A POSTA NUM CAIS EM TI

 

Perdoa-me tudo aquilo que não sou como desejarias, tudo aquilo que amarias mais se eu fosse tal e qual esse teu modelo onde jamais encaixarei.
Tudo aquilo que sei e não te basta, o que faço e te agasta por ficar sempre aquém do que sonhas para ti e não tens, tudo o que digo e não te interessa por nunca corresponder a algo que queres saber mas não perguntas, pois dispensas as respostas que sentes como inúteis se fornecidas por alguém que já não fazes questão de ouvir.
 
Perdoa-me ainda a arrogância com que te desassossego a consciência sem querer, sempre que te demonstro o quanto fazem doer as tuas abstracções de tudo aquilo que eu possa representar na tua estrutura empedernida pelo egoísmo que me exclui, implacável, da equação.
E eu percebo-me a mais, dissipada a ilusão pela brisa suave do início de uma manhã qualquer em que senti a falta que deixei de te fazer, no brilho perdido do teu olhar envelhecido por mais uma desilusão que te impões, mal disfarçada por entre os argumentos que te sustentam uma saturação forjada na impaciência pelo impacto da mudança que rejeitas enquanto ao mesmo tempo afirmas ansiar.
 
Perdoa-me tudo aquilo que te faltar neste homem que sou, imperfeito, em muitos aspectos incompleto quando me submeto ao escrutínio da tua bitola inatingível, quando me comparas sem nexo com o perfil desenhado a carvão na tua imaginação, esborratado pela constante borracha das tuas oscilações de humor.
Eu aceito-me inferior nessa escala que é a tua, reconheço a incapacidade de cumprir os requisitos desse formulário que preenches ao longo do tempo em que apenas buscas o pretexto necessário para deixares cair.
 
Desculpas, afinal, como as que te quero pedir para que não te incomodes a procurar em ti as explicações que te ofereço de bandeja, na assumpção da minha incomensurável limitação que te impede de seres feliz nessa interminável demanda por uma alternativa melhor. Ou nenhuma.
E eu abdico do amor, como dispenso aos poucos tudo o resto que não mereço por ser incapaz de corresponder ao que demonstras precisar nesse trono onde exerces o teu poder absoluto, rainha, de preferência sozinha, ao leme de uma embarcação imóvel onde navegas pelas escolhas possíveis, pelos rumos de uma vontade postiça que só amanhã ou depois traçarás.
 

Ancorada na doca seca da preguiça de onde jamais zarparás.

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publicado por shark às 14:22 | linque da posta | sou todo ouvidos