Quarta-feira, 26.05.10

POIS, É A MATURIDADE E ASSIM...

Tenho saudades do tempo em que tudo acontecia, como que por magia, quando tinha mesmo que ser. Obstáculos e contrariedades ultrapassados, reduzidos a pó, sempre que se tornava necessário, indispensável, um milagre a acontecer.

 

Só quando somos muito jovens ou, depois de adultos, muito apaixonados conseguimos mover montanhas. Ou pelo menos assim parece, quando nos confrontamos com os sinais da resignação dos outros e da nossa também, quando nos apercebemos que a partir de certa altura já nem lutamos contra aquilo que nos possa limitar de alguma forma a felicidade que achamos sempre merecida. Passamos pela vida mas ela passa-nos por cima, cilindra aos poucos a resistência, o entusiasmo, a ousadia até.

E assim acabamos por perceber o que é afinal isso de envelhecer, de perdermos a combatividade de outrora, a força da paixão pelas coisas, pelos momentos, pelas pessoas, diminuída ao ponto de já nem sentirmos que vale a pena protestar mas apenas aceitar como factos consumados os azares ou as trocas de voltas que antes atacávamos com o desespero de quem não abdica das oportunidades tão raras de ser feliz com algo ou alguém.

 

Baixamos os braços, ainda que o reneguemos com meia dúzia de exemplos gastos pelo tempo até darmos conta de que abraçamos sem hesitar os pretextos que nos permitam sentar o rabo na preguiça e no conformismo que nos defendem das reacções de quem já nem tenta disfarçar a perda do brilho no olhar ou das consequências de insistirmos na crença de que é sempre possível ir mais além seja no que for, contra ventos e marés.

 

Metemos as mãos pelos pés nas tentativas atabalhoadas de explicações alternativas para o fenómeno porque queremos adiar a resignação. Mas acabamos por seguir adiante, com um encolher de ombros ou o engolir em seco que traduzem precisamente a aceitação passiva que afinal escolhemos para nos poupar e aos outros à batalha permanente por coisas que tínhamos como garantidas mas o tempo se encarrega de desmentir, depois de acabar de demolir quaisquer veleidades que a coragem ou a vontade ou outra cena pudessem, noutro tempo, alimentar.

 

Sim, acabamos por desistir.

E quando o percebemos, quando o sentimos na pele, por norma é quase sempre tarde demais.

publicado por shark às 19:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 24.05.10

A POSTA NA AMIZADE SEM CALORIAS

Se há valor inerente à amizade que tem sofrido uma degradação acentuada ao longo das últimas décadas a lealdade assume um lugar destacado nessa condição.

Os amigos, os poucos que justificam tal designação à luz de um conceito de amizade digno desse nome, parecem desvincular-se aos poucos do compromisso de honra tácito que esse tipo de relação pressupõe.

A confiança, antes indispensável para distinguir um amigo de qualquer outra pessoa dos nossos conhecimentos, vê-se hipotecada a toda a hora em inconfidências, difamações e mesmo traições clássicas (as que derivam da proximidade excessiva, os amigos do peito com o dito mesmo à mão).

E o novo retrato da amizade, a moderna, acaba por assentar na partilha de banalidades e na distância prudente ou displicente que os moldes light em voga aconselham ou induzem na maioria da pessoas.

 

Sou particularmente sensível ao tema da lealdade porque dela deriva a possibilidade real de depositarmos confiança em alguém. E não me excluo dos amigos capazes de alinharem no abastardamento das relações, admito, pois não sou isento de culpas nesse particular. Resta-me o consolo de nunca ter ido longe demais, de não ter cometido alguns pecados dos muitos que senti na pele de protagonista da acção. Fraco, bem sei, para quem parece empoleirar-se num estatuto de grande elevação moral. É um equívoco, logo à partida porque nem sempre resisti à tentação de não pagar com a mesma moeda e porque da mesma forma que me indigno com certos exageros dos outros não deixo de me reportar aos meus e sempre com a mesma repulsa pelos comportamentos que sinto como censuráveis seja em quem for.

 

A lealdade não consiste numa espécie de recrutamento implícito nas contagens de espingardas entre amigos desavindos, como aprendi nos últimos anos. Vai muito para lá disso e implica, isso sim, uma garantia por parte de alguém que confia que não será traído/a por quem tome por mais próximo, nomeadamente familiares e amigos “da casa”.

Nem por esses podemos estender a mão sobre o fogo, pois corremos sério risco de nos queimarmos na proporção da confiança demasiada que depositámos em alguém.

E não podemos esperar que mesmo quem desmascaramos na autoria de uma deslealdade qualquer assuma essa falta e tente recuperar a confiança no futuro. O golpe é sempre de misericórdia pois as ligações acabam por se revelar tão fracas que desabam ao primeiro abanão, ninguém dá o braço a torcer porque não há quem reconheça algum mal na falha em aspectos que poucos, quase nenhuns, cultivam.

 

A amizade é quase uma obrigação, um ritual, vivida dessa forma precária, aligeirada, que muitos defendem porque lhes convém às naturezas insensíveis e egocêntricas. Faz falta poder dizer que se tem amigos, ainda que estes de nada sirvam senão de referências para encher a agenda dos telemóveis ou a listagem de contactos no email. Ou porque é bom ter pessoas emocionalmente fragilizadas, defesas desguarnecidas pela tal amizade que as torna alvo fácil de manipulação mesmo quando esta vai no sentido de constituir uma traição a outra pessoa, a outro amigo qualquer.

