Sexta-feira, 11.05.12

A POSTA QUE A IMPUNIDADE NUNCA PRESCREVE

Ao que li de raspão na Comunicação Social, um dos processos contra Isaltino Morais acaba de prescrever, julgo que o ligado ao crime de corrupção.

Isso enoja-me, não apenas pelo sinal que transmite aos da mesma laia como pelo que representa de ineficácia do sistema jurídico que parece feito à medida para albergar as mais convenientes impunidades.

 

Dizia há dias um advogado qualquer, e os causídicos têm uma boa dose de responsabilidade neste estado de coisas, que quase todas as democracias ocidentais abraçam a prescrição como opção. Talvez assim seja, mas isso apenas inflaciona o número de países afectados por algo que nos dias que correm não passa de um estratagema imbecil para evitar a sobrelotação das prisões, nenhuma outra lógica me ocorre para explicar a insistência neste expediente ao alcance de quem possa eternizar recursos até esgotar o prazo a partir do qual o problema desaparece e a impunidade se comprova.

 

Um crime, seja qual for, prejudica sempre os interesses de alguém em benefício de outrem e na maioria dos casos as consequências são permanentes na vida das pessoas directamente afectadas e nas das que lhes são próximas.

No caso concreto estaremos perante um crime que lesa o país inteiro, pela mediatização conferida ao caso e que agora catapulta para as primeiras páginas a confirmação daquilo que toda a gente presumia ser o desfecho de mais uma farsa das que inocentam os mais poderosos.

Não entendo por isso a insistência nesta figura jurídica que pode fazer sentido apenas num sistema judicial perfeito e no qual os atrasos processuais impensáveis não podem acontecer. Uma utopia, na prática, pois de mãos dadas com a prescrição anda o inefável recurso que permite esticar a corda até ao limite ou, como se vê, até partir.

 

É o criminoso quem se farta de rir, com a culpa a morrer solteira mas de velhice, ficando os lesados a arder e o resto do país a receber mais uma lição de malabarismo jurídico, a escapatória de luxo ao alcance apenas de alguns.

Enquanto uns são condenados por roubarem uma porcaria qualquer num supermercado e ficam com a vida arruinada, outros roubam o suficiente para comprarem dezenas de supermercados e nem uma pena suspensa lhes é averbada no registo criminal para dissuadir o bandido (ou o bandalho) de prevaricar de novo no futuro.

 

É indigno, é indecente e é imoral.

E que eu saiba, nenhuma das características acima encaixa no conceito de justiça como a devemos exigir.

publicado por shark às 16:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quarta-feira, 02.05.12

A POSTA NO INDIVÍDUO ENQUANTO PRESA FÁCIL DO SISTEMA

Dúvidas houvesse de que existem ligações cada vez mais perigosas entre os diversos poderes que numa democracia coexistem, nomeadamente e por ordem de influência o financeiro, o político e o judicial, o caso exemplar (no verdadeiro sentido da palavra) de Eric McDavid dissipa-as.

Em causa está um activista da luta pelo ambiente, um cidadão anónimo a quem calhou na rifa o martírio como aviso à navegação para todos quantos alimentem quaisquer veleidades de poderem combater pela força as empresas poluentes a quem os Estados toleram, vide a dimensão média das coimas previstas, quase todos os abusos que, na prática, nos envenenam.

 

De acordo com a esmagadora maioria da informação disponível, no âmbito de um plano de acção do governo norte-americano baptizado de Green Scare o FBI terá infiltrado uma agente na inexpressiva organização liderada por Eric com o objectivo de obter uma detenção no matter what.

E o rapaz acabou por se apaixonar pela toupeira ao ponto de alinhar (em teoria) com a sua alegada intenção de danificar propriedade privada e estatal para proteger a Natureza. Acabou traído por ela, pelos amigos e colaboradores mais próximos que cederam a acordos para o incriminarem depois de detido e pelas próprias circunstâncias.

 

A principal circunstância a pesar no destino traçado para o activista, acusado de conspiração para o uso de fogo e de explosivos para danificar bens empresariais e, muito conveniente à luz do sistema penal americano, do Estado, federais, é a da infeliz coincidência(?) de aos sabotadores ambientalistas se aplicar de forma leviana(?) o termo eco-terroristas. E todos sabemos qual é na opinião pública o eco da palavra terrorista...

O Eric foi, note-se, acusado de planear crimes. Não os cometeu e esse é um facto. Se os tivesse levado a cabo não seria com intenção deliberada de matar ou ferir alguém, a intenção era apenas danificar aquilo que entende como ameaças ao futuro do planeta que abraçou como missão defender. E mesmo esses planos maquiavélicos terão sido delineados por Anna, a tal polícia undercover que o terá arrastado para uma cilada.

 

Num país como o nosso, em que o violador confesso e inequívoco de uma criança dificilmente passará mais de meia dúzia de anos num estabelecimento prisional, a bitola de severidade das penas entre os leigos nem por isso prima pela moderação. Ou seja, perante crimes graves e particularmente violentos o cidadão comum acha sempre brandas as penas aplicadas e por isso mesmo teremos a tendência de ampliar a sanção por comparação à decidida pelos tribunais.

Ainda assim, neste país que é o nosso um culpado de assassínio em série terá como pena máxima 25 anos de prisão. E o autor de um assalto à mão armada, mesmo que acabe por ferir alguém, dificilmente ficará dentro por mais do que quinze primaveras aos quadradinhos.

Mas, e esse parece ser o exemplo que melhor se adequa a esta posta, se conduzir empresas à falência ou perto, mesmo lesando o Estado em milhões (remember BPN?), pode até nem cumprir pena de prisão a sério, nos calabouços, mas antes usufruir de uma prisão domiciliária com ou sem pulseira enquanto aguarda as diligências necessárias para protelar uma decisão final para o seu caso.

 

Eric McDavid, hoje com 35 anos, vai estar preso até por volta dos cinquenta. Apenas por ter planeado um acto criminoso que o seu Estado quis deixar bem claro não ser tolerável, nem mesmo cheio de tão boas intenções como a defesa do ambiente, por constituir uma ameaça séria para todo o sistema capitalista cada vez mais dependente do bom funcionamento da ligação entre o seu poder, o verdadeiro, e os poderes de fachada que o defendem contra a revolta dos que o possam hostilizar denunciando-lhe a escalada de prepotência e de desprezo pelas regras mais elementares que o próprio bom senso recomenda.

Quase vinte anos de cadeia por, com a ajuda entusiástica de uma ratoeira com pernas e crachá, ter ponderado a hipótese de cometer um crime que nem envolvia danos a pessoas e por isso seria um acto de sabotagem e nunca uma acção terrorista.

 

Mas o cidadão de sofá não distingue a diferença. E por isso o Eric não contou com a sublevação popular que o seu caso justificaria. Ficou indefeso e à mercê da sua condição de mau exemplo a reter, de factor de dissuasão para potenciais seguidores dessa forma de luta tão eficaz quanto o temor dos Governos e a sua ânsia de a pintarem como ignóbil o comprovam.

A reacção alérgica e, no caso concreto, obviamente concertada dos vários poderes a qualquer tipo de rebelião que lhes afecte os interesses já a História documenta de forma profusa em tudo quanto é canto do mundo, sobretudo no contexto das ditaduras.

 

E a do dinheiro nunca foi nem quer ser reconhecida pela sua propensão à clemência.

publicado por shark às 21:46 | linque da posta | sou todo ouvidos
Terça-feira, 01.05.12

A POSTA QUE O GEORGE ORWELL SABIA MESMO QUEM IRIA AFINAL TRIUNFAR

Uma pessoa não se torna necessariamente num canalha só por conseguir alcançar algum tipo de poder, tal como existem pessoas de bem nas posições cimeiras desta sociedade estratificada por castas que os diversos poderes, ou a sua falta, organizam.

Porém, o poder tal como pode ser usado a favor das pessoas também pode cair nas mãos de crápulas e constituir-se numa arma de arremesso para demolir qualquer esboço de reacção, qualquer fenómeno de contestação popular a coisas que por terem que ser não deixam por isso de serem erradas.

Mas se a ideia brilhante de impor o trabalho no dia 1 de Maio lançando em simultâneo o isco de uma promoção inédita equivale ao desafio arrogante para um braço de ferro contra todo o movimento sindical e tudo aquilo que representa, o assalto dos consumidores aos supermercados neste contexto é nada menos do que um insulto a quem lutou por conquistas que estas hordas desesperadas de amantes da poupança jamais saberão merecer.

