suas mentes complexas e sensibilidades extremadas.
As mulheres, no meu modesto entendimento de mero apreciador do género, são criaturas especiais e diferentes para melhor em tudo o que verdadeiramente interessa.

 

Podia ter dito isto tudo em dois parágrafos, claro, mas queria certificar-me de que ficam a saber que não só em nada me confrange constatar esses detalhes efeminados no pensar e nas reacções (e na cama também, mas acho que apenas na sensibilidade cutânea e quiçá na desenvoltura linguística), como me orgulho de possuir tais características por me fazerem sentir um pouco mais próximo da perfeição como a concebo.

 

É disso que se trata. Tinha que o referir, sob pena de ficar com alguma coisa atravessada na garganta. Mas essa experiência, desencantem-se os que me prefeririam ainda mais exposto ao proverbial “eu sabia...” que estas confissões podem suscitar, até hoje nunca vivi.

Tirando uma espinha de safio ou duas, ok...

publicado por shark às 17:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Quinta-feira, 04.03.10

É UM BURAQUINHO SITUADO POUCO ACIMA DO PÚBIS...

Sou um gajo difícil, impossível para a maioria. É mais uma questão de mau feitio do que de mau fundo, como prefiro acreditar. Mas torna complicada a tarefa de quem calhe gostar de mim e não cuide de manter uma prudente distância.

Nada disto me envergonha ou intimida ou seja o que for para lá do desconforto pontual que me provocam as desistências. E eu somo imensas, como qualquer gajo difícil, embora tenha a certeza de que algo de positivo dei a cada pessoa que embicou para aqui.


Tenho alguns tiques de menino mimado, algumas convicções demasiado arreigadas e, sobretudo, exijo demasiado dos outros. E a exigência, disparatada na dimensão mas justificada enquanto opção, é directamente proporcional à proximidade que me concedam.

Algumas dessas merdinhas, como as chamo, estão na origem da maioria das tais desistências. A meu ver é simples: só mesmo gostando muito nos predispomos a aturar alguém. É assim nos dias que correm e a vida que levamos acaba por nos dar cabo da paciência para levarmos com as peculiaridades de outrem.
E quando gostamos a sério aprendemos a lidar com esses pequenos quês que acabam por definir a personalidade e a conduta de cada pessoa. Coisas boas e coisas más, sempre na perspectiva de quem as avalia e, lá está, com a carga de subjectividade que as emoções mais fortes acabam por impor e assim se adicionam os filtros que nos permitem tolerar as diferenças (ou as parecenças) que nos irritam ou incomodam.

 

Eu gosto que quem gosta de mim me faça sentir no centro da sua atenção, nem que por uns minutos ao dia. E sou muito cioso desse protagonismo que sei não poder “exigir” a pessoas que não me sejam próximas, tal como entendo que os alvos de tal exigência se saturem de fingir um interesse nas coisas que valorizo que raramente consigo despertar por muito tempo junto de alguém.
A isso somam-se as minhas reacções intempestivas, capazes de deitar por terra qualquer hipótese de reconciliação. Ladro alto e ferro o dente sem morder. Mas nunca escondo o que me vai na alma, algo com que poucas pessoas conseguem ou querem lidar. A malta prefere passar o tempo a brincar, a fazer coisas giras e divertidas, em busca da adrenalina que eu suscito tanto como um caracol. Preferem fazer de conta, ignorar ou mesmo atacar, do que enfrentarem de forma frontal as suas fraquezas ou as razões dos outros.

 

Eu sou assim, difícil. Quase impossível. E estranhamente não me sinto particularmente incomodado com isso, até pelo que os factos da minha vida comprovam. Sou assim, como qualquer pessoa o é. Somos o que somos e não vale a pena pintar a manta, retocar o verniz. E com os estragos que a vida provoca, estamos cada vez menos disponíveis para os outros, para o outro. Acabamos centrados no nosso umbigo que achamos sempre ser o mais importante a salvar em qualquer derrocada. Alteramos os factos, se necessário, para convivermos melhor com a consciência de tudo o que deitámos a perder ou deixámos pura e simplesmente cair por não valer a pena.