Seja homem ou mulher, pouca gente se dispõe de facto a investir numa amizade séria, à semelhança do que acaba por se reflectir na sua relação com o amor. As pessoas preferem de facto, talvez porque os tempos assim o exijam, relações descartáveis ou cuja durabilidade não dependa de qualquer tipo de manutenção. Querem amores sem restrições, amizades sem complicações, querem servir-se dos outros sem chatices nem alarido como acabam por aceitar, pela tal necessidade das listas preenchidas, que outros se sirvam de si para o mesmo propósito.

 

Claro que existem as excepções a qualquer regra e ao longo da vida conheci talvez uma meia dúzia delas.

Mas talvez esteja a pecar um nadinha por excesso nessas contas...

publicado por shark às 16:53 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sábado, 15.05.10

A POSTA EM MIM

O prazer de assistir ao início de um novo dia e de sorver o seu calor, a energia da luz que se apaga no lado do mundo para onde parte a madrugada mais a sua bagagem de emoções e de sons que a noite lhe preparou.

A nostalgia de pensar em quem nos amou e a alegria de um presente que reafirma constante um amor prolongado ao futuro que nos sorri assim, na expressão de amores sem fim como os desejamos, de rostos felizes quando os beijamos, de gente que nos quer.

A beleza de uma mulher que me reclama seu, que no olhar me promete o céu e nada menos quando abre os braços para me receber ou as pernas para me dizer sou tua também e amanhã vou querer-te de novo aqui.

A vida a acontecer no filho que vemos nascer e crescer, maravilhosa, essa força poderosa que nos empurra para diante de cada vez que temos presente o quanto é belo sentir esse filho no colo, para sempre como na primeira vez, essa magia que nos explica como é bom acordar de novo em mais um dia e abrir os braços ao sol que nos anuncia a chegada de mais uma oportunidade de experimentarmos a felicidade tão oferecida a cada instante da vida que devemos cultivar como um milagre, afinal.

 

Como um imperativo moral.

publicado por shark às 12:16 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 13.05.10

A POSTA QUE SE DÁ A VOLTA POR CIMA

Ao longo da vida aprendemos a lidar com as pequenas e grandes traições de que as pessoas são capazes, mesmo quando nelas depositamos confiança.

Ao fim de algumas perdas irrecuperáveis por via da reacção instintiva que nos pode levar longe demais na indignação percebemos, a idade tem destas vantagens, que uma das formas (se não a melhor) mais compensadoras de enfrentarmos esse tipo de desgostos é precisamente a de adequarmos a reacção aos contornos daquilo que está em causa moldando-a também à medida, no desplante ou na arrogância, de quem nos decepciona.

 

Vingança é um conceito mesquinho e que na maioria dos casos acaba por acarretar sentimentos negativos e perdas desnecessárias. Por isso mesmo, deveríamos sempre abraçar o conceito de retribuição – uma espécie de princípio do utilizador/pagador.

Em termos concretos, a retribuição consiste num usufruto do direito óbvio a procedermos da mesma maneira que outrem sem pesos na consciência, substituindo a indignação que pode provocar rupturas definitivas pela resignação aparente que nos permite acertar as contas e ultrapassar a sensação de perda com a devida compensação, sem constrangimentos e nas proporções adequadas.

 

A retribuição é por natureza uma opção sensata quando não está em causa sentirmo-nos mal por fazermos igual ao que criticamos ou nos faz sentir ingénuos ou lorpas.

Quer isto dizer que até existem retribuições que encaixam como luvas na nossa própria forma de agir e acabam, bem vistas as coisas, por resultarem compensadoras e constituírem janelas de oportunidade para pequenos ou grandes pecados que em circunstâncias normais nos inibiríamos de cometer.

São pretextos, na prática, para nos deixarmos de merdas e cairmos na real, seguindo adiante com um sorriso em vez do sobrolho franzido que acaba por constituir uma vitória para quem se tenha revelado capaz de algo que teoricamente não poderia fazer.

 

A vida é curta e não se compadece de tristezas ou de recalcamentos. Quando o percebemos é chegado precisamente o momento em que aprendemos a dar a volta por cima, a transformar cada derrota circunstancial numa catapulta para vencermos restrições e/ou princípios palermas que nos impomos em função de critérios que se revelam discutíveis de forma estrondosa na constatação do respectivo incumprimento por parte de terceiros/as.

Em vez de deitarmos tudo a perder podemos antes obter a compensação que a tal retribuição torna consentida por inerência.

 

E essa abordagem pode fazer toda a diferença em dados momentos da nossa existência.

publicado por shark às 10:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sexta-feira, 07.05.10

O LUCRO DO SILÊNCIO

Quem fala primeiro perde.

É assim o jogo da vida quando envolve terceiros. Os mais calados, desde que ostentem sempre um sorriso, nunca são questionados na sua aparente bonomia. E os que optam por deitar cá pra fora podem dizer mil coisas agradáveis que ninguém liga, mas ao primeiro deslize é certo e sabido que ficam marcados pela imagem que transmitirem aos outros.

 

Por isso tenho cada vez mais como certo que o silêncio vale ouro.

publicado por shark às 18:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)

A POSTA NAS MÁS COMPANHIAS

Desde pequeno ouço falar das más companhias. São o terror de qualquer progenitor, embora sejam perfeitas para justificar comportamentos menos correctos, para desculpabilizar as crianças que, devidamente acopladas a um bode expiatório, ficam como vítimas de más influências e parecem menos mal.

 

As más companhias são como o diabinho que disputa com o anjinho a nossa consciência em sentido figurado. São muitas vezes o pretexto para fazermos algo que sozinhos talvez não nos propuséssemos fazer, mesmo quando a vontade é tão irreprimível que basta aquele empurrãozinho para nos predispormos a pecar. E se for na companhia de outrem, fica sempre à mão a má companhia para serenar o espírito quanto ao mau fundo que revelamos em determinadas ocasiões.