 

Na minha geração todos retemos na memória as imagens do Dia do Trabalhador que inundava a Alameda com gritos de liberdade e dessa imensa vontade de dignificar um estatuto e uma condição que afinal de contas é o da maioria. O trabalhador é presa fácil dos abusos que o lucro quase justifica nesta racionalidade mercantilista que impõe de forma cada vez mais descarada e o simbolismo deste dia passa precisamente pela homenagem aos que lutaram para equilibrar um pouco a parada.

Os iates continuaram a ser comprados, tal como nos paraísos fiscais estrangeiros o pecúlio não cessou de crescer, mas havia alguém para defender os mais vulneráveis contra os excessos dos tais crápulas que por vezes alcançam o poder no qual, nestes dias como em outros, o dinheiro é quem mais ordena.

 

Utilizar as ferramentas ao alcance para boicotar, para desrespeitar uma efeméride que é importante para quem trabalha, ou assim deveria, é um abuso de poder típico de quem se sabe imune a qualquer tipo de consequências, não importa o calibre da iniciativa que entenda tomar se souber prepará-la da forma mais adequada, oportunista, de quem aparentemente abre os cordões à bolsa para na prática investir na multiplicação dos judas e até acaba o dia com a bolsa cheia na mesma, talvez a transbordar. Esse lucro é pequeno, em face de tudo aquilo que com o assalto aos supermercados hoje se perdeu a favor de quem manda e agora dispõe de uma confirmação da sua capacidade de manipulação, da força indomável do dinheiro contra a débil resistência de outros valores com os quais o rebanho não consegue encher a despensa.

 

Hoje um homem rico arrastou a multidão de pelintras com um canto da sereia, com o som de uma flauta encantada, para a sua perdição num futuro muito próximo no qual cada trabalhador por conta de outrem será pouco mais do que um refém.

E amanhã, no futuro já a seguir, se alguém sugerir o regresso do chicote basta fazer as contas e somar à generosa percentagem de desconto a oferta de uma televisão a cores e a malta até deixa passar porque a crise o justifica e desta vez irão todos preparados com carrinhos de compras construídos com todo o empenho no tempo útil do único dia de folga que lhes concedam em cada mês.

 

publicado por shark às 20:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Segunda-feira, 16.04.12

ERA UMA VEZ UM REI DE PORCELANA NUMA LOJA DE ELEFANTES

Séculos atrás a existência era vivida em diferentes planos, em diferentes dimensões, em função do grupo em que as pessoas se inseriam. Era o clero, poderoso por controlar o conhecimento e assim manipular a seu bel prazer a opinião pública desses dias, era a nobreza, poderosa por controlar o dinheiro e a esmagadora maioria dos bens imóveis, ambas ainda mais poderosas por partilharem a gestão política, e depois havia o povo, esmagadora maioria, que dava jeito para trabalhar e para guerrear quando convinha a quem mandava.

Carne para canhão, em termos práticos.

 

Nos nossos dias vendem-nos a ideia de que as coisas mudaram. Acabou a monarquia, acabou a nobreza e o clero já conheceu melhores dias em matéria de influência.

O problema é que não acabou uma coisa chamada dinheiro. Pior ainda, não acabou e escasseia imenso entre a esmagadora maioria, o povo, algo de muito eficaz para despertar consciências.

De repente percebemos todos, não há como uma crise a sério, que regressaram os dias em que a sociedade se dividia em classes, em castas, em elites, em autênticas cortes a quem passam ao lado os dramas populares, as aflições dos pelintras a quem espremem as poupanças e o resto como um xerife de Nothingham gigantesco, seja pela via fiscal ou pela via tradicional que sempre consistiu na desfaçatez oportunista por parte de quem tem que é quem pode, neste tempo como em qualquer outro.

 

Os galhos e os macacos

 

A existência volta a assumir de forma descarada as tais dimensões distintas em função dos grupos em que nos inserimos, com a liderança confiada a quem presumimos capaz de entender as dificuldades dos outros e de, enquanto modelos a seguir, adaptarem a sua conduta à conjuntura para exibirem algum tipo de solidariedade, a que se puder beber a conta-gotas do maior recato por parte dos que mandam.

Depois de ouvir o Primeiro-Ministro, o nosso, a divulgar aos microfones a sua certeza nas férias do costume, tudo como dantes no seu casulo livre de sobressaltos no final de cada mês, fiquei com a clara noção de que aflição é um conceito relativo no patamar em que, eleitores, povo, colocamos meia dúzia de nós para nos valerem com a sua sabedoria, a sua capacidade decisória mas também a sua sensibilidade para os problemas alheios que, por inerência de funções, deveriam abraçar como seus.

Não abraçam.

 

O nosso PM, que no meu bairro do Charquinho faria parte do que apelidávamos de betinho ou betoso, é igualmente totó e por isso expôs a sua vidinha santa num raro momento de sinceridade de inspiração balnear e percebemos todos que a crise a sério não passa por ali.

Contudo, aqui ao lado os vizinhos não estão a passar melhor. Com um quinto da força de trabalho desempregada e com as finanças a resvalarem para o alcance do afiado cutelo dos especuladores e agências de rating os espanhóis, os que são povo, esperariam dos seus líderes o mesmo que nós: apenas um nadinha de pudor.

Será melhor esperarem sentados, pois enquanto a esmagadora maioria vê fugir o chão sob os pés sua majestade, a deles, meteu os seus pelas mãos e espalhou-se ao comprido na savana onde podia andar a caçar gambuzinos ou outra actividade mais na onda do chá de caridade mas entendeu, presidente honorário de uma associação ambientalista, andar a caçar elefantes à conta do povo aflito para lhe sustentar tais vícios.

 

Com esta história dos elefantes é natural que os espanhóis fiquem de trombas, de tal forma ficou à vista o tal universo paralelo por onde deambulam os poderosos enquanto a esmagadora maioria, o tal de povo, sofre as consequências dos desmandos de algumas dessas elites (não apenas ibéricas) que mexem os cordelinhos e fingem fazê-lo pelo bem comum embora apenas quando isso não interfira no jogo de golfe marcado para a mesma semana.

 

publicado por shark às 16:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Sábado, 24.03.12

A POSTA NO BASTÃO AZUL

Até podia achar coincidência o facto de estas imagens de polícias ávidos de baterem nas pessoas, sobretudo pessoas que informam, acontecerem quase sempre ao longo dos mandatos laranja no poder, mas não acho.

Ao eterno apelo da Direita para privilegiar a disciplina sem dispensar a repressão para mantê-la soma-se o evidente temor do actual Primeiro-Ministro de que as coisas descarrilem nas ruas e temos garantida a receita trauliteira que as palavras do poder insinuam e a vergonha no Chiado denunciou.

 

Já levei bastonadas da polícia e posso confirmar que aquilo dói mais do que a picada de meia dúzia de abelhas em simultâneo num mesmo local da nossa anatomia.

Aproveitei para deitar um relance à expressão do agente da autoridade que se preparava para me aviar a segunda de mão quando entendi bater em retirada, centenas de metros até o peso da couraça daquela amostra de robocop o forçar a desistir da perseguição, e percebi que a criatura não estava de todo aberta ao diálogo e a uma amena troca de impressões acerca do facto de aquela ser (mais) uma carga policial desnecessária e violenta em demasia para o que estava em causa na altura.

Ficam fora de si, os homens fardados a quem compete espancar os que discordam ou, como no exemplo mais recente se percebe, apenas incomodam com o relato das proezas de quem se pode transformar numa destravada arma de arremesso do regime quando o caldo entorna e o povo decide reclamar onde a Democracia o deixa.

 

É isso que recordo quando acontece mais um episódio daqueles que o tempo e diversas investigações e inquéritos inconsequentes acabam por reduzir a um incidente sem grande expressão, até porque, como este povo pacato se apressará a referir, até nem morreu ninguém.

Pois não morreu, mas podia ter morrido. Ou pelo menos sido gravemente ferido como o jovem a quem um tiro da polícia nos desacatos nas portagens da ponte 25 de Abril amarrou a uma cadeira de rodas. E seja como for, não podemos estar reféns da dimensão das consequências para a avaliação da gravidade do que se passou.

Foi grave, como o são todos os abusos de autoridade, como o são todos os ataques à liberdade de informação que, por muitas histórias que se contem, ficam bem expressos na intimidação que se quer vincar quando se espancam jornalistas identificados na condição. Para deixar um aviso à navegação, devidamente condimentado com a sugestão de indumentária e de posicionamento para salvaguarda da segurança não dos jornalistas mas da imagem futura de um Governo que até estranha tamanha pacatez perante tanto desmando, tanta dificuldade que nos impõe a ressaca do mau desempenho de quem nos tem governado desde que a (primeira) Revolução aconteceu.