 

Somos assim, a maioria, e ninguém tem que se queixar pois quem gosta fica e empenha-se e quem não gosta tem sempre o caminho escancarado.

publicado por shark às 00:01 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (20)
Quarta-feira, 17.02.10

NOVOS CAMINHOS

Vão revelar-se para mim amanhã.

Mas, mal por mal, confesso que ficava bem com o rumo actual.

publicado por shark às 00:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Terça-feira, 16.02.10

A POSTA NAS TEORIAS DA RELATIVIDADE CONSPIRADA

Há pouco, em conversa com alguém na caixa de comentários da posta acerca de si própria (a caixa) e das questões sensíveis que isto da liberdade de expressão versus poder de decisão levanta a propósito da blogosfera, percebi o quanto é fácil tornarmo-nos tão irritantes, tão enervantes, tão insuportáveis para alguém que isso até pode levar as pessoas a ocultarem tais emoções tão intensas por detrás do anonimato que, no final das contas, não as protege de fazerem má figura perante si mesmas.

 

Isto a propósito dos chineses, vejam só, e de como a minha descarada aversão à sua crescente dominação da economia mundial desenvolve em mim um sentimento xenófobo que muito fragiliza a minha imagem o acto de o vir aqui confessar.
É verdade, consigo trair assim a minha génese esquerdalha, hipotecando qualquer ambição política na única área ideológica que algum dia poderia acolher o meu pensamento desalinhado com os dogmas mais caros às mais importantes correntes políticas e até às religiões mais profícuas na sua ingrata tarefa de evangelização.

 

Eu temo os chineses. Ou melhor, nada me move de hostil para com a população da China, nomeadamente em função da raça predominante, da língua, ou mesmo dos valores culturais da extraordinária nação que a História documenta. Eu temo a passividade dos chineses perante um regime cruel que os está a formatar a nível interno e começa agora a apanhar a boleia da crise financeira mundial para, assim o pensam os paranóicos como eu, estenderem essa sua marcada apetência para tibetizarem as coisas que de alguma forma os incomodam.
Os paranóicos como eu distinguem os factos que justificam tal medo na vergonhosa recusa por parte do Primeiro-Ministro de Portugal em receber, e com honras de Estado, o Dalai Lama que eu como cidadão receberia com o maior orgulho na minha casa como na minha Pátria que jamais aceitarei possa vender a alma e ignorar os princípios que deve defender em meu nome.

 

Isto a propósito do medo do desconhecido. Esse justifica-se apenas pelo instintivo receio que a incógnita produz. Quando ultrapassamos essa questão, o medo desaparece e de imediato prevalece a reacção natural, lógica, a lucidez que nos leva a estudar o desconhecido e a perceber-lhe as fragilidades mais óbvias. Como a de alguém reunir a força e a motivação necessárias para antagonizar alguém, para tentar de alguma forma desacreditar uma pessoa, e não ser capaz de abraçar a coragem de o fazer de forma clara, bem identificada, típica de quem possui uma razão e não tem motivo para recusar esgrimi-la.

 

É essa a maior fragilidade de quem aproveita o anonimato das caixas de comentários para escrutinar seja quem for. A cobardia, impossível de negar em tais circunstâncias.

Tal e qual as evidências que conotam o actual regime chinês com coisas medonhas para o pensamento e forma de vida ocidentais. E não se trata do desconhecido, não faltam episódios, factos que comprovam uma tendência de desrespeito por valores que nos são gratos, essenciais. Por isso o meu medo encontra uma razão de ser e o assumo de cara à vista, mesmo correndo o risco de nunca mais obter um visto para percorrer a Grande Muralha ou ver com os meus olhos a expressão dos olhares tibetanos que a ambição chinesa já conseguiu amordaçar.
Ou de atrair para estas caixas mais anónimos incapazes de debaterem comigo seja o que for de cara à vista como eu, sem medos, pois não subscrevo limites à liberdade de expressão que não os que o sentido de responsabilidade possa incutir de forma individual, nem faço mais do que argumentar as minhas razões perante quem as pretenda questionar.

