Sexta-feira, 09.07.10

ECLIPSE TOTAL

É raro, mas de vez em quando a marafilha lá me consegue arrastar para uma sala de cinema (mais de um conto e duzentos por pessoa, mais pipocas e cola, toma lá para abrires a pestana).

E assim, somando-lhe a fase dvd da questão, lá venho tomando contacto com pérolas como o À Procura de Nemo, a saga Rei Leão, o Kenai e Koda e afins.

Claro que o tempo não abranda e de repente dei comigo a comprar bilhetes (mais de um conto e duzentos, pá, seis euros e picos, é puxado...) para um filme do tempo dela que já deixou de ser o do Mogli, da Pocahontas e similares.

Regressei, pois, a uma sala do Vasco da Gama para assistir ao derradeiro componente de uma trilogia (sempre um risco elevado).

Eclipse, nem mais.

 

Ultrapassado o choque de perceber a marafilha mais interessada nos contornos depilados dos esculturais lobisomens da história (o tempo dos monstros peludos já lá vai e os lobos maus deram em lobinhos bons) do que nas florinhas e nos passarinhos, lá me prestei a ver a coisa e assim livrar a vizinhança de um ronco tipo casa das máquinas.

Claro que não vos vou contar o enredo (embora talvez até fosse um favor que vos fazia), mas posso adiantar que a coisa até mete os tais lobos que afinal (ouvi dizer) nem são maus de todo e os capuchinhos são vampiros capazes de expandirem a depilação da matilha de mutantes até ao osso.

Também há humanos na história, mas na maioria servem de figurantes na refeição da vampiragem. E há uma moça, protagonista e tudo, que é humana mas com apetência latente por uns leucócitos e umas plaquetas aqui e além.

A moça, coitada, de representação não percebe nada. Mas é girita, politicamente correcta (virgem apesar de já ter carta de condução, coisa de filmes...) e anda ali na película toda dividida entre um lobisomem com pouco pelo e um vampiro com pouco agasalho.

 

Aliás, a cena mais intensa (chamemos-lhe assim, prá pala Lauro António ou Mário Augusto) acontece precisamente no pico da disputa entre o tipo desalmado e o rival tosquiado que lhe cobiça a piquena.

A sério, depois de os ver rosnarem um ao outro (literalmente, no caso do lobito) com a moça a fazer de bola de pingue-pongue (mas com menor intensidade dramática) ao longo de boa parte do filme é quase pungente um momento em que o trio se reúne numa tenda, a moça tirita de frio, o lobisomem em tronco nú pretende valer-lhe com a sua dimensão vulcânica e o outro, coitado, tem que ceder ao superior interesse da garina e deixa o outro enroscá-la em si dentro do saco cama por não poder cumprir ele próprio a função (parece que são frescos, os vampiros, apesar de no caso em apreço serem mais peludos no peito do que os lobisomens).

O diálogo entre ambos, do outro mundo, enquanto a jovem dorme no peito do menino lobão, quase, mas quase nos dá vontade de ver interrompida a palestra com um prolongado beijo na boca entre os dois machos alfa tão ternos um para o outro ao ponto de quase ignorarem a presença da virgem pseudo assanhada mas tão capaz de partir a mão com um murro para punir um beijo como de insistir com o totó do chupador de sangue para lhe tratar do assunto mesmo antes de consumado o matrimónio que ele(!) tenta impor como condição essencial para se alambazar com a fruta.

 

Bom, e pouco mais vos posso dizer acerca deste eclipse (só pode ser, e dos prolongados, dada a facilidade com que os vampiros andavam à trolha em plena luz do dia) cheio de dentadas e de louça partida (só vendo o filme percebem esta...).

Se precisarem de um entretenimento familiar sem esforço intelectual estão ali tão bem como em qualquer outro lugar.

 

Ah, mas tentem apanhar lugares nas filas mais distantes da tela.

A barulheira lá à frente não nos permite... meditar acerca das profundas (caninos compridos é no que dá) questões levantadas nesta jovem película.

publicado por shark às 01:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (17)
Quarta-feira, 05.05.10

A VOZ DO DONO

Uma das peças do jornal da meia-noite da SIC Notícias consistiu na informação acerca dos resultados financeiros da Impresa, a casa-mãe.