 

Pensava eu que o terror popular perante as fardas (na altura cinzentas) dos que batiam sem dó nem restrições ao mínimo sururu em qualquer local público, com particular apetência pelas redondezas dos estádios de futebol, treinando à época para uma ameaça real dos nossos dias, a das claques organizadas, tinha acabado mas na altura era imposto sem recear uma Imprensa censurada que virava a cara para o lado ou levava com o lápis azul, ou pior. Mas agora caminha-se de regresso a esses dias sem lei para alguns.

E é essa a vontade dos que mandam ou permitem ou sugerem que se espanquem profissionais da Informação no exercício das suas funções, substituir pelo medo as ferramentas que no passado tanto jeito deram a quem governou.

 

E é essa a realidade obscura por detrás destes abusos que apalpam o pulso à contestação enquanto o tentam torcer à bastonada, tentando amedrontar os que se manifestem e aqueles que possam “denegrir” com a detergente verdade dos factos todos os esforços, todos os discursos institucionais hipócritas de alegada condenação da violência que, para acontecer, careceu de alguma autorização (dita) superior e que visa especificamente intimidar todos quantos protestam as suas queixas mais aqueles que as possam amplificar.

 

Sai-lhes sempre o tiro pela culatra quando nem assim os conseguem silenciar.

publicado por shark às 19:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quinta-feira, 01.03.12

A POSTA À CATANADA NOS PRINCÍPIOS

Nem me passa pela cabeça investir um minuto que seja da minha atenção a ver a entrevista ignóbil que uma (alegada) Procuradora, uma tal de Maria José Martinho, concedeu à RTP.

E basta-me uma vista de olhos pelos títulos da Imprensa, sempre atenta ao verdadeiro sumo das histórias, que chama a atenção das audiências para o facto de o triplo homicida ter utilizado uma catana por ser menos ruidosa para perceber o móbil deste crime que compensa porque qualquer pessoa capaz de rentabilizar as declarações de um morto, proferidas num determinado contexto e sob pressupostos óbvios, é igualmente capaz de prevenir a possibilidade de existência de um qualquer descendente a quem pudesse indignar de uma forma mais efectiva este desrespeito como o senti.

 

Nem hesito em afirmar a minha total concordância com a solução encontrada pelo assassino para colocar um fim à sua saga, em absoluta sintonia com o meu profundo asco relativamente ao acto com que inscreveu o seu nome no rol de bandalhos sonantes.

A morte de tal criatura é um alívio para todos e quem não o assumir dessa forma está apenas a dar uma pala qualquer.

Contudo, mesmo um verme asqueroso, como gostaria de ter podido chamá-lo na cara em vida e vou sem dúvida entendê-lo depois de morto, possui direitos que se estendem para lá do final feliz por si escolhido e que derivam no mínimo da decência dos que cá ficam e, acima de tudo, pelo facto de o verme como o sinto ter nascido e morrido tão humano na essência como eu ou a tal procuradora da ignomínia.

 

É essa condição que me obriga a reconhecer a indecência de chamar verme a um gajo que já não se pode defender da minha injúria e ainda mais deveria obrigar uma procuradora a guardar para a Justiça tudo aquilo que ouviu em circunstâncias completamente distintas das actuais.

Claro que todos os (alegados) jornalistas a quem pareceu oportuna e do interesse público esta exibição grotesca de falta de brio e de ética e de moral e de tudo quanto nos possa defender destes atropelos não saem bem num boneco onde até já tinham brilhado pelo bom senso de não dissecarem a cena do crime em todo o horror nela contida.

Estas cumplicidades estão no fundo associadas às impunidades de todos os envolvidos neste tipo de conluio em prol do abastardar definitivo dos códigos de conduta que se esperam de qualquer pessoa mas mais ainda das que exercem determinadas funções.

 

E enoja-me o facto de a atitude da procuradora dos interesses obscuros de uma Comunicação Social cada vez mais abjecta me conseguir repugnar ao ponto de quase me ver obrigado a defender a memória póstuma de um assassino cobarde para manifestar a minha indignação contra a falta de vergonha de quem participou de forma directa ou indirecta nesta tão sincera transmissão televisiva da realidade dos factos como, mesmo sem ser em modo reality show travestido de coisa séria, os intuímos mas quando expostos nestes moldes quase preferíamos nem saber.

publicado por shark às 15:53 | linque da posta | sou todo ouvidos
Domingo, 05.02.12

A POSTA EM MAIS UMA BATALHA PERDIDA

Nem Salazar, esse homem austero e pouco dado a folias, seria capaz.

Mas da mesma seita que matou a Feira Popular não deveria surpreender o entusiasmo por repescarem, com a crise mascarada de pretexto, uma ideia peregrina que o seu antigo guru agora Presidente não fez vingar: matar o Entrudo.

 

Se há coisa que me deixa intrigado é a multiplicação de apoios ao fim de feriados, sobretudo quando provindos de trabalhadores por conta de outrem, precisamente aqueles que só têm a perder com a história.

Ao fim de um feriado, como os factos (e os números) cuidarão de provar, não corresponde necessariamente um aumento da produtividade do país mas apenas um aumento do número de horas de trabalho sem contrapartida na remuneração das pessoas. Dito por outras palavras, é uma medida que encaixa na perfeição nos interesses das entidades patronais e deita por terra mais uma conquista sacada a ferros na ressaca da revolução que tarda a acontecer outra vez.

 

À morte do Carnaval como o actual Governo tenciona decretar vão corresponder, isso sim, a agonia dos corsos que um pouco por todo o território animam as economias locais, a contrariedade dos mais foliões que nunca deixarão de sentir isto como uma perda, o desânimo de um povo que em tempos depressivos é cada vez mais privado dos recursos para sorrir.

O fim desta tradição integra-se na aniquilação sistemática de tudo quanto sirva de válvula de escape para o quotidiano medonho de quem enfrenta a pior crise em décadas, na destruição deliberada de prazeres populares que em nada servem os desígnios dos que vivem à custa da distribuição dos lucros que orientam agora todas as decisões dos lacaios de poderosos em desespero de causa.

 

Depois do dividir para reinar, essa receita infalível para o sucesso de poderes interesseiros que já vergou a unidade sindical e retalhou o espectro partidário à esquerda ao ponto de permitir, por duas vezes, a eleição de um candidato presidencial chamado Cavaco Silva, vem o quebrar da espinha a uma realidade que denominamos de classe trabalhadora.

Essa guerra sem quartel da finança oportunista contra tudo quanto se revelou hostil noutra conjuntura avança sobre um campo de batalha pejado de guerreiros sem alma, sem liderança, e também de cobardes seguidistas, desertores que tentam salvar a pele num clássico intemporal de traição.

E se a linguagem se torna belicista é precisamente porque às vezes o povo só acorda quando sente no rabo a picada das baionetas repressoras do inimigo.

 

Se ainda não sentiu, há razões para temer que tenha mesmo morrido.

publicado por shark às 15:46 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Terça-feira, 31.01.12

UM 112 PARA NOS VALER CONTRA O 118

Ou andamos todos muito distraídos ou tomam-nos por lorpas.

O Marco do Bitaites explica a coisa muito melhor do que eu o faria, por isso recomendo-vos que tomem consciência do que está em causa e usem-na para decidir o passo correcto a dar de seguida.

 

Está aqui o que é preciso saber mais alguns caminhos para o esclarecimento total.

publicado por shark às 00:20 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quinta-feira, 19.01.12

A POSTA SEM CINZEIRO

Falar da acumulação de uma reforma choruda com um salário milionário por parte de Eduardo Catroga poderia ser enquadrado, na sua perspectiva amoral, no debater daquilo que o próprio apelida de pintelhos.

Esta conclusão deriva do desplante com que o cromo veste a capa da legalidade para encobrir o manto de imoralidade subjacente a uma decisão sem respeito para com os melindres próprios de uma conjuntura aziaga ao ponto de enfatizar valores importantes mas ignorados no tempo das vacas falsas gordas.

E prova que nem sempre a lei joga certo com a moral que (também) lhe compete defender.

 

Relegando então a figura púbica acima referida para o domínio a que pertence, parece-me oportuno somar o desacerto das leis que protegem os medíocres ao desnorte dos legisladores que, em pleno crescendo de uma crise que ainda vai no adro, apontam os holofotes para o endurecimento das regras aplicáveis aos fumadores.

O tema é recorrente precisamente pela insistência dos paladinos numa cruzada que acabará por equiparar fumadores a consumidores de drogas duras na moldura penal, estando ainda por saber qual dos dois grupos marginais acabará por ser alvo da punição mais severa no futuro desenhado pelos proibicionistas bacocos.

 

A lei em vigor, porquanto polémica, acabou aceite e respeitada pela generalidade de uma população que parece capaz de aceitar tudo o que lhe é imposto sem qualquer tipo de contestação.