Ou seja, no final disto tudo temos questões que às tantas são irrelevantes e não justificam sequer que meia dúzia de pessoas (pouco mais) tivessem perdido o seu tempo a ler esta estucha.
Não tenho a mania de que sou imortal.

 

E os chineses, os maus da fita, tal como os anónimos que comentam em blogues sem túbaros para fazerem as coisas de forma frontal e não por detrás da capa do anonimato ou da paixão súbita pela economia de mercado, não passam de personagens em trânsito num guião que nunca mais tem fim e cedo ou tarde acabará por denunciar-lhes as óbvias distorções na percepção da realidade, essa rebelde que no final das histórias acaba sempre por impor o seu final mais ou menos feliz.

publicado por shark às 16:35 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quinta-feira, 11.02.10

TÁ DITO

Sim, sinto-me grato. Não porque deva qualquer agradecimento por tudo aquilo que me dão, de livre vontade, mas por ser mesmo verdade que prezo a gratidão e a acarinho como um sentimento que em nada me prejudica nutrir.


Preciso de reconhecer a minha dependência do amor que me é dado, o amor que é dedicado a alguém que não consegue esconder imperfeições e que se presta a emoções negativas, a momentos sem sentido à luz dos sentimentos em questão.
Preciso de falar pelo coração, preenchido pela certeza que me confere a firmeza com que o amor me é afirmado e como me sinto encantado por poder experimentar a sensação de ser o centro da atenção emocional de alguém que me ama, que me quer bem, e que me oferece em cada dia tudo aquilo que a vida tem para mim de melhor e essa dádiva é o amor de que sou alvo.

 

Sim, sinto-me dependente e saboreio cada instante como um viciado nesse amor que me é dedicado apesar de eu não me reconhecer capaz de o merecer como devia.
Sinto-me bafejado pela sorte por saber que um dia a minha morte não será indiferente, pelo menos a toda a gente que algum dia me amou. Sei aquilo que sou e nada mais poderia ambicionar do que ter alguém para me chorar porque me sentirá a falta quando esse dia chegar, o lado triste que isto de amar também revela na sua realidade, o tormento que é a saudade impossível de mitigar.

E quero mesmo aproveitar o meu tempo para fazer justiça a esse sentimento que aprendi a cultivar ao longo de uma vida em que o amor foi o farol da existência e tudo o resto assume a irrelevância das coisas que não fazem história.
Quero deixar-me na memória de quem me ame como um homem capaz de reconhecer o valor que gostaria de ter igual ao que esse amor significa para mim.

 

Sim, sinto-me assim, feliz por ter nascido e por ao longo do caminho percorrido ter tido a oportunidade de admitir a minha vaidade por me sentir importante enquanto amigo e enquanto amante e sobretudo na pele de um pai.

 

Pressinto que se esvai aos poucos o tempo em que posso viver cada sentimento acolhido no coração e quero expressar a gratidão por essa experiência de vida que é boa quando sentida de forma intensa, inesquecível.

 

Porque sim, sinto-me perecível e não quero viver com o risco constante de deixar algo de importante por dizer.

publicado por shark às 11:32 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 02.02.10

HÁ UM SILVO INTENSO NO PIPO DESTA PANELA

Existem problemas na vida que nos aterram no colo mesmo quando tudo fazemos para os evitar. Coisas que começam de forma aparentemente inócua, simples de resolver, e que de repente assumem proporções descontroladas tanto no grau de ameaça que representam como no impulso primário que nos leva a reagir sem estribeiras e nos esgota no sentido de o conter.

 

De há uns tempos a esta parte tornei-me quase um eremita, tentando fugir dos outros para assim poder encontrar um pouco da paz que me faltou. O método resulta e de facto evita algumas confusões e sarilhos tradicionais. Mas não é infalível nem oferece garantias de durabilidade.
E a vida (ou o destino, ou deus ou o que preferirem) encontra sempre forma de nos confrontar com dilemas terríveis, situações complicadas, problemas que soam irresolúveis e que nos desafiam a estrutura e nos obrigam a repensar alguns pressupostos que gostamos de ter como dados adquiridos.