 

Mas as más companhias têm, como tudo o que nos facilita o acesso às coisas boas mas proibidas (nem que apenas psicologicamente e não de facto), um reverso da medalha. Muitas vezes servem de testemunha das nossas travessuras e depois dão com a língua nos dentes e entalam-nos. Não podemos queixar-nos, claro, pois más companhias são exactamente aquilo que a designação pressupõe.

É que nunca se sabe o que o futuro nos reserva em matéria de vínculo a esses figurantes de circunstância e depois zangam-se as comadres e fica o caldo entornado, fica exposto o pecado e não há saída possível senão assumir as culpas no cartório de forma humilde e digna ou de forma arrogante e falaciosa. E se a versão humilde acaba por resolver qualquer imbróglio com simples reconhecimento da asneira e subsequente pedido de desculpa a quem se magoou ou traiu no pressuposto da confiança, a outra opção ainda enterra mais a pessoa no lodaçal das fugas em frente que só garantem tropeções e quedas aparatosas.

 

As más companhias, que saem sempre ilesas das caldeiradas porque se escudam por detrás da pessoa acompanhada que acaba por ficar com o bebé ao colo, são por norma pessoas espertas, manipuladoras e desleais. Arrastam os outros como quem não quer a coisa até à beira de um precipício qualquer e depois deixam-se ficar a observar o resultado da aventura, divertem-se até com os riscos corridos pelos outros que desencaminham e sentem a euforia do poder perante a sua capacidade para os tentar.

Saem sempre ganhadoras, essas pessoas falsas no discurso e impunes nas consequências. Na pior hipótese servem de má companhia, de referência para alguém que precise de encontrar uma explicação para os actos surrealistas que mesmo as pessoas que nos sejam muito próximas são capazes de protagonizar.

Por isso se multiplicam, contagiando presas fáceis que se tornam por sua vez (e depois de se perceberem iguais a quem as desencaminha, enquanto suas cúmplices) más companhias para outro incauto qualquer, abertos os precedentes. E destacam-se da multidão devido a um fenómeno fácil de constatar: as más companhias, sempre prontas a substituírem quem manipulam a seu bel prazer, são no entanto exactamente como os criminosos e voltam sempre ao local do crime.

 

O que na maioria dos casos equivale a repetirem as graçolas com outra carne para canhão que lhes ocupe de forma transitória as vidas cheias de piada.

publicado por shark às 12:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 25.04.10

TANTOS ANOS DEPOIS...

...Entre os chaimites da minha infância e os submarinos da infância da minha filha desenha-se o contorno do percurso do país desde a Revolução de Abril até aos nossos dias.

publicado por shark às 22:23 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)

JÁ IA FAZENDO ASNEIRA...

Há pouco publiquei uma posta que tratei de retirar de imediato do charco. Tratava-se da publicação de um comentário que não cuidei de confirmar na veracidade ou, no caso concreto, na totalidade.

Isto porque o comentário reproduzia parcialmente a nomeação da mãe de Francisco Louçã para assessora parlamentar aos 79 anos mas omitia o pormenor não tão pouco irrelevante de se tratar de um cargo sem qualquer remuneração.

O pormenor, claro está, muda tudo. Inclusivamente a minha forma de entender a dita nomeação e o próprio acto de liberdade de expressão de quem publicou neste dia o dito comentário sem fazer alusão ao tal detalhe que faz a diferença.

E isso conduz-me de imediato a outra questão importante que julgo ser boa de debater neste dia em particular: a dos limites para a liberdade de expressão de que a própria blogosfera não pode abdicar, sob pena de hipotecar a credibilidade que reclame.

 

Ao publicar a minha posta iria ser negligente e abusar da minha condição blogueira para juntar mais uns pós a uma suspeita provavelmente imerecida no caso em apreço. Iria fazer o oposto do que o usufruto da liberdade deve representar em matéria de respeito pelos outros e por meios de comunicação, sejam quais forem.

Apercebi-me tarde demais da leviandade do meu gesto, fazendo "corrente" de uma informação incompleta das que facilmente dão origem a boatos que emporcalham as pessoas e constituem, de facto, um abuso e uma negligência grosseira.

Não se pode brincar com o poder da informação no mecanismo de decisão das pessoas acerca de coisas tão importantes no nosso quotidiano como o bom funcionamento do sistema democrático que hoje comemoramos.

 

Embaraça-me o impulso que me levou a publicar antes de confirmar, algo que não posso alegar desconhecer na pele de ex-jornalista ou mesmo na de cidadão que bloga.

E a blogosfera em que acredito e tento defender há quase seis anos não se faz de calúnias ou de armadilhas sonsas como a omissão dos tais pormenores que mudam o sentido das coisas.

Mesmo por interposta pessoa.

 

publicado por shark às 21:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Domingo, 11.04.10

A POSTA QUE OLIVENÇA É MESMO NOSSA

A questão de Olivença é das que mais me incomodam desde que tomei consciência de mim próprio enquanto português e assumi a minha interpretação pessoal do que isso implica. Entendo esse tema, que muitos desejariam encerrado sem ondas nem perturbações, como uma ferida aberta na percepção que tenho do meu país e das regras do jogo que definem uma nação e os limites do respectivo território.

 

Em causa está acima de tudo o respeito pelo Direito Internacional e tudo o que dele emana para salvaguardar a integridade dos países em caso de conflitos que possam ameaçar a soberania, por exemplo, em função do uso da força por parte de uma outra nação.

É o caso do que se passou em Olivença, tendo os espanhóis assinado dois tratados internacionais que entenderam não respeitar, fazendo tábua rasa de pressupostos que são caros a qualquer patriota (como a posição oficial espanhola relativamente a Gibraltar curiosamente confirma).