E quando os jornalistas reafirmam a sua independência face ao poder dos grandes conglomerados dos media que lhes pagam os salários resta-nos acreditar que naquela redacção têm uma noção de prioridades meio aleatória...

publicado por shark às 00:38 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Segunda-feira, 03.05.10

AO MENOS PRENDESSEM AMBOS, PARA NÃO PARECER MAL...

Uma escola no norte, situada a cerca de cem metros de uma esquadra de polícia, foi assaltada por mais do que uma vez. Às tantas o vigilante da mesma apanhou o gatuno em flagrante e acabou por lhe dar dois tiros, numa mão e numa perna, e lá apanharam o criminoso.

Mas qual criminoso? Precisamente o vigilante, que está detido, enquanto o outro, o presumível inocente, está em liberdade.

 

Isto vai fazer um sentido do camandro, claro como água e assim, para qualquer jurista.

Mas para mim não faz nem fará, seja a que pretexto for, sentido algum.

publicado por shark às 21:10 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sábado, 01.05.10

A SEDE DE BODE

Um gajo vai na boa pela estrada a bordo do seu automóvel. No meio dessa estrada mal iluminada e sem bermas aparece-lhe um grupo de peregrinos à saída de uma curva e acaba por atropelar dois ou três.

Não tem qualquer hipótese de evitar o acidente e não lhe pode ser imputada qualquer culpa ou responsabilidade no mesmo.

Contudo, é submetido aos testes de despistagem de álcool e de drogas, facto que os jornalistas salientam até descobrirem que tem carta há pouco tempo e citarem esse facto como quem não quer a coisa. Mas quer, como toda a sociedade, um pretexto, um culpado, uma razão alheia à falta de bom senso dos caminhantes.

 

Algo que explique a falha de Deus na protecção dos seus mais fiéis que caminham pela fé, muitos a pé, para Fátima.

publicado por shark às 16:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (21)
Terça-feira, 30.03.10

A LOUCURA ESTAMPADA NO RESTO

Nos EUA (where else?), um garoto com doze anos de idade enfrenta a hipótese de uma pena de prisão perpétua por ter assassinado a madrasta com uma espingarda, a sangue frio e sem mostrar qualquer sinal de arrependimento.

De acordo com a notícia que ouvi, a espingarda fora-lhe oferecida pelo menos um ano antes pelo próprio pai.

 

Prisão perpétua para quem, desculpe?

publicado por shark às 19:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quarta-feira, 03.02.10

A POSTA NAS BOCAS DO INFERNO

São indissociáveis, a boca generosa mas um nadinha palerma da Manuela Moura Guedes e a boca retorcida mas um nadinha imbecil do Mário Crespo. Foram unidas, siamesas, pela intervenção cirúrgica (uma lobotomia) dos que se entretêm a produzir mártires da Imprensa para a Imprensa glorificar.

 

A liberdade de expressão, essa jovem motivadora de uma súbita ansiedade de muitos dos que há umas décadas atrás anuíam agradados pela sua bolinha baixa, está de novo a servir de mote para um qualquer figurante se empoleirar num falso estatuto de protagonista.
O filme em causa é uma produção fictícia embora de humor só tenha o ridículo do guião. A Manuela, tal como o Mário, são sumidades fabricadas, tão made in china como as lanternas baratas que começaram a inundar o mercado na ressaca do sismo no Haiti e surgiram igualmente por coincidência e não por virem a talhe de foice para agitar as águas passadas do papão da maioria absoluta que meses atrás, no episódio da Manuela, ainda poderiam ter esse álibi democrático (adoro estas expressões da moda) mas no caso do Crespo pecam por absoluta falta de nexo.

 

Bom, começo por declarar publicamente a minha aversão aos dois cromos a que acima faço referência. Isto para que não restem dúvidas quanto à parcialidade da minha opinião.
Essa indiferença que degenerou em repulsa na sequência das pantominas do par de figurões (figurinhas) deriva da minha avaliação enquanto espectador e leitor daquilo que foi o seu trabalho medíocre ao longo dos anos em que os suportei.
Uma e outro quase se celebrizaram pelas suas tiradas a despropósito ou, mais frequentes, pelos seus excessos típicos de quem comprado pelo que vale e vendido pelo que julga valer renderia uma fortuna a qualquer negociador.