 

Se um problema pode constituir factor de perturbação quando nos afecta directamente, o seu impacto é exponencial quando estão em causa os filhos e é sobre eles que recai qualquer tipo de aflição ou de repercussão foleira potencial. Basta uma doença mais assustadora para nos arrependermos de não termos seguido Medicina em vez de outra coisa qualquer...
Contudo, se a uma doença podemos reagir com a determinação de quem tudo faz para a combater pelos melhores meios ao alcance a outro tipo de maleitas, sociais ou assim, já não conseguimos aplicar a mesma resignação que nos vale para suportar o galo de um qualquer bicho microscópico ter batido à porta da nossa cria.
Abrimos de imediato, por instinto, as garras e arreganhamos a dentuça para defender ao ataque e assumimos a dinâmica panzer. Ou kamikaze, se necessário.

 

E estes termos bélicos indiciam essa verdade insofismável para mim: é de uma guerra que se trata quando estão em causa os interesses ou a segurança da minha filha e essa ameaça deriva de terceiros perante os quais ela esteja em manifesta desigualdade de circunstâncias.
Não sou, de todo, um arruaceiro. Mas jamais me permitirei o pecado da negligência, do optimismo, da fé que aplicada aos outros vale sempre aquilo que eles tiverem para dar.
Nós pais agimos quase sempre como animais feridos quando os filhos sofrem ou arriscam sofrer qualquer dano provocado pelos outros, os tais de quem tenho tentado afastar-me. Qualquer actuação alternativa consome-nos e deriva apenas do bom senso que mobilizamos a custo para não deitarmos tudo a perder na sequela de uma intervenção desastrada.

 

Pousamos o lança-chamas e deitamos a mão ao extintor, tentando numa primeira fase apontar para o interior de nós mesmos e não deitar para a fogueira as achas do incêndio que nos consome por dentro e nos vemos na contingência de combater em paralelo com o pânico e a ira que alguns cenários plausíveis nos ateiam.

 

E isso esgota uma pessoa, acreditem.

publicado por shark às 12:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Domingo, 31.01.10

I WONDER...

Um sábado que acaba com um gajo a aperceber-se do facto de estar sentado a assistir a uma actuação ao vivo do José Cid não pode ser um sábado normal.

 

publicado por shark às 12:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Terça-feira, 12.01.10

UMBIGO DE MARFIM

Seria dramático que um elefante numa loja de porcelana tomasse consciência do seu papel na situação. Pouco sei da forma como os paquidermes sentem as coisas e de modo algum poderei deitar-me a adivinhar tal cena, mas é um facto que fico sempre de trombas quando, especado no meio da louça escaqueirada no chão, me sinto na sua pele.

 

Note-se que não me considero uma vítima dos outros, antes pelo contrário. Sou apenas um gajo como outro qualquer, invariavelmente apanhado na rede que afinal é a teia que vou urdindo com as minhas mais ou menos desastradas intervenções e necessariamente confrontado com o preocupante resultado prático de algumas das minhas características e respectivas repercussões em quem me rodeia.


Ninguém gosta de se perceber na origem da tristeza, da desilusão ou mesmo da animosidade de outrem. Excepto talvez quem faz gala da sua aptidão para infernizar as existências alheias.

 

Não é o meu caso, apesar de tudo. Quando entro na loja, pata ante pata, esforço-me para não tocar nas prateleiras. Prefiro até que nem dêem por mim do que arriscar a visibilidade de uma pequena catástrofe que tanto prejuízo pode provocar no local.
Contudo, e como qualquer bem intencionado, possuo limitações e não trago de série esses novos equipamentos que até estacionam carros sem intervenção dos respectivos condutores ou coisa parecida.
Basta virar-me para olhar a prateleira à minha esquerda e já tenho a cauda a varrer o conteúdo da que se situa à minha direita.
Faz parte da minha inépcia em lidar com louça fina e delicada, mais talhado que sou para artigos de madeira ou inferiores (embora resistentes, inquebráveis).