É no fundo apenas mais um sintoma que distingue a primavera de gente capaz de morrer nas ruas para reclamar democracia do outono de quem permite a perda da sua enquanto deixa apodrecer a consciência aos poucos na confortável apatia do sofá.

Enquanto o país definha à mercê de uma crise que deveria concentrar todo o esforço colectivo, os decisores investem o seu tempo e energia numa alteração legislativa cujo impacto económico é devastador para sectores já abalados pelo efeito da lei em vigor somado a outras medidas que já semearam inúmeras falências.

 

A boa intenção dos paladinos resume-se ao politicamente correcto da defesa da saúde pública, como se à progressiva marginalização dos fumadores não pudesse corresponder o mesmo efeito de outras proibições: empurrar os consumidores de tabaco, esses maus, para uma clandestinidade absurda.

Porém, nem é esse o fulcro da minha questão nesta prosa.

 

O que está em causa para mim, acima de tudo, é a passividade com que aceitamos todo o tipo de prejuízos, quer resultem da inépcia ou, no caso concreto, de uma espécie de excesso de zelo pervertido no timing e mesmo na motivação.

Apesar da injustiça implícita em impor aos empresários da restauração investimentos de monta para poderem albergar os mesmos fumadores que agora querem proibidos nos mesmos espaços e do visível exagero do que se prepara, os portugueses cruzam os braços, deixam andar, e até acredito que apesar do disparate óbvio a maioria irá acatar a coisa sem um balido e abster-se de fumar.

 

Eu vou votar contra.

publicado por shark às 11:03 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quinta-feira, 15.12.11

DOMUS, DOCE DOMUS

Ouvi poucos automobilistas criticarem o imbecil-porreirismo dos que avisam os restantes com quem se cruzam da presença da Brigada de Trânsito com um solidário sinal de luzes e isso sempre me provocou alguma estranheza.

Mas ainda não ouvi um único a criticar o agente de autoridade que alegadamente terá aconselhado um condutor alcoolizado, que acabara de matar uma jovem mulher e o seu filho com 17 meses de idade, a abandonar o local do crime, perdão, do acidente e a apresentar-se voluntariamente num hospital para a despistagem do álcool no sangue apenas daí a seis horas.

E isso associa à estranheza uma repugnância que espero nem precisar de explicar na sua motivação instintiva.

 

Somos uns bacanos, ou pelo menos é essa a imagem que gostamos de cultivar, sobretudo junto dos estrangeiros cuja consciência cívica mais avançada os torna nuns chatos demasiado certinhos que alinham com tudo o que os mandam fazer e aceitam como naturais todas as proibições que a lei dos seus países consigna.

Contudo, se não consigo encontrar nada de bacano em alertarem com sinais de luzes os aceleras bêbedos que podem matar-me ou aos meus uns quilómetros adiante por não serem apanhados em flagrante pela polícia nos seus excessos, ainda menos porreiros achei os máximos acesos pelo tal (alegado) agente da autoridade que sentiu o apelo generoso, quiçá solidário, de tentar safar um assassino involuntário das consequências do seu crime e que, no caso concreto, atingiram a barbaridade de três anos de prisão. Com pena suspensa, para dar ao acusado a hipótese de ameaçar o viúvo e pai com represálias pela sua ingénua sede de justiça.

 

Eu sou muito português, em montes de coisas que nos distinguem dos outros e até são mesmo bacanas, mas não consigo rever-me nestas solidariedades latinas da treta que estão na origem, por lhes assegurarem a impunidade no juízo popular, de quase todas as cenas porreiras que multiplicadas por milhares têm destruído o país como uma praga de térmitas.

Depois a pessoa teve azar, coitada, de se calhar nesse dia ter ido ao casamento de um primo que até o ajudou imenso na construção da casita com materiais desviados de outra obra (provavelmente pública) qualquer e bebeu uns copitos e, coitado, foi enfaixar-se na senhora, tadinha, que ia feliz com o filho mais novo no colo até o destino cruzar os seus caminhos com o caramelo que acabou vivo e em liberdade para poder recolher o amparo dos amigos e da família naquele momento difícil em que teve que responder em tribunal por causa do malandro do gajo que perdeu a mulher e um filho mas perdeu tá perdido e a vida continua como o senhor (alegado) polícia tentou garantir com a sua actuação mas o gajo, cabrão, insistiu em dar cabo da do homem, coitado, que teve azar naquele dia mas nos outros todos foi sempre um bonzão.

 

Porreiro é uma pessoa saber distinguir entre tradições e aberrações e reunir a coragem para mandar uns murros na porta por detrás da qual os gritos de aflição de uma vizinha indicam que pode estar a ser espancada por um merdoso que, coitado, nesse dia até bebeu uns púcaros por estar desempregado ou para estender uma mão solidária à família do andar de cima que já não consegue esconder os efeitos devastadores da crise no seu quotidiano em vez de aproveitar a deixa para comentar a incapacidade do vizinho, um falhado, para conservar o emprego ou a sua actividade económica e aconchegar assim o espírito no consolo das comparações com situações piores do que a nossa.

Facilitar a vida aos coirões que renegam as regras do jogo para se facilitarem entre si na fuga às consequências posteriores equivale a alimentar uma paz podre imbecil, dependente da sorte de uns e do azar de outros, que pode culminar em tragédias cuja culpa ou responsabilidade a Justiça, tão porreira, coitada, comprovadamente não sabe gerir e um povo tão estupidamente bacano tanto faz por merecer.

publicado por shark às 12:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Segunda-feira, 24.10.11

(MA)CEDO POUCO A PORTUGAL

O Ministro Macedo, aparentemente muito indignado, decidiu abdicar de um subsídio qualquer para não ter que perder mais tempo com esse assunto.

A contrariedade manifestou-a pelo desabafo de que iria abrir mão de algo que poderia receber de forma legítima, pelo menos do ponto de vista da legalidade.

E é aqui que uma pessoa percebe a massa de que são feitos estes fulanos a quem confiamos responsabilidades públicas de índole quase determinante para o presente e o futuro do país.

 

O Ministro Macedo foi eleito de forma democrática, ninguém lhe contesta o poder que detém. Da mesma forma recebia uma mensalidade do Estado que para todos os efeitos a legislação em vigor caucionava.

O politicamente correcto da questão acaba aqui.

 

Qualquer cidadão a quem é concedida uma oportunidade rara de registar o seu nome na História do seu país, eleito para uma função governativa, deveria entregar-se a essa missão com um empenho e uma generosidade proporcional à gratidão que cada um dos seus eleitores lhe mereceria.

Se do empenho é cedo para aquilatar, a generosidade fica fora da equação com este episódio deplorável da maçada como o Ministro Macedo a exibiu de ter que abdicar de uma remuneração que a Lei até lhe permitia auferir.

 

O problema dos macedos da nossa classe política paupérrima, grosso modo e salvo raras excepções, é precisamente o de não terem alcance para verem as coisas como as vêem de fora os que se percebem abusados por esta elite cada vez mais indistinta no egoísmo da actuação.

A legalidade invocada pelo Ministro Macedo é rasteira porque em causa está a moralidade que o deveria ter impedido de reclamar ou mesmo de aceitar a verba em causa, porquanto legitimada pela legislação que os macedos deste país constroem em benefício próprio, mesmo quando não podem renegar a sua responsabilidade directa no incumprimento de funções que também passam pelo evitar dos desmandos que quase levaram a Pátria à ruína.

Quando deveriam ser os primeiros a arregaçarem as mangas e tentarem lavar a má imagem provocada pelo seu mau desempenho e/ou dos seus pares acabam por surgir nas parangonas expostos como chupistas, precisamente aqueles cuja proliferação transformou a Nação num poço sem fundo de corrupção, de negligência, numa sociedade feudal onde os falsos heróis jamais empunhariam uma espada pelo país que (es)partilharam entre si.

 

O Ministro Macedo tem casa própria em Lisboa, onde trabalha, mas sentia-se no direito a uma retribuição por possuir morada em Braga, ou na Pampilhosa, tanto faz.

Outros membros do Governo recebem idêntica compensação devida aos que comprovadamente dela necessitassem, sobretudo em tempo de crise, mas imoral em tempo difíceis quando se sabe que salários e mordomias destes traidores à Pátria os compensam bem do sacrifício de serem os escolhidos para um papel só para eleitos, só para mulheres e homens capazes de distinguirem o valor intrínseco de uma manta rota de uma legislação sem rigor e o do manto precioso da reputação íntegra que só uma postura ética e moral irrepreensíveis podem garantir.

publicado por shark às 15:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (3)
Domingo, 02.10.11

A POSTA QUE A ESTES NÃO CONVENCEM A VOTAR

Foi-me ensinado em pequeno que o Estado era uma espécie de manto protector que se estendia sobre a Pátria lado a lado com a mão de Deus que acabava, no entusiasmo doutrinário dos professores da altura, por ser quase a mesma coisa.