 

Essa é a minha opinião de amador, de anónimo a quem impingem estes fósseis por questões conjugais (tirem o pedestal moniz à manela e logo se verá o tamanho do trambolhão) ou por simples habituação (como um gajo usar sempre a mesma marca de lâminas só porque sim, porque é costume e tal) ou apenas porque neste país os medíocres continuam a promover-se entre si à fartazana e depois dá no que se vê e se lê.
Da Manuela Moura Guedes retenho uma tentativa de execução sumária de Marinho Pinto em directo. Saiu enxovalhada, o Bastonário não é um menino de coro, e deveria ter sido corrida do seu posto logo nessa altura.
E do Mário Crespo fixei uma entrevista a um médico ao longo da qual o jornalista interrompeu o entrevistado de forma repetida para falar de um seu problema antigo de saúde e acabando por transformar a dita entrevista numa consulta de Clínica Geral ao vivo.
São duas referências a que por acaso assisti e dizem o que há a dizer da personalidade da dupla-maravilha que dá a cara (ainda maior azar o nosso) pelo novel fantasma da censura aos grandes profissionais da informação parola e umbiguista da nossa praça.

 

Por tudo isto não consigo entender o alarido em torno de seja o que for que envolva aqueles dois e só falo no assunto porque de vez em quando um gajo precisa de temas actuais para uma posta e qualquer palhaçada é sempre um tema divertido para escrever.

publicado por shark às 12:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Quarta-feira, 13.01.10

A POSTA ANCORADA

voltas trocadas 

 

Uma das maiores fontes de sarilhos que enfrentamos no dia a dia é o que pode resultar de uma má gestão das expectativas. Se, por um lado, ambicionar em excesso conduz invariavelmente à desilusão, ser pobre a pedir nem sempre nos poupa a surpresas mais ou menos desagradáveis.

 

O equilíbrio é um must de qualquer existência tranquila. Por isso é tão premente o adequar das nossas acções em função dos resultados que almejamos. E nestes reside o busílis de muitas das questões com que nos confrontamos, surpreendidos pela negativa ou pelo seu antónimo de acordo com aquilo que traçamos como objectivo para justificar o nosso empenho.
Quero com isto dizer que é importante sabermos a todo o instante até que ponto os nossos actos e omissões podem conduzir a um ou a mais desfechos, no sentido de nos prepararmos para todas as eventualidades e de medirmos as consequências potenciais dos mesmos.

 

Na gestão das expectativas, como em qualquer outra, não podemos descartar o poder das variáveis. É uma questão mais pragmática do que lógica ou matemática, esse cuidado com as probabilidades que nos deveria obrigar a equilibrar o binómio acção/reacção (consequência?) para evitarmos as tais surpresas que nos entalam.
Se é importante apontarmos as baterias para uma disciplina permanente em termos de limites para a nossa iniciativa, é ainda mais importante termos em conta os planos de contingência para salvaguardar a perda do tal equilíbrio fundamental entre a dinâmica das nossas pretensões, a ambição que é o motor de todas as realizações humanas, e a ponderação dos desvios possíveis em função das circunstâncias.
Concretamente, ou sabemos exactamente o que queremos e o que nos propomos fazer para o alcançar ou acabamos a vaguear à deriva sobre o mar encrespado das consequências dos excessos que conduzem a finais menos felizes.

 

Claro que o exemplo extremo a que alude a ilustração desta posta serve apenas para definir os contornos de uma má gestão das expectativas, de um resultado possível para um desvio sem rede à linha de orientação previamente definida.
Mas clarifica o sobressalto possível que nos espera, aos impulsivos em rédea solta, sempre que embarcamos num entusiasmo juvenil sem acautelarmos a presença a bordo de uma âncora...

publicado por shark às 14:47 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 07.01.10

A FRASE MAIS INÚTIL E IRRITANTE

Eu bem te avisei...

publicado por shark às 22:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)
Quinta-feira, 26.11.09

PELO SIM, PELO NÃO, FALO DE PILA

Reparei, durante a minha vista de olhos pelas últimas postas publicadas, que voltei a entrar num daqueles períodos em que me disperso por temas de caca, coisas sem interesse algum para a maioria dos visitantes de blogues sem rumo temático como o Charquinho.
E por isso resolvi hoje retomar os temas verdadeiramente importantes para a esmagadora maioria de nós, as coisas que mexem com o dia a dia das pessoas. Sim, vou falar de pila e das questões que lhe estão associadas (sim, eu sei quais são as questões que lhe estão associadas mas não gosto da palavra testículos).