E não serve de argumento o facto de no presente Olivença já estar noutra. Quando os chineses concluírem o seu processo de assimilação do Tibete a questão morrerá por aí, pelo fim da resistência à ocupação? Isso não implica que vale a pena invadir, desde que aguentemos as posições durante o tempo suficiente para a malta ficar habituada à ideia?

 

Olivença constitui um mau precedente pelo que implica de desrespeito pelas regras do jogo que salvaguardam a existência de cada nação ao longo do tempo e sem interferências resultantes de um circunstancial maior poderio militar. É isso que está em causa, para lá do facto de estarmos perante uma ocupação militar cujo sucesso se deveu apenas a factores conjunturais e à violação de princípios que ainda hoje regem a política internacional, a visão do mundo que se entende por mais universal e correcta.

Nessa perspectiva, e se tivermos em conta a assinatura de tratados como algo de vinculativo e não apenas uma fantochada para desviar atenções, Olivença é formalmente território português ocupado e o assunto não ficará jamais encerrado com base no laxismo dos poderes transitórios ou na conveniência daqueles a quem esta matéria constitui uma pedra no sapato de uma ilusão ibérica que, na prática e enquanto a questão não for enfrentada, será sempre impossível de concretizar.

publicado por shark às 16:40 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 31.03.10

E O INFERNO A TRANSBORDAR...

Existe um fosso cada vez mais largo entre aquilo que se diz e aquilo que se faz.

E quanto mais aumenta a distância entre a prática e a (boa?) intenção, mais o descaramento se impõe.

publicado por shark às 09:45 | linque da posta | sou todo ouvidos
Sábado, 20.03.10

COM OS MEUS BOTÕES

Nem sempre o caminho mais correcto, o procedimento adequado, corresponde no resultado ao que nos propomos obter.

A vida tem o dom de desfazer as certezas absolutas, as jogadas aparentemente astutas com as quais tentamos contrariar qualquer imprevisto, a causa e o efeito como parte de realidades distintas que nos obrigam a repensar a cada instante o quanto é importante não caminhar no arame sem a garantia de uma rede que nos ampare do chão.

 

A nossa influência nos outros, como na vida, não passa de uma ilusão de tão imprevisíveis nos revelamos na forma como nos adaptamos em função das prioridades que precisamos definir.

E de pouco vale insistir, mesmo variando a receita que afinal até pode tornar perfeita a situação para quem busca apenas um interesse egoísta ou se assume contrabandista das emoções.

Não passam de ilusões quaisquer veleidades de alterar as realidades determinadas pelas circunstâncias e que se reflectem nos desfechos que nos desiludem ou nos sinais que nos confundem e assim desmentem o que temos por certo e nos conduzem a uma travessia no deserto da insegurança, da desilusão.

 

Mesmo quando tentamos agarrar-nos à razão, a uma lógica infalível que afinal se prova quase sempre impossível de equacionar onde as variáveis se multiplicam a um ritmo infernal, e buscamos a serenidade na fuga aparente, um passo atrás para o dobro em frente, constatamos que de facto nunca paramos de recuar.

 

Claro que não deixamos de lutar, se é essa a massa que nos faz.

Mas por vezes os desafios tão exigentes colocam em causa até aquilo de que uma pessoa se sente capaz.

publicado por shark às 18:52 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 09.03.10

CLARO QUE ISTO SÃO SÓ COISAS QUE OUÇO DIZER...

Um dos riscos corridos na relação com os outros por parte de quem assume às claras as suas características menos apetecíveis é a colagem a comportamentos associados a esses traços de carácter.
Ou seja, depois de assumidos os defeitos ou meros tiques de reacção o facto de poderem rotular atitudes à luz dos pressupostos cristalizados permite-lhes fugir às suas culpas no cartório e torna-se para os outros uma tentação irresistível.

 

Sim, a frontalidade tem um preço. Aliás, tem vários.
Na interacção entre pessoas complica mais do que ajuda, pelo menos na perspectiva de quem abraça essa forma de ser e de estar. Se por um lado ser frontal poupa uma série de falsas expectativas e desilusões a terceiros, para além de (ainda) ser considerado uma virtude, isso não implica que não se possa tornar num obstáculo sério quando, por exemplo, uma pessoa frontal se vê confrontada com um conflito de interesses qualquer ou apenas com a necessidade de reagir a algo que sente como uma ofensa ou uma desconsideração.
É que é fácil para quem lida com a frontalidade utilizar essa clareza para conotar todo o tipo de reacção para si desfavorável com simples manifestações de mau feitio assumido, abrindo as portas ao paternalismo confortável que descarta as suas falhas e omissões.
É o chamado barulho das luzes, sempre tão a jeito para desviar a atenção do fulcro da questão e aliviar (para os ombros sinceros mas desguarnecidos dos outros) as cargas negativas da conduta de cada um/a...

 

Se sinceridade total é uma flagrante utopia, a frontalidade é uma faca de dois gumes porque coloca quem a usa à mercê das reacções instintivas de quem se sente de alguma forma posto em causa e esses instintos, na maioria dos casos e mesmo sem plena consciência desse facto, podem abranger uma postura cobarde ou apenas hipócrita.
E é aqui que entra um dos tais preços a pagar pela frontalidade: raramente se tem a razão numa disputa, precisamente porque os/as oponentes refugiam a argumentação nos comportamentos “habituais” e nem tentam sequer medir as suas responsabilidades no sucedido. Se a pessoa frontal ou espontânea reage de forma hostil ou exibe o seu desagrado perante algo fica garantida a sua culpa no topo de qualquer explicação eventualmente menos favorável a quem se sente o alvo dessa reacção.
É o chamado sacudir a água do capote, relegando para segundo plano o que verdadeiramente está em causa e centrando a atenção na forte possibilidade de se tratar de uma birra do outro, de um desabafo, de uma consequência natural da sua tendência para um aparente exacerbar das reacções.