 

Além de tudo isto, e ainda na óptica do trombalazanas, tenho uma personalidade tão instável como qualquer outro jumbo (dumbo?). Ou seja, mesmo nas raras ocasiões em que consigo de facto atravessar o estabelecimento sem tocar sequer no respectivo conteúdo, basta um assomo de qualquer das minhas múltiplas aversões ou inúmeros receios para me tornar colérico ou simplesmente trapalhão.
Seja como for, vai tudo parar ao meio do chão e lá fico eu na confrangedora posição da presença inconveniente, indesejável, capaz de perder qualquer razão em face da forma como reajo a variadas pressões que a teimosia em frequentar espaços (pessoas?) me impõe.

 

Sim, sou desastrado para além de limitado num domínio cada vez mais relevante da vida em sociedade: a esperteza. Percebo, pelo outcome das minhas situações foleiras, o quanto me falta para chegar aos calcanhares de quem consegue esconder pela surra os cacos debaixo de um tapete ou sair de forma tão airosa das situações que ainda lhe pedem desculpa pela inconveniência. E já nem consigo martirizar-me por esse facto com a mesma eficácia que dantes me caracterizava.

 

Embora continue, à imagem e semelhança dos elefantes que me serviram de mote a esta posta, sempre capaz de encontrar o caminho para o sítio onde o instinto me diz ser o local adequado para desaparecer de cena.

publicado por shark às 15:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Sábado, 26.12.09

A POSTA SEM MURALHAS

Sempre entendi a cumplicidade como um dos requisitos fundamentais de uma relação de amizade ou de amor. Nem entendo uma relação enquanto tal, envolvendo as emoções superiores, se não existir essa ligação tão próxima que pressupõe a ausência de segredos, a partilha de dores e de alegrias, a disponibilidade permanente para acudir em qualquer tipo de anseio ou de aflição.

 

É extremada, bem o sei, esta minha posição. Afasta pessoas. Ninguém aceita de bom grado abrir os portões do seu castelo interior seja a quem for nos dias que correm, apenas se entreabrem nesgas nas pequenas fissuras a que nem podemos chamar janelas e só por aí pode sair ou entrar aquilo que urge filtrar para não nos sentirmos vulneráveis.

Sim, falo no plural pois também eu acabo por vestir aos poucos essa couraça, essa muralha que nos isola do outro que se torna insuportável quando nos expõe, mesmo com boas intenções, as debilidades e fraquezas que mais tememos e mais queremos ignorar.
Mas esse é o princípio do fim da tal proximidade cúmplice, criando laços que funcionam entre as pessoas como uma espécie de canal do Panamá que abre e fecha, que sobe e desce em função das conveniências individuais.


Navegamos até onde nos deixam e só quando nos interessa deixamos abrir as comportas...

O amor e a amizade como as penso e as sinto não podem funcionar assim. É algo de muito importante para mim, sentir-me especial no contexto de uma relação com alguém. Tanto quanto transmitir essa distinção às poucas pessoas a quem permito a entrada na fortaleza imaginária que também me vi obrigado a construir para me defender de canalhas que aproveitaram as defesas desguarnecidas para me destruírem a confiança, outro pilar essencial da cumplicidade que advogo e tento impor sem sucesso na esmagadora maioria das minhas relações.


O silêncio forçado, imposto, é uma gangrena pior ainda do que uma explosão disparatada na qual se diz muita coisa que não corresponde ao que sentimos de facto.

A impotência a que nos reduzem quando se fecham na concha sem explicações razoáveis só tem paralelo na dúvida que se instala acerca da verdadeira dimensão do nosso papel nessas outras vidas que aqui e além decidem alhear-se da nossa, em intermitências que abrem caminho a todo o tipo de especulação.

 

E essa é uma inevitável tentação quando às nossas interrogações apenas correspondem más ondas que sentimos, quando as relações são sérias e importantes, como profundas desilusões.

publicado por shark às 18:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quarta-feira, 09.12.09

A POSTA NO LEITE DERRAMADO (OU NO CALDO ENTORNADO, TANTO FAZ)

Há um ponto a partir do qual é perfeitamente natural que se deitem às urtigas alguns pruridos e hesitações. Chamem-lhe crise da meia-idade, PDI ou outra coisa qualquer. Por mim até podem chamar-lhe um assobio, mas na prática trata-se de um momento de excepção para qualquer um/a que de repente percebe que a vida são dois dias, o carnaval são três e ao quarto uma pessoa descansa em paz e por isso não se pode renegar o tal ponto em que um impulso qualquer nos leva a passar por cima de algumas convenções e a abraçar uma forma menos tensa de enfrentar, por exemplo, os muitos proibidos que a vida em sociedade nos vai impondo.

