A POSTA DE UM ZÉ DO BAIRRO NUM LICEU MARIA

liceu maria amália

Foto: Shark

 

 

Ao longo da minha adolescência vesti duas camisolas, as dos espaços com os quais me identificava na altura.
Uma era (ainda é, como este blogue comprova) a do Bairro do Charquinho, em Benfica, a minha terra como a sinto. E a outra era a do meu liceu, o Maria Amália.
Eram importantes, os espaços, como fontes de identidade e de sentimento de pertença. O nosso grupo de amigos, os nossos hábitos e “ondas”, os caminhos que percorríamos nesse tempo destravado estavam directamente ligados aos ditos espaços de referência e, por norma, exerciam sobre a malta mais próxima uma influência mais determinante do que a própria família lograva conseguir.
 
Entrei para o Liceu Feminino de Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa, pouco tempo depois de este deixar de fazer jus ao nome. O sistema de ensino, muito sábio, entendeu abrir as portas do liceu aos estudantes com pila e o tubarão, muito sortudo, seria dos primeiros contemplados com o passaporte para dois paraísos na terra: um liceu com muito mais raparigas do que rapazes e distante do Bairro o bastante para evitar indesejáveis repetições dos rostos femininos habituais.
No dia em que pisei os degraus mais usados da rua Rodrigo da Fonseca (a Campolide) os meus olhos esbugalhados de puto com doze anos acabados de masturbar pela primeira vez viram um relance do céu.
 
Fui um estudante feliz, ao longo dos cinco anos de escolaridade que lá completei. Chegou a um ponto em que quase vivia no liceu (escola secundária tira a mística toda à cena) e deixei completamente desamparadas as vizinhas apaixonadas que no Charquinho só me viam de passagem, de tal forma me fui embrenhando em tudo quanto acontecia ou podia fazer acontecer.
Futebol, indispensável, jogos colectivos como o mata (as miúdas jogavam, indispensável também) e umas cenas de pancadaria para me provar digno perante os mais velhos cuja praxe me encharcou da cabeça aos pés mas o fairplay reguila tornou numa espécie de protegido (deu jeito enquanto não atingi os 170 centímetros que na altura bastavam para evitar embirrações).
Esse foi o núcleo duro do meu ano caloiro no “Maria”.
 
Nos dois anos seguintes as miúdas entraram em força na equação e as festas a qualquer pretexto tomaram conta das minhas prioridades, aqueles slows inesperados que nos permitiam agarrados à eleita desse dia e abriam caminho para o beijo vitorioso que entreabria as portas do tal céu de que falava acima, mais o sexo, o álcool, muito rock e os fumos, tabaco também, cada vez mais intensos e variados no odor.
Anos marcantes que o Maria, um espaço amplo e dotado de um corpo docente maioritariamente excepcional, permitia viver de forma intensa.
 
Os dois últimos anos, conquistado um estatuto de veterano recheado de coisas daquelas que um puto com borbulhas entende como autênticas medalhas, acabariam repartidos entre aquilo que de melhor o liceu oferecia (não estou a falar do corpo docente) e as actividades próprias do associativismo estudantil. Foi o tempo das AE’s, da entrada na política que se aprendia na prática e que funcionava acima de tudo em torno da capacidade de mobilização. A ideologia vinha sempre depois. E as miúdas antes.
Contudo, acabaria por sair do Maria com o 11º completo e com notas que o 12º noutras escolas viria a complementar com o necessário para ingressar no ensino superior estatal.
O liceu Maria Amália constitui por isso um local de culto, um manancial de memórias onde se encaixam, no impulso ou na concretização, muito do que associo ao conceito de a minha primeira vez.
 
Em tudo quanto ainda possuo em mim de adolescente encontro quase sempre um pedaço dessa camisola que até hoje não despi.
 
E boa parte do que sou foi lá que o aprendi.
publicado por shark às 00:08 | linque da posta | sou todo ouvidos