 

Estas realidades constituem um golpe de misericórdia no que resta de honestidade nas relações entre as pessoas. Cada vez mais individualistas e obrigados a preservar-nos das vantagens competitivas de quem opta pelo cinismo, pelo ocultar das emoções e dos defeitos, pelo verniz com que se cobrem as pessoas que preferem ficar sempre bem na fotografia, acabamos todos por deixar cair aos poucos a vontade de sermos nós próprios e camuflamos sob o sorriso de circunstância ou a indiferença que um encolher de ombros traduz todas as reacções que nos definem mas, em simultâneo, nos tornam vulneráveis a injustiças várias, a falsos pressupostos constantes e, em última análise e caso enveredemos pela insistência no que sentimos ser nosso legítimo direito, a fenómenos de progressiva rejeição.

 

E esse é um tiro certeiro no mesmo pé onde assentará no futuro a inevitável solidão.

publicado por shark às 09:59 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 28.02.10

O ELOGIO DA LOUCURA

Dizia-me o gajo, e com alguma razão, que a banalização do conceito de excentricidade está a tornar o mundo cada vez mais acolhedor para os malucos. Comportamentos e ideias que há umas décadas atrás garantiam uma estadia no Hospital Júlio de Matos são agora aplaudidos e até remunerados em reality shows das televisões.

E eu olhava para ele, para a sua expressão lunática por detrás de uns óculos com armação dos anos sessenta e para alguns cromos que nesse preciso instante vociferavam na mesa do lado uma teoria da conspiração qualquer, ficava em silêncio e pensava que sim.

 

Às tantas ele até tinha razão.

publicado por shark às 13:08 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quarta-feira, 17.02.10

AOS SEUS LUGARES

O passo a dar, um passo que não se pode adiar mesmo que o medo imponha uma espécie de segredo à mente que prefira fingir não saber.
A realidade a desmascarar a irresponsabilidade escondida por detrás de qualquer fuga disparatada ao tempo que nunca se deixa atrasar.
A corrida a começar com uma falsa partida de quem prefere ignorar o necessário, o indispensável, para garantir uma hipótese viável ao falso atleta refugiado em desculpas da treta para justificar a mente petrificada numa atitude tão arrojada na estupidez e respectiva dimensão.

 

E apenas um instante de lucidez a servir de empurrão.

publicado por shark às 10:37 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 25.01.10

CÚMPLICE POR OMISSÃO

Sempre que num livro ou num filme me vejo confrontado com os demasiados exemplos do nível de barbárie que a História documenta, genocídio, holocausto, massacre, extermínio e tantas outras palavras que albergam horrores que ninguém deveria algum dia conhecer, não consigo evitar o jorro de lágrimas que me denuncia lamechas e me expõe à realidade da minha condição de cúmplice por omissão em quaisquer acontecimentos que uma intervenção enérgica da opinião pública pudesse evitar neste presente no qual me compete, como a qualquer pessoa, onde quer que seja, lutar por todos os meios ao alcance pela erradicação de todos os resquícios de desprezo pela vida e pela dignidade humana que possam eclodir sob capas políticas, religiosas ou outras, num ponto qualquer do planeta.

 

É difícil de gerir, o equilíbrio entre o lirismo de querer acreditar na bondade da natureza humana e o pragmatismo de actuar em força e sem contemplações contra as manifestações que desmintam esse pressuposto. É ainda mais difícil de vencer o desejo de vingança, este por si mesmo uma derrota, para sentir algum sabor a justiça no macabro prazer que qualquer retaliação faculta. É impossível, no entanto, cruzar a ténue linha que nos deita a perder enquanto pessoas de bem por incentivar o (ab)uso da força na manutenção de uma segurança tão débil quanto ilusória.
Nenhuma revolta, justa ou não, pode ser esmagada à bruta pela força das armas. O mesmo espírito dos resistentes que ao longo dos tempos enfrentaram o mal olhos nos olhos está presente nas gerações que o transmitem sob os pretextos ou atenuantes mais à mão, perpetuando-se dessa forma na memória colectiva de povos cansados de sofrer, mas calejados o bastante na arte da sobrevivência para ludibriar e combater sem tréguas, por desgaste, qualquer agressor.

 

São as lições que a História nos oferece e deveriam suscitar um alerta permanente, sempre que constem tiranias, ditaduras, regimes fanáticos em embrião que possam constituir uma ameaça que nascerá da conjuntura como da reacção à injustiça que não poderemos, igualmente, tolerar.
Matar o mal pela raiz não pode depender de operações militares cirúrgicas que decepam a esperança com a primeira vítima criança que qualquer acto de guerra possa provocar. Tal como não é razoável acreditar que alguma paz dure para sempre enquanto existirem focos de fome, de repressão, de miséria, de injustiça, de desequilíbrio tão flagrante como aquele que arrasta para a morte clandestina nas águas do Mediterrâneo milhares de cidadãos do hemisfério sul em busca de uma vida melhor que lhes negamos cá como nas suas terras de origem entregues ao caos.

 

Choro, sim, perante a dimensão do horror com que alguns dos tais episódios “irrepetíveis” conseguiram provar-nos que somos, a Humanidade, capazes de atingir. Visto a pele de pais, de filhos, de pessoas como eu que se perderam num turbilhão com que o seu tempo os armadilhou.