 

Sempre tentei manter algum nível daquilo que a maioria apelida de sanidade mental mas para mim constitui apenas um conjunto de normas imbecis que só servem para atrapalhar os nossos caminhos e empatar as fadas que tanto se esforçam por nos mostrar como a vida é bela sem o espartilho dos costumes.
Isso não se deve fazer, aquilo não se pode dizer, apenas porque sim. E eu questiono-me sempre: e porque não?


Em causa estão aqueles compromissos assumidos por inerência mas que nunca entendemos muito bem para que servem se apenas nos complicam ainda mais o trocadilho. Coisas simples, como um gajo assumir algumas cenas suas ou borrifar-se na boa para as tradições que castram o prazer de viver aquilo que nos resta quando a juventude já ardeu.

Ah e tal, porque não devemos ser assim ou assado porque senão...
Mas porque senão o quê? Levamos tautau? Executam-nos uma penhora? Apontam-nos o dedo como maus exemplos a seguir?
Ora, esse não só é o lado para o qual eu durmo melhor como é também um lado que nunca me fez perder o sono. Tanto faz se me baptizam de excêntrico ou de maluco ou mesmo de radical.


Sou uma pessoa normal que se esforça por romper as barreiras artificiais que nos impõe a ditadura do politicamente correcto, do tanto melhor quanto mais discreto, que nos empurra para uma existência parcialmente clandestina em abono da mais perfeita integração no grande grupo que na hora da verdade nos vira as costas e nos deixa cair.

É assim, doa a quem doer, e eu já tenho calo o bastante para o afirmar com conhecimento de causa, com o saber de experiência feito que é a compensação para os estragos que a passagem do tempo entretanto provoca.
Ninguém me tente açaimar ou amordaçar quando à razão propriamente dita consigo somar uma porrada de argumentos para justificar as minhas opções sem medos ou vergonhas.
Vergonha é roubar ou, ainda pior, deixar-se apanhar em flagrante. E isso nunca me aconteceu.


Há um conjunto de merdinhas que define quem sou eu, aos olhos críticos dos outros mas acima de tudo aos meus, aqueles que confrontam o espelho e têm que se aguentar à bronca com o resultado final das minhas reflexões.

Abomino determinadas convenções que só servem para nos afastar da felicidade possível neste mundo cão. Violo deliberadamente as que mais me entravam o caminho e com isso vou adquirindo um estatuto semi-marginal em meia-dúzia de círculos onde a vida me encaixou.
Mas eu não sou um ponto fixo, estagnado, em círculo algum. Prefiro-me imprevisível, aleatório, igual a mim mesmo quando a mostarda me sobe ao nariz ou desatino com uma limitação disparatada.


Respeito apenas a liberdade dos outros de serem aquilo que lhes incutiram ou, raramente, aquilo que se sentem mais confortáveis a fazer (ou exibir). São escolhas individuais, decisões que tomamos em função daquilo a que nos podemos ou queremos permitir.
E a partir de um certo ponto no tempo, talvez como manifestação tardia de uma puberdade oprimida pelas regras impostas pelos pais, descobrimos uma faceta da maturidade que sentimos no peito como um momento libertador.

 

Eu quero viver o amor e a amizade e o resto que verdadeiramente importa de acordo com as minhas regras e fantasias, tal como exijo de mim próprio a contenção necessária para não deixar que o feitio irreverente comprometa em demasia o meu futuro profissional ou a integração social e é essa a contrapartida que me imponho, o esforço maior.
De tudo o resto retenho apenas o que me protege da rejeição absoluta por parte de muitos filhos da puta de quem dependo, ocasionalmente, por isto ou por aquilo e apenas até ao momento em que decido dizer basta à dependência ou à tradição. À bruta e sem lubrificação, pois pauto as minhas posições por um misto de instinto básico com o cuidado do respeito pela sensibilidade alheia, o freio embutido que me leva sempre a evitar cruzar os limites sem moderação.