Provavelmente não existia uma realidade mais pura do que esse Estado que acumulava miséria em bairros de lata mas não se poupava a esforços para fortalecer a evangelização que já era uma tradição secular nas colónias, espalhar a fé à bruta por Deus e, por inerência, pela Pátria que era um Estado e por isso acabava, na cegueira imperialista dos seguidores do apóstolo de Santa Comba, por ser quase a mesma coisa, como acima referi.

 

Era divinal, esse Estado que me foi ensinado desde o embrião glorioso nas gentes de Viriato, passando pelo anjo milagreiro que ofereceu a D. Nuno uma quadratura perfeita para nos explicarem essa ligação tão próxima entre a santíssima trindade e os gloriosos líderes do passado da Nação que, curiosamente, nunca fazia alusão nos manuais de História ao seu pedaço amputado que os espanhóis hoje chamam Olivenza, aterrando essa viagem pelo conhecimento da visão sagrada do que constituía afinal a herança desse Estado na viagem aérea de dois bravos que pareciam ter esgotado no início do Séc. XX os exemplos de heroicidade dos portugueses que nos explicavam porque valia a pena respondermos à chamada na idade certa para empunharmos uma G3 em sua defesa.

 

O Estado não mentia nem ocultava e certamente também não pecava porque de outra forma perderia a bênção do Cardeal Cerejeira ou a conivência do respectivo sucessor na ligação inequívoca da fé na Igreja com a esperança nos dias melhores que o Regime adiava sem qualquer medo da contestação minoritária desses filisteus que até os americanos combatiam na terra dos outros, perfeitos para serem pintados ao povo como os maus de uma fita censurada que só a Revolução de Abril permitiu exibir em tela panorâmica com cravos vermelhos desenhados nas cortinas que faziam parte da solenidade dos grandes cinemas de então.

 

O Estado perdeu nessa altura a ligação ao céu e o povo seria quem mais ordenaria e até deixou de ser pecado assistirmos aos onze ou doze anos a sessões de esclarecimento acerca de planeamento familiar, a par com tantas outras maravilhas que esse outro Estado que era sagrado por um falso motivo e agora oferecia coisas impensáveis como reformas na velhice, um sistema de saúde gratuito e, nessa altura era muito importante para este cidadão, um sistema de ensino misto e livre de reguadas que simbolizavam a disciplina até ao dia em que se revelaram uma forma de repressão.

A Liberdade embebedava e o Estado que agora era de todos menos de Deus parecia um manto protector que se estendia sobre o Povo mãos dadas com o Movimento das Forças Armadas que nos garantiria a paz, o pão e os direitos dos trabalhadores contra os lacaios do capitalismo, esses fachos repugnantes e parasitas que os padres ajudavam na exploração da classe operária e tudo isso agora terminara porque o Estado era o Povo e esse, claro está, não estava no país (que Pátria soava fascista) para enganar ninguém.

 

Passaram uns anos sobre essa conversão do Estado à sua versão laica que quiseram ensinar-nos a respeitar não por temor a Deus ou à PIDE mas apenas porque só podia ser assim.

O Estado de Direito garantia-nos uma gestão imaculada, uma governação quase tão sagrada como a que nos pintaram em miúdos e na qual o Estado seria sempre e sem qualquer hipótese de engano o equivalente a uma pessoa de bem. E este último conceito toda a gente teve o cuidado de nos ensinar muito bem, a honra e a palavra, a seriedade que fazia distinguir os bons cidadãos daqueles que nos ensinavam a olhar como bandidos, como marginais que nos roubavam e nos enganavam e mereciam estar todos encarcerados por serem uma ameaça para a população séria e trabalhadora que já nem precisava ser devota para merecer o seu lugar no paraíso que desceu do céu sob a forma da perpetuação do sistema de cunhas que tão bem funcionara no esquema anterior e agora poderia funcionar ainda melhor sem essa carga pejorativa teórica da moral cristã.

 

Novos (e antigos) representantes do povo, gente como nós e assim, instalaram as vidas nessa estrutura tão bem pensada, o Estado, e nas imensas regalias juradas eternas para os servidores públicos de tantos interesses privados que acabaram por desviar o dinheiro e a atenção de quem o deveria controlar até descobrirmos todos que a Pátria, a Nação, o País, aquilo que prefiram chamar-lhe, estava num estado deplorável que o tal Estado que era sagrado não soube evitar.

 

Eu, que fui ensinado em pequeno e depois em mais crescido a acreditar que o beneplácito de Deus ou a fiscalização das autoridades competentes que dantes não lhes escapava um rebelde comuna mas nisso das contas nunca foram exemplares, tenho razões para me sentir defraudado com essa organização chamada Estado que me prometeu Mercedes em suaves prestações a perder de vista no mesmo horizonte da minha velhice agora cada vez mais desamparada em matéria de segurança social. Sinto-me enganado, sem dúvida, pelo povo que desordenou nesse Estado e criou as condições para agora me ver arrastado pelo turbilhão da crise à mostra quando o tal manto protector de repente encolheu e nos destapou os pés de barro no país das maravilhas onde os milagres deixaram mesmo de acontecer, excepto a impunidade adivinhada para os que nos tramaram e agora dizem que não há dinheiro para nada apenas porque sim.

 

Mas nunca conseguirei sentir-me tão revoltado como se tivesse estado na pele de um dos alunos a quem a tal pessoa de bem que é o Estado entendeu negar a miúdos, à última da hora, um prémio pecuniário prometido pelo mérito escolar superior sem nenhuma outra razão plausível que não apenas porque não.  

publicado por shark às 17:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Sexta-feira, 02.09.11

A POSTA QUE MERECIAS TAUTAU NESSE RABINHO MIMADO

Desconheço o problema que está na origem da atitude pois essa é absolutamente injustificável e nenhuma razão lhe servirá de atenuante. Concentro antes a minha atenção nessa reacção estapafúrdia do menino com falinha mansa que decidiu armar-se em virgem ofendida e virou as costas à sua obrigação moral.

 

Ricardo Carvalho ganhou um lugar na história do futebol em Portugal ao protagonizar uma situação que em termos de impacto negativo equivale à celebre cena de pancadaria entre Ricardo Sá Pinto e o então seleccionador nacional Artur Jorge.

Contudo, essa equivalência limita-se ao cariz vergonhoso de ambos os casos. Chamados a uma responsabilidade que, embora exacerbada como este tipo de episódio confirma, tem um peso enorme à escala mundial os rapazolas idolatrados por milhões de pessoas não se acham, pelos vistos, obrigados sequer a prestar o serviço que lhes rendem outros milhões e uma vida de lordes num mundo em aflição.

E esse serviço, sobretudo quando se aceita a braçadeira de capitão, não consiste apenas em jogar à bola e nem sempre à altura das expectativas. Implica igualmente o respeito pela camisola que outros vestiram e muitos mais vestirão, pelo simbolismo que reclama uma dignidade que estes fedelhos birrentos parecem não conhecer.

 

O desertor em causa, e nisso subscrevo por inteiro Paulo Bento, tornou-se num péssimo exemplo a seguir pelas muitas pessoas, miúdos também, que os têm por referência, pior ainda do que o deixado por Sá Pinto com a sua argumentação neandertal.

A violência estúpida implícita no mau momento do Ricardo bruto vai sempre parecer menos mal um nadinha do que a deserção irresponsável do Ricardo cobardolas.

publicado por shark às 14:55 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (1)
Quarta-feira, 24.08.11

OS POBRES QUE PAGUEM A CRISE!

Depois de vários milionários americanos e franceses se terem disponibilizado para, num gesto patriótico, contribuírem com um aumento voluntário de impostos para ajudarem a combater a crise nos seus países chegou a reacção dos seus homólogos portugas.

E ficámos todos a perceber a massa de que são feitos os nossos mais ricos.

 

Na ressaca do 25 de Abril o povo apontou o dedo acusador às famílias poderosas que dominavam o país com as suas fortunas, sem fazer a mínima ideia de que poucas décadas mais tarde seriam outros os protagonistas nas tabelas nacionais e internacionais e, por comparação, nem chegariam aos calcanhares dos Mello ou dos Champalimaud que foram empresários num tempo em que as empresas construíam creches e mesmo bairros inteiros para os seus trabalhadores. E nem assim escaparam ao rótulo odioso, à época, de fachos.