 

Começo por esclarecer que o meu interesse na matéria não incide na óptica do utilizador. Ou melhor, de usufrutuário de outras pilas que não a minha. Isto só para separar as águas para melhor entendimento do sentido das minhas palavras, para facilitar a leitura e assim.
Esse interesse a que faço alusão prende-se com o arquétipo da pila perfeita que conseguimos esboçar a partir de uma análise atenta dos desabafos, elogios, críticas e até louvores que proliferam por essa net e pelas mesas de café do lado por esse país fora.
É fascinante a diversidade de opiniões acerca desse tema, embora seja igualmente óbvia a relativa ausência de controvérsia no que concerne ao padrão da melhor pila para cumprir outra função que não a de fazer chichi.

 

Das conclusões fáceis de retirar mesmo a partir de uma observação (ou de uma audição indiscreta como quem não quer a coisa) inclui-se a de que o mito masculino do tamanho, esse incontornável critério de avaliação, não é documento. É consensual entre os/as apreciadores/as do membro em apreço que os extremos não atraem, sendo que demasiado pequeno sabe a pouco e demasiado grande é ter mais olhos que barriga (chamemos-lhe assim). Ainda assim, excepção feita a quem por esta ou aquela razão possui apetência pelo exagero, é clara a opção pelo nem bem nem mal passados e dentro deste segmento existe uma inclinação pela classe média/alta em detrimento das pilas remediadas ou assim-assim. Aquela do pequenino mas trabalhador não cola...
Quer isto dizer que o tamanho, não sendo documento, possui alguma relevância enquanto factor de distinção embora não constitua factor eliminatório.

 

A inclinação para o segmento mais abastado não possui referências frequentes à inclinação propriamente dita. Ou seja, tanto faz a tendência ideológica de esquerda ou de direita embora o ícone mais popular aponte de caras para o centro.
De resto, a política não parece interferir tanto nos critérios de definição da pila ideal como o respectivo estatuto sócio-económico como o defino no parágrafo anterior.
No entanto, é inevitável regressar à sensível questão das dimensões para abordar o diâmetro enquanto argumento. E nesse aspecto há que salientar uma preferência maioritária (com excepções à regra em função do destino a explorar) pela largueza. Curta ainda vá, mas diametralmente generosa para compensar.

 

Fui surpreendido, talvez pela combinação de cromossomas que me influencia o raciocínio, pela escassez de alusões às tais questões acessórias ou associadas.
De facto, a uma pila perfeita não parece estar necessariamente ligado um conjunto específico (ou especificado) de acessórios de origem. É a regra do tanto faz, tamanha a irrelevância do(s) pormenor(es). Desde que lá estejam e cumpram cabalmente a sua função até podem ser quadrados que ninguém parece reparar por aí além.

 

Finalmente, e para não tornar demasiado extensa esta desinteressada análise ao tema, resta-me citar os únicos aspectos onde a unanimidade é um dado adquirido: pila perfeita, qualquer que seja o segmento em que encaixe, tem que ser sólida (nas convicções, presumo eu), capaz de enfrentar desafios prolongados tanto na óptica da velocidade como da resistência sem vergar ao peso da responsabilidade ou outro.

 

E acima de tudo, de acordo com os elementos obtidos (que eu disso não percebo nada), a pila perfeita tem que reflectir no desempenho aquilo que se espera por parte do resto que traga agarrado.

publicado por shark às 18:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Segunda-feira, 19.10.09

NÃO É LIVRO QUE SE RECOMENDE

Raramente concordo com o Saramago, mas desta vez subscrevo cada uma das suas palavras a propósito da Bíblia.

publicado por shark às 21:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Segunda-feira, 28.09.09

POLÓNIA INSTAURA CASTRAÇÃO QUÍMICA

De acordo com a Reuters, a Polónia acaba de tornar obrigatória a castração química, após cumprimento das respectivas penas de prisão, para todos os pedófilos autores da violação de crianças com menos de 15 anos de idade.