 

E envergonho-me, muitas vezes, do meu papel indirecto em tudo aquilo que não impeço e de que tomo conhecimento, sempre tarde demais, no conforto burguês e civilizado, dos filmes, dos livros e, pior que tudo, dos telejornais.

publicado por shark às 23:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Domingo, 17.01.10

A POSTA NAS COISAS PEQUENAS

Coisas pequenas, a que nem ligamos na maioria do tempo em que nos deixamos alienar por um conjunto de obrigatoriedades que nos impomos, ou assim o permitimos pela vida lá fora, e nos distraem das questões (verdadeiramente importantes) de pormenor.
Pode ser a luz de um sorriso de boas vindas como a constatação de ser sempre perfeita a primeira escolha, a reacção instintiva a um estímulo qualquer.
Pode ser uma coisa típica de mulher, uma simples manifestação da sua inteligência emocional ou da intuição fora do comum que as torna ainda mais fascinantes do que já resultam à vista desarmada de um corpo bonito ou de uma tirada brilhante que nos impressiona.

 

Pequenas coisas a que só damos valor quando nos deixamos levar pelo amor até à visão clara de tudo aquilo que alguém possui para nos presentear ao longo do tempo em que partilhamos um momento que seja da existência.
Gigantes na dimensão, quando abrimos o coração ao que interessa e renegamos aquilo que a cabeça nos propõe em alternativa, carregada do esterco normal que o papel social acarreta. A deturpação das prioridades que o quotidiano implica, mais os medos que a perda de confiança nos outros primeiro e em nós próprios em consequência nos somam quando a pressão se faz sentir com força demais.

 

A dificuldade extrema de gerir vidas a dois, num mundo talhado para uma atitude individual, solitária a bem dizer, e que torna cada história de amor numa missão (quase) impossível faz parte do mesmo problema, dessa amálgama de influências que nos dispersa e em última análise nos afasta da simplicidade das emoções. Uma catadupa de complicações nascida do nada, do exterior, que nos afasta aos poucos do amor genuíno e sem reservas, que nos inibe de aceitar que é normal esse perigo de alguém se apaixonar pela pessoa ou no tempo errados e que é bom sentirmo-nos apaixonados pois essa é uma das formas mais bonitas de percebermos como é bom ser feliz.

 

Coisas pequenas, ou nem por isso, que fazem toda a diferença perceber ou sentir. A alegria de fazer alguém rir das nossas chalaças, de constatar o prazer que provocam as nossas presenças na sua vida e tudo em vice-versa.
Coisas que sempre o coração e jamais a cabeça poderá descodificar para a linguagem acessível da felicidade que é mesmo possível quando sabemos distinguir a mensagem que o peito tenta transmitir da que o outro centro emissor (que nada percebe do amor) nos impinge para afinal nos arrastar para a má onda e a tristeza.

 

Mas eu tenho a certeza que um dia conseguiremos alcançar a vitória e assim mudaremos a História com o poder que o amor pode revelar quando nada interfere com a sua actuação.

 

Jamais na cabeça, sempre no coração.

publicado por shark às 17:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Segunda-feira, 04.01.10

PIMENTA E COCA-COLA

Existem duas formas mais ou menos descaradas de nos metermos em bicos de pés, superiorizando-nos de alguma forma aos outros. A mais descarada é dizer a coisa de caras: sou o/a maior e não há ninguém que me convença do contrário. A menos descarada, pelo menos à primeira vista, consiste em dizer a coisa de esguelha: todos os/as outros/as são inferiores por isto ou por aquilo (por uma questão lógica, se os/as outros/as são inferiores quem aponta essa inferioridade superioriza-se do ponto de vista teórico, por comparação).

 

Quem se assume superior de forma descarada costuma merecer de imediato os rótulos mais à mão para mimosear tal descaramento. Arrogante, convencido/a e por aí fora que a malta não admite esse tipo de vaidades assumidas seja a quem for.

Contudo, quem opta pela outra via (a de cernelha) costuma ser poupado/a às reacções hostis dos papalvos que não topam logo a jogada e até se solidarizam com a pessoa tão expedita a detectar as falhas e defeitos alheios.
Papas e bolos, no fundo.

 

Claro que tudo isto da superioridade se esvai quando percebemos que todos nos sentamos numa sanita algures em cada dia e a todos a crista murcha quando a mísera condição humana nos é esfregada nas ventas com um percalço qualquer que nos exponha a fragilidade, a precariedade de qualquer conjuntura favorável que pode sumir num instante.
Ou seja, somos superiores a nada e a ninguém ainda que aqui e além consigamos a vitória pontual ou qualquer outro ascendente momentâneo que se pode esgotar num ápice ou nem chegar a valer aquilo que pensamos.

Feitas as contas, a superioridade faz parte do que enterramos no chão quando acaba o pavio. Todos iguais, mais terra menos terra, mais pedra menos pedra.

 

No entanto, não faltam (por exemplo) na blogosfera as pessoas hábeis em tornear o descaramento (e a insensatez) de se presumirem superiores com base na tal estratégia subversiva de esmiuçarem tudo quanto lhes soa menos bom (inferior) nos seus pares. E recolhem dividendos junto das legiões de gente embasbacada perante tamanhos fenómenos de argúcia e de lucidez, gente anestesiada pela falinha mansa (ou nem por isso) de falsos/as humildes que ocupam o pedestal daqueles/as que derrubam com a perspicácia e capacidade de observação superiores que assim manifestam.
É tolo, visto desta forma. Mas continua a ser tolo visto de qualquer outra.