Os milionários portugueses mais mediáticos, pelas respostas hipócritas, quase insultuosas para quem vive em aflição, que deram a quem os questionou vestiram todos a pele de tios patinhas com quem a Nação em crise não pode contar.

Fulanos com as maiores fortunas do país e até das maiores do mundo não podem, sob pena de atraírem para si uma revolta ainda mais generalizada e hostil do que a sofrida pelos seus antecessores acima, afirmar de forma jocosa que não são ricos mas apenas meros assalariados. Ou pior ainda, tentarem lançar o descrédito sobre a iniciativa dos seus pares estrangeiros falando em serradura para os olhos quando deixam claro que à nossa vista nem as aparas de madeira chegarão.

 

Contudo, ainda mais odioso nas reacções já conhecidas (que mais valia nem haver alguma) está a chantagem implícita nessa tomada de posição, conhecido de ginjeira o camartelo da fuga de capitais para fora de Portugal através das várias portas que os magnatas portugueses já provaram saber abrir.

Nenhum Governo poderá arriscar agora uma legislação fiscal contrária aos interesses dos ricos que sabem meter o bedelho nos assuntos políticos do país quando lhes convém mas colocam o rabinho de fora quando a Pátria clama por menos palavras e mais pilim.

 

E num tempo de contar espingardas para dar a volta ao problema criado só temos o ganho de sabermos que com milionários deste calibre só podemos sair sempre a perder.

publicado por shark às 22:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Domingo, 07.08.11

A POSTA NAS DECISÕES MARGINAIS

Descobriram meia dúzia de armas, provavelmente pertencentes a um filho emigrado, em casa de uma sexagenária e o juiz entendeu aplicar-lhe prisão preventiva.

O autor confesso de andar a fotografar miúdas nuas entre os oito e os doze anos de idade, alunas da escola onde o bandalho era o porteiro, e que possivelmente terá abusado de algumas crianças foi igualmente apanhado e o juiz aplicou a prisão domiciliária.

 

Se a medida em causa é uma espécie de bitola do grau de gravidade da violação da lei e for consensual que é melhor estar preso na própria casa do que numa penitenciária qualquer é fácil perceber que para os tribunais é mais ameaçadora para a sociedade uma sexagenária com armas em casa, mesmo não sabendo sequer como usá-las, do que um badalhoco que não hesita em usar a sua, a função de porteiro numa escola, para se aproveitar de crianças no deleite bizarro de qualquer porco com sérias perturbações mentais.

Aqui parece-me existir uma dúvida no ar: ou a pedofilia não é uma doença e os bandalhos devem ser encarcerados, sem excepções, para protecção das crianças ou, antes pelo contrário, estamos perante um problema de saúde pública e a pessoa doente deve ser de imediato confinada a um hospital psiquiátrico.

Por outro lado existe também a dúvida acerca da regulação da balança que a Justiça deve simbolizar, pois o peso parece pender de forma sistemática para o lado oposto daquele que o senso comum da população aponta.

 

Não gosto da ideia de a minha vizinha do segundo ter o guarda-fatos atulhado de espingardas, admito. E gostaria que os agentes da autoridade lhe confiscassem tal mercadoria para segurança de todos, embora seja inadmissível para mim vê-la presa por guardar pertences de outrem, sobretudo de um filho a quem custa sempre dizer não e no caso concreto até pode estar em causa o instinto maternal de evitar complicações legais à sua cria.

Contudo, a ideia de ter um vizinho qualquer, pedófilo assumido, “aprisionado” na sua fracção do mesmo condomínio onde mora a minha filha é simplesmente insuportável e só fico a torcer para que se tal acontecer ninguém me identifique o canalha.

 

A opinião de um cidadão vale o que vale, mas esta é a minha.

A Justiça em Portugal parece estar a viver um período de desnorte que se reflecte na própria conduta pessoal de alguns juízes e de aspirantes à função mas se faz sentir de forma estrondosa nesta divergência crescente entre as decisões dos magistrados e a sensibilidade da população que ali representam.

E qualquer defensor do Estado de Direito não pode, a menos que se queira enganar a si próprio, fazer de conta que não sabe que ao desacerto e à brandura excessiva da Justiça acaba por corresponder um aumento exponencial da probabilidade de se multiplicarem os casos de justiça pelas próprias mãos que, mais do que pela sede de vingança, nascem pela necessidade de percepção de segurança para a qual as decisões estapafúrdias e desadequadas constituem uma das mais concretas ameaças.

 

publicado por shark às 19:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)
Quinta-feira, 07.07.11

A POSTA NO LIXO DESPEJADO À PORTA DELES

Reprimo a custo uma daquelas bujardas que às vezes me saem quando vos digo que o que a Moody’s merecia era que fossem dez milhões de portugueses a despejarem o lixo ou mesmo a defecarem à sua porta.

Sim, eu sei que esta é uma forma um nada suja de pôr as coisas. Mas quando penso que andou a Padeira de Aljubarrota a distribuir fruta nas moleirinhas dos castelhanos para virem agora uns engravatadinhos sinistros chamar lixo a uma das nações mais antigas da Europa passo-me.

E agora vou prosseguir.

 

Podem vir os teóricos da coisa à vontade com as suas explicações lógicas e razoáveis para existir aquilo do rating, podendo até fazerem prova do cariz imprescindível desse mecanismo para podermos continuar a comprar Mercedes a leasing.

Dêem a volta que derem jamais conseguirão fazer-me entender e ainda menos aceitar que meras empresas consigam arruinar um país com base no seu trabalho que, e isto faz mesmo muita diferença, até pode estar mal feito.

A Europa governada por passarocos capazes de deixarem que a sua União seja rapinada desta forma não pode permitir este tipo de situação, esta destruição financeira de países por ordem decrescente da sua aflição nas contas que destrói as vidas das respectivas populações.

Não há lógica que possa sustentar esta condição de países reféns das suspeitas, repito: suspeitas de que algo possa correr mal no futuro a menos que passemos a reconhecer as bolas de cristal como instrumentos científicos.

 

Portugal está em maus lençóis por uma questão de palpite dos fulanos de uma empresa com nome de restaurante de fast food. Digam-me lá se isto faz sentido nas vossas cabeças ou nas vossas algibeiras cada vez mais depenadas por estes especuladores estrangeiros…

Algo está profundamente errado no esquema que foi montado em torno do capitalismo que abraçámos e aí não há volta a dar. Dúvidas havia, esta pena capital aplicada pelo sistema, esta humilhação nacional, dissipou-as.

 

Perante factos deste calibre, o nacionalismo surge no horizonte em letras gordas como única opção ao nosso alcance para compensar a ausência de capacidade de resposta por parte da União Europeia à qual se exigiria uma posição firme e imediata que, de resto, poderá surgir agora, tarde demais para os gregos e para nós, por aparecer agora a Espanha na cauda do pelotão e ser óbvia a sua condição de próxima a ser literalmente lixada pelos desmandos das agências de rating e dos interesses obscuros que as suas decisões irão favorecer.

 

Eu não aceito ver o meu país a morrer às mãos destas jogadas financeiras de um sistema medonho, de uma dimensão paralela que não tem lugar no mundo se permite estes trambolhões na condição de vida das pessoas e das nações.

Prefiro-nos pelintramente sós.

publicado por shark às 11:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Domingo, 03.07.11

UMA ESPÉCIE COM ORIGEM NO SÍTIO DO COSTUME

O novo Secretário de Estado da Cultura, nosso colega blogueiro, costuma participar num programa da TVI no qual exibe todo o seu talento enquanto comunicador que, aliás, terá em muito contribuído para a respectiva nomeação para tão importante cargo (sobretudo depois da desastrada extinção do Ministério).

 

Eu não sou candidato a ministro de coisa alguma, sou apenas um leigo que gosta de usufruir da liberdade, nomeadamente a de opinar. Isso não invalida, contudo, que goste de pensar acerca do que representam esses cargos tão importantes para um país.

Percebo de imediato que a responsabilidade inerente é imensa, tamanha a relevância das decisões tomadas para o funcionamento de pessoas, de instituições, de todo um país. Não invejo quem tenha que se ver submetido às gigantescas pressões que uma função governativa acarreta, embora tenha consciência de que só se sente pressionado quem não vista a camisola da Pátria enquanto interesse superior a qualquer outro.

 

As pressões que um responsável máximo pela Cultura em Portugal pode sofrer podem vir de muitos interesses instalados onde se movimente o dinheiro suficiente para justificar a tentativa de ingerência.

Uma forma simples de deixar clara a impermeabilidade a esses poderes é precisamente o aproveitar das oportunidades públicas, mediáticas, de vincar a independência, a incorruptibilidade e, acima de tudo, o amor à Pátria que é exigível a todos mas sobretudo aos escolhidos para governarem a nação.