 

Para contrapor os queixumes dos defensores dos direitos humanos(?), o PM polaco foi claro, afirmando que criaturas assim são degenerados a quem não se pode aplicar de todo a expressão humanos.

 

Acho que nem preciso de vos maçar com a minha opinião acerca desta sensacional medida legislativa.

publicado por shark às 22:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 24.08.09

UM AZAR, A FALTA DE BOM SENSO

O acidente de caça no qual um pai disparou quase à queima-roupa um tiro na cabeça do próprio filho, provocando-lhe morte imediata, suscitou-me a mesma reacção que tive aquando da situação do fulano que deixou morrer o filho bebé dentro do carro por esquecimento.

E tentei descobrir onde está o paralelo entre uma negligência grosseira e uma irresponsabilidade foleira que provocaram uma mesma reacção da minha parte, a condenação imediata dos dois progenitores pela suas falhas com consequências tão trágicas.

 

Perder um filho é o castigo mais cruel que consigo conceber para alguém, sobretudo quando a responsabilidade pela perda é directamente imputável a alguém a quem cumpra o papel de mãe ou de pai de um ser humano. Essa crueldade leva as pessoas mais sensíveis a perdoarem de imediato os protagonistas, coitados, vítimas de um enorme azar, daquelas coisas que acontecem. Mas eu, que até gosto de me achar um gajo porreiro e tal, não alinho nessa misericórdia, nessa solidariedade que desculpa os erros dos outros ao ponto de nem servirem de lição a outros como eles, capazes de levarem um filho para o meio de um número indeterminado de armas de fogo nas mãos de sabe-se lá quem ou de se esquecerem de uma criança de colo numa viatura fechada.

Sinto-me desconfortável com essa chocante incapacidade de enviar palmadinhas nas costas virtuais a quem falha de forma tão grotesca com uma missão de que até a maioria dos animais se mostra capaz: cuidar de uma cria.

 

Não estou livre de um dia uma má decisão, dizer sim quando deveria dizer não, se poder virar contra mim por fazer a diferença pela negativa na marafilha que tanto adoro. Mas estou, isso sim, descansado quanto ao meu discernimento do que é razoável, dos riscos a que posso expor ou não a minha cria, e não vejo razoabilidade em levar um filho para a caça, não consigo conceber essa possibilidade como normal na cabeça de um pai que ame um filho por ser tão forte o instinto protector.

O que me distingue então desses pais, ao ponto de o meu discurso, como a minha actuação, não deixar margem de manobra para paninhos quentes se algum dia errar assim?

Pouco, ao nível social, pois igualmente serei merecedor da complacência dos outros por ser efectivamente vítima de um azar, de uma consequência aziaga qualquer.

Mas muito, pois não consigo chamar azar a uma negligência ou a um risco impensável de correr com um filho. Se um alpinista decide arrastar um filho para a mesma paixão está por inerência a estender-lhe o mesmo risco que entendeu assumir.

 

E isso, para um bota de elástico como eu, deveria fazer toda a diferença na perspectiva de quem tem no mínimo que aprender alguma lição a partir destas tragédias que por nascerem de opções estapafúrdias podem mesmo ser evitadas.

publicado por shark às 17:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Quarta-feira, 05.08.09

A POSTA NA MISSÃO IMPOSSÍVEL

Um dos maiores pecados que podemos cometer em matéria de relações humanas é exigir demasiado das outras pessoas. As expectativas exageradas ou as ambições desmedidas acabam sempre por redundar num enorme trambolhão.

E essa queda inevitável acaba sempre por causar mazelas, implicando por vezes o colapso das frágeis bases que sustentam boa parte (senão a maioria) das ligações e assumindo contornos ainda mais dolorosos e complicados quando o alvo dessa fasquia demasiado alta, o "outro" da situação, somos nós próprios.