 

Nem é preciso um esforço de raciocínio superior (lá está...) para lá chegar, a essa conclusão irritante para muitos/as. A superioridade é sempre temporária e relativa, estupidamente subjectiva. E por isso ninguém a pode reclamar, mesmo sob a capa protectora da pedra lançada aos telhados de outrem, sob pena de um dia se escaqueirar a pala. E acreditem que sei do que estou a falar, não me superiorizo seja a quem for nessa matéria nem arrisco tirar o cavalinho da chuva no que respeita às tentações levianas que um simples complexo de superioridade descontrolado ou de inferioridade mal encaixado podem suscitar.

 

Sei, dessa forma, que esta posta constitui por si só um exemplo flagrante de tudo quanto nela afirmei. A lógica funciona assim, com a dinâmica bumerangue que qualquer raciocínio consegue produzir.
Mas aceito com humildade desmascarar-me na condição de imbecil armado ao pingarelho, apontando nos outros aquilo que sinto como um defeito e assim arriscando obter o tal dividendo do reconhecimento que nada fiz por merecer na ocasião.

 

A diferença, a minha tábua de salvação, reside apenas no esforço titânico para sacudir do capote qualquer tipo de ambição de natureza elevatória. Não sou melhor que ninguém e quem me dera conseguir manter um nível à altura de muita gente que respeito e admiro ao ponto de rejeitar aceitá-los/as superiores.

publicado por shark às 18:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Domingo, 03.01.10

EM CADA CINCO PORTUGUESES

Um é pobre e só sobrevive com a ajuda de terceiros.

publicado por shark às 13:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Terça-feira, 29.12.09

DADOS ADQUIRIDOS

Ouvi ontem num programa de televisão o desabafo de um actor anão quanto às lamurias de amigos preocupados com a queda do cabelo e coisas assim, sendo fácil de conceber o quanto o entediam essas queixas que só podem mesmo derivar de uma tendência generalizada para a auto-comiseração.

Outra vertente do problema é a incapacidade de discernir as questões sérias das acessórias, acabando isso por resultar no excessivo enfatizar de coisas menores em detrimento das verdadeiramente importantes que se deixam ao relento próprio do que temos por certo e seguro.

 

Depois ocorreu-me a situação na nova Pérsia, o Irão que de repente se tornou num papão, numa ameaça, mas onde está a acontecer uma revolta crescente por parte de quem já não suporta mais a progressiva perda de direitos elementares como a liberdade de expressão.
É óbvia a reacção instintiva do poder iraniano, aliás, de qualquer poder perante a insurreição cada vez mais difícil de conter. A limitação da Imprensa estrangeira, a restrição do acesso aos telemóveis e, naturalmente, à internet constituem os anti-corpos de qualquer regime ditatorial e provam que mesmo em democracia existirá sempre uma propensão para controlar a informação como forma de evitar a propagação de movimentos e/ou de ideias incómodas para quem calha mandar.

 

E de imediato me foi fácil chegar ao queixume dos que na blogosfera se afirmam sem ideias, saturados, esgotados e, grosso modo, sem pachorra para alimentar este instrumento de liberdade que temos mas não poderemos jamais (os sinais em sentido contrário multiplicam-se) ter como garantido na sua forma actual.
Os iranianos reformistas, amordaçados pela teocracia fundamentalista instalada no seu país, bem gostariam de poder postar como nós. Bem gostariam de poder revelar a sua verdade dos factos que os líderes em Teerão tentam a todo o custo impedir de chegarem ao conhecimento da sua população e da do resto do mundo que a possa ajudar na luta pelos direitos essenciais.

 

Por isso percebo o quanto não passamos de meninos mimados, ocidentais estragados pelo excesso de tudo e mais alguma coisa que nos priva (também) da lucidez necessária para defendermos com unhas e dentes o pouco de bom de que efectivamente dispomos.

E entre essas benesses que pouco ou nada fazemos por merecer está este direito de que usufruo e convosco partilho e do qual não tenciono abdicar.

publicado por shark às 14:17 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Sexta-feira, 18.12.09

PH NEUTRO

Eu sei que há umas décadas atrás correria o risco de escrever pharmácia, mas continuo sem pachorra nenhuma para o acordo ortográfico e é um facto (sem gravata) que terei que me assumir arcaico na escrita e velho do restelo no que respeita a esta idiotice talhada para me enervar ainda mais do que o desaparecimento dos contos de réis.

 

Contudo, e para contrabalançar, sou um dos poucos cidadãos a quem os pruridos relativos ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e, acima de tudo, à adopção por parte desses casais nem aquece nem arrefece.

É mesmo uma questão simples para mim. No que respeita ao sexo, ao amor e a tudo quanto diz respeito a direitos, liberdades e garantias não há géneros. Em nada me atormenta o casamento que formaliza uma união que de facto o é, entre pessoas (o assunto morre aqui) do mesmo sexo (isto é um detalhe que só chateia empatas).

E ainda menos me preocupa o direito a pessoas adoptarem crianças se for clara a sua aptidão para o acto.

 

Era só o que faltava, sentir-me no direito de proibir (ou mesmo julgar) seja quem for de usufruir de direitos que temos enquanto cidadãos e não perdemos em função das nossas preferências sexuais tal como em função do nosso estatuto de fumadores.

Só quem nunca visitou um orfanato ou não consegue vestir a pele de uma criança entregue a essas generosas (mas impotentes) instituições pode beliscar sequer o mérito de uma legislação que abra as portas à adopção por parte de mais pessoas e, note-se, mais interessadas por todos os motivos em darem o seu melhor para se provarem capazes perante esta sociedade de responsabilidade ilimitada no que concerne à castração da felicidade do outro.

 

Quando, daqui a uns anos, for gozado, marginalizado até, por me recusar a deixar cair os cês e os pês (tal como já vai acontecendo quando falo em cinco contos no lugar de 25 euros) que mesmo a associação dos professores de português tem pressa em ver imposto (o malfadado - malfodido?- acordo) irei sentir na pele essa tendência(zinha) portuga para buzinar as diferenças dos outros (outros são toda e qualquer minoria).