 

Acho que é mais do que o suficiente para garantir o respeito e a consideração por parte de quem se cruze no meu caminho e entenda investir algum do seu tempo na avaliação deste gajo cheio de coisas estranhas e até perturbadoras para alguns mas igual a toda a gente nos méritos e nas qualidades que possam servir de compensação.

E quem não veja a coisa assim tem bom remédio e não faltam por aí cabeças mais atinadas para desbundar.

 

Prometo que não fico a chorar...

publicado por shark às 15:04 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (14)
Quarta-feira, 02.12.09

DIAS INVERNOSOS

Nunca consigo separar o meu estado de espírito dos caprichos da meteorologia.

Acordar para um dia frio, cinzento e chuvoso é quase como chegar à banheira e constatar que faltou a água...

 

Bom dia para todos/as vós, ainda assim.

publicado por shark às 08:56 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Segunda-feira, 30.11.09

SUAVE RESIGNAR

Já nem me esforço por entender os outros.

Basta-me aceitá-los tal e qual.

publicado por shark às 20:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quinta-feira, 19.11.09

TCHIM TCHIM...

A expressão espuma dos dias tem adquirido um novo significado nos meus.

O mar está tão revolto que nem na banheira e com os melhores sais de banho eu conseguia obter um efeito tão espumante...

publicado por shark às 12:19 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sexta-feira, 06.11.09

TÁ QUASE...

Há algo de errado no quotidiano da pessoa quando faz tanta diferença acordar numa manhã de segunda ou numa manhã de sexta...

publicado por shark às 09:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Domingo, 25.10.09

SOU GAIJO PARA REENCARNAR EM POMBO SÓ PARA VINCAR A MINHA POSIÇÃO

Existem mil e uma maneiras de enfrentarmos a desilusão que os outros nos oferecem a cada instante, tal como acontece com o ostracismo a que nos votem de forma ostensiva com o intuito de vincarem a respectiva indiferença.
Dantes (sim, já tenho idade para usar este tipo de expressões) eu era gajo para me encolerizar ou entristecer, consoante o valor que atribuía a quem me desiludia ou simplesmente me deixava cair ou tentava desmotivar pela ausência.


Mas isso era dantes. Agora, algum tempo mais esperto, já não consigo deixar produzir em mim tais efeitos. Tem a ver com a importância que atribuo à esmagadora maioria dos outros que se cruzam no meu caminho, aqui ou em qualquer outra plataforma em que a vida se faz.
Tem a ver com algo que de forma pomposa chamam gestão de expectativas.

A sabedoria popular refere que quanto mais alto maior a queda. E isso encaixa como uma luva nisto de que vos estou a falar. Se voarmos rasteiro, sem pretensões, nunca damos um trambolhão por aí além. Mas se, pelo contrário, nos armamos em ícaros é certo e sabido que esturricamos as asas e só paramos no rés-do-chão e ficamos de rastos.
Essa é uma experiência que não aconselho a ninguém, sobretudo com pára-quedas pois quanto mais demoramos a cair mais tempo dispomos para encaixar os golpes que nos dão.
E não vale, de todo, a pena. Posso garantir.

 

Ontem a minha filha fez anos e consegui oferecer-lhe um dia inesquecível, mesmo tendo-me custado a força, a paciência e o dinheiro de que não disponho nesta altura.
Foi a minha marafilha quem fez anos e não lhe faltaram primos e amigos e alegria na festa que comemorou o seu décimo aniversário. Contudo, eu sou o pai. E tirando os avós, um casal de tios meus e uma amiga e cliente (e tu, Gaija, claro) ninguém achou digno de registar na merda da agenda de um telemóvel, já nem digo na memória, uma data em que sabe sempre bem constatarmos a nossa importância (que nos nossos filhos ainda a sentimos maior) com a gentileza de um telefonema ou seja o que for.

 

Não dói, não irrita.