 

Se a perfeição é uma utopia, qualquer anseio nesse sentido é pura estupidez. Não somos talhados para esse tipo de objectivo, vulneráveis que somos à impressão que os outros têm de nós e acima de tudo ao efeito pernicioso dos nossos medos, dos nossos defeitos e mesmo dos nossos erros de avaliação subjectiva. Sucumbimos que nem tordos ao desvanecer das miragens que perseguimos em vão, desiludidos com a confirmação do impossível na sua verdade cruel.

A realidade desmente a todo o instante qualquer tipo de ilusão criada em torno de arquétipos de ser humano capazes de jamais fraquejarem na correspondência a um qualquer modelo que nos imponhamos ou nos imponham de forma tão ingénua quanto cruel.

 

Somos apenas gente, uma complexa amálgama de influências cujas repercussões nos actos e nas palavras ainda hoje carece em muitos aspectos de uma explicação definitiva e cabal. Somos imprevisíveis, no melhor como no pior, incapazes de garantir a todo o instante que não acontecem desvios ao padrão de conduta e à escala de valores que desenhamos como forma de orientação.

Somos assim, frágeis na condição e incapazes de aceitar com humildade que o nosso melhor não se produz por decreto mas apenas por sorte (ou similar) de passarmos pela existência sem mácula de maior, sob a constante pressão de quem nos rodeia e que assimilamos como um aditamento à que nos impomos quando nos acreditamos capazes de nunca falhar.

Arrogantes, apontamos o dedo aos que tombam na lama da incongruência, da incoerência, de um fracasso qualquer e hipotecamos nessa instância, maus exemplos, da complacência futura quando chega a nossa vez de fraquejar.

 

Perseguimos sem cessar a virtude impossível, exigimo-la aos outros como a exigem de nós, num tormento constante que limita as hipóteses reais de sermos felizes como só podem ser os poucos que assumem uma postura realista e se aceitam (e aos outros) como um produto de tantos factores e circunstâncias, por vezes meras coincidências, que nos moldam a cada dia em função da própria dinâmica da vida como a conseguimos viver.

 

E nessa conjugação aleatória que nos faz e nos distingue (até na igualdade de oportunidades e de escolhas) não existe nem existirá um mecanismo que nos proteja, que nos ampare na queda como a sentimos quando finalmente entendemos que a perfeição, esse conceito aparentemente tão desejável, foi concebido no mesmo inferno onde se amontoam as boas intenções. 

publicado por shark às 05:34 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Sexta-feira, 10.10.08

A POSTA QUE NÃO LIGAY AOS PRETEXTOS DE TRETA

 

Se concordo? É irrelevante a minha posição nessa matéria, tanto quanta a legitimidade que reconheço seja a quem for, a um país também, para avaliar a legalidade das minhas escolhas amorosas ou das minhas preferências sexuais quando estas não envolvam menoridade ou ausência de consentimento por parte de quem comigo se envolva.
Tudo o que vá além disso pertence ao domínio da minha esfera privada e ninguém, nenhuma nação, possui o direito de interferir de forma negativa (como tudo o que se torna ilegal assume) nesse espaço que é só meu e de quem o entenda partilhar.
 
E se o Estado, qualquer Estado, não possui mandato sequer para opinar acerca das minhas escolhas ainda menos lhe reconheço capacidade para me vedar o acesso à sua formalização do ponto de vista social. Esse veto corresponde necessariamente a um gesto de reprovação, a um sinal que se transmite a uma população quanto ao que se deve considerar certo ou errado, a uma influência pública no plano privado que não se admite numa sociedade como a que alegamos defender. E essa é diferente das outras que se arvoram o direito de proibir tudo quanto saia de um padrão qualquer que, por norma, corresponde aos ditames de uma religião e associa-se a uma versão fundamentalista.
 
É isso que está em causa para mim na questão que hoje será rejeitada à força (disciplina de voto é isso mesmo, não me lixem) por uma maioria absoluta de palermas que permitiram um golpe sério na sua imagem de pessoas capazes de pensarem e de observarem o mundo que as rodeia, de representarem a todo o tempo a vontade popular em lugar de cederem aos critérios político-partidários e suas agendas sem nexo que em nada reflectem a verdade do tempo e dos factos como a vida os apresenta, sem tretas.
 

Aos meus olhos, tão disciplinados que são, os deputados rosa desta Nação não passam de tristes marionetas.

publicado por shark às 11:41 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (23)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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