Nesse contexto, não respeito um Secretário de Estado da Cultura a quem é concedida a oportunidade de recomendar a compra/leitura de um livro na televisão e em vez de aproveitar o ensejo para lançar um dos muitos talentos nacionais sem hipótese de promoção pelas grandes editoras prefere promover um autor e uma obra estrangeiros, mesmo sabendo que dessa forma só há um interesse claro que sai defendido.

 

E esse até pode ser português (na maioria da quota accionista), mas tem, na perspectiva que aqui me interessa, muito pouco de cultural.

publicado por shark às 19:10 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quinta-feira, 16.06.11

SE CALHAR O LEX LUTHOR É DE OLHÃO...

Quando nós, sociedade, confiamos a alguns de entre nós os super-poderes realistas que julgamos necessários para combater os diversos males gerados pelas sinergias negativas de grupo, coisas que não sendo equivalentes a uma força sobre-humana ou à visão de raio X constituem uma entrega efectiva da custódia e mesmo da aplicação prática dessa vantagem sobre os restantes, por exemplo a decisão de punir ou de libertar pessoas acusadas de crimes e assim, nós, sociedade, pressupomos que existem mecanismos sérios de filtragem ao longo do caminho a percorrer por esses super cidadãos.

A ideia é impedir que esses super-poderes caiam em mãos erradas, pelo risco que implicam de subverter qualquer sistema pela raiz, pelo próprio fundamento que o sustenta. Por isso, quando uma magistrada é apanhada a conduzir embriagada e em contra-mão ou dez candidatos a juízes são apanhados no copianço nós, sociedade, sentimos uma estranha necessidade de ver essas pessoas privadas dos tais atributos que devem utilizar a nosso favor, o da sociedade, mas podem preferir contra.

Uma das formas mais estupidamente simples de avaliar o carácter desses futuros ou presentes super cidadãos é a observação dos seus actos. Se alguém é apanhado a cometer um crime ou apenas uma fraude, não precisamos de ter um canudo para ficarmos com a ligeira impressão de estarmos perante alguém sem qualidades para exercer as funções tão vitais que precisamos bem cuidadas.

Ao decidirem passar uma esponja sobre o ilícito moral da dezena de trafulhas, permitindo-lhes o acesso ao arsenal, os responsáveis por tamanha ignomínia comprovam-se eles próprios incapazes para o seu papel de barreira de protecção contra os medíocres que possam atingir esse patamar tão elevado do qual, depois de munidos da força e da imunidade que nós, sociedade, pretendemos entregar a uma elite de gente boa, inteligente e honesta, podem tornar-se uma séria ameaça.

 

Não sei quantos cúmplices por inerência, os que decidiram dessa forma ignóbil, se aliaram ao gang xerox quando ignoraram a responsabilidade que lhes foi, indevidamente, atribuída.

 

Mas por mim nem um dos intervenientes nesta farsa sem juízo e sem vergonha merece a confiança necessária para fazer parte directa ou indirectamente da Justiça.

Depois de infiltrados no sistema são eles a krypnonite que o enfraquecerá de forma sistemática até outros o poderem liquidar.  

publicado por shark às 22:54 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Domingo, 05.06.11

A POSTA NOS PORTÁTEIS PARA ESQUIMÓS

A minha relação com os veículos automóvel foi sempre pautada pela influência nefasta do calor.

Foram muitas as ocasiões nas quais abri o capot para, sem grande surpresa aí a partir da terceira vez, constatar o fumo branco do vapor que me anunciava o sobreaquecimento e consequente despesa no mecânico. E essa nem era um mal em si, pois foram vários os casos em que a sucata seria o destino final das máquinas a quem o meu pé pesado derreteu os interiores.

 

Nem posso apontar o dedo a esta ou aquela marca e/ou modelo em concreto. Desde o meu velho Vauxhall Viva a quem guisei duas juntas da cabeça até ao mais recente, um Opel Astra que também por duas vezes encostou à box, vi ceder ao calor humano que emana da minha condução um Rover e perdi a conta aos Citroën (julgo terem sido três) que viram os seus dias terminarem com o ponteiro da temperatura no vermelho que lhes denunciava o fim.

Claro que depois de uma pessoa reparar na multiplicação de sobreaquecimentos acaba por somar dois mais dois e perceber que o problema não é mecânico mas psicossomático e a solução consiste em evitar o calçado de chumbo que nos empurra o pedal do acelerador para lá do limite razoável.

 

Porém, esta nostalgia volante serve apenas para vos enquadrar no contexto do meu problema calorífero que na verdade já alastrou a outro tipo de maquinaria e é dessa que esta posta visa tratar.

É que se no caso dos automóveis um gajo acha que até faz sentido a coisa ressentir-se do abuso da respectiva capacidade, noutro tipo de material menos... circulante não estamos preparados para enfrentar a mesma limitação.

 

O meu último portátil (de saudosa memória) foi um IBM. Prestou serviço ao longo de quatro anos de utilização intensiva e acabou por baquear mesmo às portas da obsolescência quando se finou o disco made in Taiwan que tanto me desiludiu quando finalmente conheci as entranhas do suprassumo da batata frita americana e descobri a fina flor asiática que não me passava pela mona poder rechear um equipamento topo de gama.

Quando concluí ser ideia tonta recuperar o dito tentei sondar junto de profissionais a melhor opção e todos, sem excepção, me recomendaram os Toshiba. Por causa da assistência técnica, diziam.

E assim acabei por investir mais três ou quatro anos da minha computação móvel num Satellite de gama média (cerca de 900 euros de material), sempre na esperança de que nunca precisaria de recorrer à tal assistência técnica xpto que tanto me gabaram.

 

O que tem isto a ver com os aquecimentos dos motores nos automóveis de que vos falava acima?

Tudo.

É que os Toshiba, descobri agora, têm como calcanhar de aquiles precisamente aquilo que constituiu o meu fantasma em matéria auto.

Por isso me sinto na obrigação de alertar quem evite as marcas mais baratas e pretenda optar por um Toshiba: é o equivalente a adquirir um carro novo com tiques de usado com imensa quilometragem. Basta um software mais pesado, um jogo de computador de 2004 sem mariquices 3D, por exemplo, e nem uma ventoinha suplementar vos poupa ao desligar sem aviso prévio do vosso portátil quase novo mas já sem garantia.

E depois é o equivalente a um gajo dar consigo de colete fluorescente vestido na berma da estrada à espera que o motor arrefeça para poder prosseguir a marcha.

 

Convenhamos que não é o que a pessoa tem em vista quando gasta mais cem ou duzentos euros para evitar maçadas e a Toshiba deveria ter vergonha por ser capaz de lançar no mercado estas chaleiras velhas disfarçadas de portáteis sem explicar à malta que os Toshiba são mais adequados para a Islândia.

Ou ainda mais acima...

publicado por shark às 19:39 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Domingo, 29.05.11

A POSTA À BASTONADA A TORTO E A(O) DIREITO

O Bastonário da Ordem dos Advogados, cujo discurso já por diversas vezes elogiei aqui, entendeu nos últimos tempos dar uma de Passos Coelho e de cada vez que abre a boca sai asneira.

Agora entendeu insurgir-se contra o juíz que aplicou prisão preventiva aos dois jovens directamente associados à última grande realização cinematográfica do país real que a internet nos deu a conhecer.

 

Diz o Pinto que os juizes entenderam transformar a Justiça em instrumentos de terror, pela desproporção da pena aplicada, diz ele, tendo em conta a situação não ter deixado sequelas na vítima. É nesta justificação imbecil que o Bastonário deita a perder a credibilidade da argumentação que em muitos aspectos era reconhecida como válida relativamente à própria situação da Justiça.

Tendo em conta a explicação clara, detalhada e bem fundamentada para a medida de coação que o juiz não se coibiu de fornecer, bem como a displicência, a leviandade, como entende que uma brutalidade daquelas não deixa sequelas na vítima, Marinho Pinto provou que apenas está interessado em atacar os magistrados e em sacudir água de um capote, o dos advogados, cujo discurso afinal denuncia as suas culpas na manutenção de um Código Penal que de aterrorizador só tem os da impunidade máxima para os criminosos e da aparente irrelevância atribuída ao sofrimento das vítimas.

publicado por shark às 20:43 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Domingo, 22.05.11

A POSTA QUE NÃO ME APETECE BRINCAR

Cada um de nós vive em função da conjuntura, da personalidade, da formação pessoal, de uma série de factores que nos distinguem por dentro e por fora, a influência do exterior que nos educa e acaba por nos encaminhar para determinada forma de estar que encaixa ou não nos valores que subscrevemos.