Mas peço a quem ignora (não no sentido de não as conhecer mas de as desprezar) desta forma as poucas datas a que atribuo alguma relevância o favor de nem pensar em pôr os pés no meu funeral.  

publicado por shark às 00:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Domingo, 18.10.09

EU SEI QUE SIM

 As pessoas especiais revelam-se acima de tudo nas circunstâncias extremas.

publicado por shark às 17:03 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 14.10.09

SIM, TIVE UM DIA DIFÍCIL...

nem mais

 

 

Considerando a minha vontade quase permanente de hostilizar quem me irrita com as suas merdinhas de medíocre e/ou de mal fodido/a, fico muito satisfeito com a minha consciência quando constato o meu apreciável nível de integração social.

No entanto, isso exige de mim um esforço titânico. Acabo cada dia com o pipo às voltas no cimo da tampa por saltar, com a garganta ferida por tanto engolir em seco e pelo efeito das palavras presas como gatos no interior de um saco.

Uma das poucas válvulas de escape que me valem para evitar repetir alguns episódios do passado que quase me valeram o degredo desta sociedade de caca que me vejo forçado a aturar é precisamente a blogosfera.

 

Aprendi a ser cordato, a forçar-me sensato perante as agressões do exterior para não inviabilizar a coexistência pacífica, embora tão distante quanto possível, com o meu semelhante (vagamente parecido, enfim...) por entender que não tenho vida para eremita nem paciência para cultivar o meu sustento.

Por outras palavras, baixei a crista, subordinando-me às múltiplas manifestações de cinismo, de hipocrisia, de baixeza, de cobardia, de estupidez e de mais uma data de coisas que só ignoramos quando não queremos ver ou temos a paz que só a pobreza de espírito pode garantir. Admito que nem sempre me reconheci imune ao contágio dessas pressões constantes, dessas agressões permanentes à minha lucidez e à capacidade de discernir os contornos de uma atitude razoável e inteligente dos que uma postura merdosa engloba.

 

Isso tem um preço, claro, na neura permanente, na irritação abafada, constante, que por vezes deixo aqui transparecer porque é mesmo para isso que um blogue pode servir, para além de me permitir entreter de borla qualquer pessoa que por acaso (ou não) venha parar a este trabalho que afinal não passa de uma panaceia para a minha revolta, para a rebeldia de que abdiquei em prol de uma vida que possa apelidar de normal.

E se refiro o pormenor da borla é precisamente porque nem sempre mantive a compostura perante algumas atoardas com que me mimavam no passado desta cena, numa lata do camandro por parte de quem se sente no direito de aproveitar o anonimato para transportar para esta realidade virtual a outra de que tento escapar por todos os meios, saturado com os aspectos que cito supra.

 

Agora já são raras essas críticas destrutivas, mais baseadas na rejeição do meu carácter impulsivo e com laivos de arrogância, reconheço, e menos na apreciação do que aqui publico porque me apetece e porque não me dá para ir berrar para o meio da rua como um maluquinho a tal falta de pachorra para com quem opta por infernizar as existências alheias em vez de colaborar com uma atitude porreira para todos usufruirmos de um mundo melhor.

De resto, meu ofício é um palco exímio para a constatação de tudo quanto afirmo, já que os ventos da vida ou o destino me arrastaram para a que provavelmente seria a opção mais absurda para alguém com o meu feitio. Mas vou-me safando, à conta do tal esforço de contenção que me desgasta, e até sou tido como um profissional capaz e respeitado nessa condição.

 

Isto tudo para vos dizer, em jeito de desabafo, que tenho dias em que me apetece fazer coisas como pegar num palerma qualquer que se atreva a falar mais alto do que eu num espaço onde pago a renda e espetar com ele no olho da rua, ou retorquir à bruta perante as embirrações dos que se empinam num ascendente, num poderzinho qualquer, para fazerem valer as suas pretensões mesquinhas, ou ainda pior. E nem sempre me fico pela apetência.

Por isso, neste santuário em que a blogosfera se tornou para mim, vou aos arames quando constato que algumas dessas criaturas bafientas, pequeninas e irritantes que me tentam forçar a úlcera ou mesmo o enfarte também frequentam esta comunidade e blogam no seu jeito peculiar que me obriga a calar aqui também a vontade de abardinar sem freio.

 

E pronto, era isto que eu precisava de vos dizer nesta altura.

publicado por shark às 18:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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