 

Mas para já, que ainda posso adoptar sem restrições a língua pátria que me ensinaram e as crianças que bem gostaria de poder ajudar a crescer num país livre destas merdas, sinto-me feliz com o facto de o Governo que escolhi ter na mesma altura acabado com uma vaca sagrada dos botas de elástico (a proibição dos casamentos entre homossexuais) e adiado a aplicação do cavalo de batalha daqueles para quem a adoção de uma nova língua é de fato uma coisa muito modernaça (ou agora é com dois ésses?).

publicado por shark às 14:09 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (11)
Sexta-feira, 11.12.09

A GENTE SECRETA

Como os predadores ou as aves de rapina. A atenção à debilidade inesperada, a rapidez de reacção depois de detectada, a paciência e a persistência dos que seguem determinado objectivo com um espírito de missão, características essenciais dos parasitas emocionais que aguardam na sombra um indicador de fragilidade que lhes facilite o caminho até à presa marcada por um motivo, um capricho qualquer.

 

Gente que sabe bem o que quer e não desiste desse direito que assiste ao mais forte na selva, de acordo com a lei. Gente que não fala e que não sente, movida por uma sede de vingança, em resultado de uma obsessão ou apenas porque se sabem numa posição mais favorável do que os oponentes de circunstância, os entraves a eliminar com infinita paciência em pequenos golpes que fazem sangrar até o sangue se esgotar no coração ou na cabeça fraca.

 

A presa que se marca para abater, sem pressa de o fazer, à espera na sombra por um dia ideal, um momento especial pela negativa, aproveitado como uma porta aberta para um ladrão ou uma ferida escancarada para germinar uma infecção, a presa debilitada pelos rigores de uma vida mais invernosa ou de uma desilusão amorosa, à mercê daquilo que qualquer oportunista vê se mantiver a concentração e vestir a pele de camaleão que mais se adequa à conjuntura propícia para atacar, como um falcão em voo picado no céu.

Gente que sabe bem o que quer.

 

E raramente não conquista o troféu.

publicado por shark às 14:47 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Terça-feira, 08.12.09

MOMENTOS ASSIM

Momentos vividos, momentos guardados nos arquivos (com)passados de onde nos chegam imagens e cheiros ou ritmos e sons. Momentos maus e momentos bons, de uma vida que aconteça.

Uma vida que jamais desfaleça no torpor da ausência da amizade e do amor, das emoções que sentimos e das reacções que lamentamos mas fazem parte de um caminho marcado pela interacção.

 

Momentos sentidos no coração, momentos vividos que não queremos esquecidos pois assim serão perdidos e esse seria o seu fim. Momentos incríveis e provações terríveis que recordamos, coisas ligadas às pessoas que amamos ou apenas nos marcam algures pelo caminho.

 

Momentos por viver com imenso carinho, momentos para aproveitar enquanto duram. As coisas que nos encantam ou nos magoam, sensações. Momentos inesquecíveis ou imensas desilusões, aprendizagem. Momentos que fazem parte de uma passagem sem regressos ou repetições, valiosos. Tudo o que somos nesses arquivos que precisamos alimentar com urgência ao longo de uma existência que um dia acabará nesta dimensão.

 

Momentos sempre intensos, os melhores condimentos para os saborearmos com paixão.   

publicado por shark às 19:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Terça-feira, 24.11.09

LÓGICA MUSCULADA

Quando o confrontaram com o facto de disputar uma amada com um verdadeiro adónis com anos de ginásio e nem um minuto de biblioteca encolheu os ombros e respondeu com serenidade:

- Não me parece que ele seja um concorrente. É que a mim bastariam poucos anos de preparação física para ficar como ele nessa dimensão e não esqueceria o que entretanto aprendi, mas o gajo teria que investir muitos mais no cérebro para se equiparar a mim. E no final desses anos sem trabalhar o corpo ficaria como eu estou agora...

publicado por shark às 10:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sábado, 21.11.09

CAUSA E EFEITO

É estranha a sensação, mas de facto existe uma relação inversamente proporcional entre o nosso empenho e a reacção (qualquer que seja) das outras pessoas.

Ou seja, ficamos muitas vezes com a impressão que quanto mais damos menos motivados os outros se sentem para retribuir.

Claro que não está em causa algum imperativo moral que obrigue seja quem for a dar em troca, mas fica sempre no ar a ideia de que esta (falta de) correspondência pode ter um efeito pernicioso na motivação seja de quem for.

 

O problema está na percepção com que se fica perante o abrandamento progressivo do interesse dos outros em função da nossa maior capacidade de iniciativa, algo que em última análise influencia a vontade de fazer.

Por outro lado, e quando a essa diminuição dos gestos e sinais positivos por parte de quem os recebe em excesso correspondem outras manifestações de desinteresse crescente, é quase impossível que alguém insista nos exageros que tendem, pelos factos comprovados, a afastar os outros de si.

 

Cada vez acumulo mais conhecimento acerca do meu semelhante e isso equivale a saber cada vez menos daquilo que o move.

publicado por shark às 14:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Quarta-feira, 18.11.09

TEMPOS ESTRANHOS

Em determinados períodos a vida parece tentar confundir-me com o envio de sinais estapafúrdios ou simplesmente contraditórios. O melhor e o pior, em vagas sucessivas de desorientação de qualquer esforço racional.

 

E se aos acontecimentos súbitos, fortuitos e inesperados que fogem ao meu controlo posso chamar apenas acidentes de percurso, aos indicadores que me são fornecidos pelos outros nem encontro um rótulo para aplicar.

publicado por shark às 10:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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