Essa diferença que nos torna únicos não impede que exista uma interacção, o apelo social irresistível que lima as arestas ou fornece os pretextos para ultrapassarmos aquilo que nos distingue e pode, pelo conflito de interesses ou mera incompatibilidade de vivências ou de características, afastar.

 

Por vezes as tais diferenças podem tornar-se obstáculos incontornáveis, quando o comportamento dos outros colide de forma frontal com a escala de valores que abraçamos. O conflito pode (embora não deva) nascer dos termos em que manifestamos a nossa opinião, esse exercício de liberdade de que podemos usufruir enquanto estiverem salvaguardados os seus limites mais ou menos consensuais.

Por isso confesso que estou a fazer um esforço para reprimir a expressão linear do repúdio que uma das notícias para encher chouriço de uma televisão qualquer me provocou, tentando moderar as emoções que as palavras deveriam transmitir.

 

Em causa está uma iniciativa levada a cabo em Braga, nomeadamente uma tomatada que um grupo de cerca de mil pessoas entendeu copiar dos espanhóis.

Durante dois ou três minutos vi no ecrã a forma como largas centenas de pessoas investiram a sua energia, o seu tempo e recursos, toneladas de comida, que poderiam salvar vidas noutro lugar qualquer. Mais de mil pessoas, numa praça, divertidas a arremessarem comida umas às outras apenas porque lhes deu para aí e não para encherem contentores com os seus projécteis improvisados e tratarem de os fazer chegar às bocas de outras pessoas que, neste mesmo país, jamais se divertiriam daquela forma por não terem com o quê. Nem força anímica para o conseguirem.

 

Podia agora dissertar uma moral qualquer, a minha, acerca do que está implícito de hostil na brincadeira tão pueril daquela gente minhota.

Mas prefiro entregar a ti que lês este texto a conclusão que a tua visão das coisas, a tua escolha, entenda extrair.

 

Já disse o que precisava de dizer.

publicado por shark às 15:52 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (17)
Sábado, 21.05.11

BARDAMERKEL COM ESSA CONVERSA

A xôdona Merkel decidiu manifestar o seu desconforto por os portugueses se reformarem mais tarde e terem mais dias de férias do que os seus compatriotas na Alemanha e não faltaram as vozes da direita e da elite financeira portuguesa a aplaudirem a frontalidade da madame.

Pois eu acho que a xôdona Merkel e os seus admiradores portugas deviam ganhar vergonha nas caras e acrescentarem ao desabafo parvalhão e invejoso o desconforto devido ao facto de nesta altura se estar a discutir um salário mínimo para os alemães que deverá ser fixado em cerca do dobro do nosso.

publicado por shark às 14:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (6)
Quarta-feira, 11.05.11

(U)GANDA VERGONHA...

Dentro de algumas horas um imbecil país africano prepara-se para abrir um precedente vergonhoso e sem atenuantes na sua estupidez, instaurando a pena de morte pelo crime de… homossexualidade.

Custa a acreditar, mas é mesmo disso que se trata, da consagração legislativa de um comportamento vil (da maioria da população) levando-o ao extremo com a pena capital.

Eu não sou homossexual, mas da mesma forma que não preciso ser mulher para me indignar com algumas atrocidades por elas sofridas em países tão imbecis e cruéis como o Uganda, terra sem lei porque quem a escreve está fora dela, entendo o desconforto de quantos o sejam fora daquele país e o medo dos que lá ficarem. Matar uma pessoa por ser homossexual é exactamente igual a fazê-lo por ser judia, comunista ou preta, como a maioria da população daquela nação que pretende fazer história pela negativa.    

 

Um assassinato não se lava com a respectiva institucionalização. E é de assassinato que se trata, sempre que uma pena de morte é aplicada. Mais ainda quando é justificada pela simples eliminação da diferença, de uma qualquer característica que distinga um cidadão de qualquer maioria. O pretexto não cola, mesmo numa terra sem lei onde um jornal se deu ao luxo de publicar com destaque os rostos e as identidades de pessoas alegadamente homossexuais, marcando-lhes a ferros a existência de uma forma mais eficaz do que a das tristemente célebres braçadeiras nazis que identificavam nas ruas os judeus.

 

É isso que pode vir a acontecer no parlamento do Uganda se não conseguirem adiar a votação dessa lei por 48 horas, no final das quais ficará para sempre inviabilizada.

 

E se isso vier a acontecer e esse país de imbecis não sofrer sérias consequências por parte dos países mais poderosos teremos reaberto o caminho de regresso ao que o mundo tem de pior para mostrar de si, sobretudo se a moda alastrar a outras terras sem lei e com falta de argumentos dos seus lideres para se manterem no poder.

 

Teremos mais um sinal claro de que está tudo doido e antes que a coisa descambe é urgente encontrar soluções para manter alguma ordem e bom senso neste manicómio global.

publicado por shark às 15:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)
Sábado, 30.04.11

ONDE MENOS SENTIDO FARIA

Nunca tentei esconder a repugnância que me provocam os bombistas, suicidas ou não, muçulmanos ou não, cobardes e desumanos sempre.

Se há causas pelas quais valerá a pena oferecer a vida, não faltam formas dignas, corajosas, de o fazer. Corajosas na força necessária para enfrentar um inimigo olhos nos olhos e com a dignidade mínima exigível a qualquer guerreiro, a suficiente para distinguir um inocente de um deliberadamente hostil.

Quem conhece Marraquexe sabe o quanto as diferenças religiosas, linguísticas ou outras se dissipam naquela mistura constante de marroquinos com europeus.

Também por isso, o atentado bombista que vitimou dezasseis pessoas, tudo indica que um português também, constitui uma traição ao povo de Marrocos e a tudo o que naquele espaço património mundial se construiu ao longo de muito tempo de convivência sã e de enorme importância económica para uma nação de tal forma dependente do turismo e sem muitos dos apelos turísticos de outros países mais evoluídos do magrebe.

 

Um atentado bombista, ainda que envolvendo o martírio de um imbecil qualquer, jamais poderá ser justificado enquanto indispensável no contexto de uma guerra e ainda menos conotado como um acto de coragem merecedor de qualquer tipo de homenagem ao cobarde capaz de arrastar gente inofensiva, civis até do seu próprio povo e com as mesmas convicções, crianças, alvos indiscriminados que afinal são destinados a morrer para alguém chamar a atenção para uma causa que acreditam superior às vidas seja de quem for que esteja no local errado na pior hora.

 

O café Argana era um ponto de encontro da praça Jemaa El Fna, uma passagem obrigatória de todos os roteiros turísticos da cidade agora manchada com sangue que a quem por lá passou só pode chocar pelo nível elevado do patamar do absurdo, pelo contra senso de acontecer uma tragédia assim num local que desmente todos os argumentos com os quais os fundamentalistas recrutam os seus assassinos anónimos.

É uma sensação desconfortável, perceber o golpe que o atentado constitui para aquela terra mais próspera do que muitas em Marrocos precisamente pelas receitas que o turismo lhe traz.

E juntam-se ao nojo a revolta e o desprezo por estes canalhas sem coração que, alegadamente em nome de um Deus que nunca toleraria o assassínio ou mesmo o martírio dos seus fiéis, matam e morrem, sobretudo nestes moldes particularmente desonrosos e cruéis.

 

É que por muito que os cabecilhas terroristas pintem a coisa como uma prova de força para impor pelo medo o respeito que não merecem aos seus alvos ocidentais, esta chacina em concreto visa apenas minar a economia de Marrocos para abrir caminho por entre o desespero das suas gentes até ao poder onde pretendem instalar uma ditadura pior do que as que os povos árabes combatem nesta altura nas ruas com um heroísmo que nunca um cobarde bombista conseguirá exibir perante os outros ou mesmo na memória colectiva dos seus.

publicado por shark às 11:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (2)
Domingo, 03.04.11

PARABÉNS FCP!

No final do jogo entre o Benfica e o Porto no qual a equipa da Invicta deixou bem claro qual é a melhor equipa portuguesa nesta época desportiva e quando os portistas festejavam um título bem merecido dizem que foram apagadas as luzes do estádio e ligados os aspersores de rega do relvado.

Sou benfiquista e, para o bem e para o mal, assim morrerei. De pouco interessa quantas derrotas a equipa sofrer.

Porém, jamais poderei subscrever atitudes imbecis, mesmo justificadas como retaliação, quando está em causa o fairplay que o futebol deve fomentar, a segurança dos presentes no interior do estádio e a mensagem transmitida aos que apenas precisam de pretextos para desencadearem a violência gratuita que espanca o próprio futebol e torna ainda mais indigna e dolorosa a derrota sofrida.

 

Porque a transforma numa completa humilhação.

publicado por shark às 22:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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