DO AMOR QUE BASTA VIVER

Na maioria dos casos a vida ensina-nos que mal sabemos vivê-lo e no entanto tantos nos esforçamos por interpretar o amor, por compreender as suas infinitas variações e, pior ainda, hierarquizá-las.
É quase como reflectir acerca de Deus e se calhar até é disso que se trata, pelo que mais do que uma questão de lógica é um tema do domínio do instinto e, se quisermos elevar a fasquia, do âmbito da fé.
Daí proliferarem as teorias acerca de como fazer vencer uma relação, quase todas assinadas por quem interveio no fracasso de algumas, e mesmo como definir os respectivos contornos à luz da análise arrogante de episódios pontuais e fora do contexto.
 
Já pouco crédito me merecem os doutrinários do amor, não só pelo evidente desacerto das mais elaboradas conjecturas mas também pela constatação pessoal de que não é possível a criação de uma ciência exacta acerca de um tema que pintamos no coração mas acontece na cabeça. E quanto ao que se sabe do funcionamento desse centro nevrálgico das emoções, a Psiquiatria e a Psicologia não escondem haver ainda muito terreno para desbravar até se avançar com alguma certeza.
Se adicionarmos as emoções à equação, as variáveis são tantas que é impossível extrair uma conclusão consensual.
 
Como fogo ao vento
 
As emoções são como cavalos selvagens, só a custo conseguimos domá-las e fica sempre no ar a dúvida se isso de facto aconteceu ou se apenas tentamos enganar-nos e aos outros quando nos afirmamos no controlo da situação quando esta envolve a paixão ou outro sentimento igualmente inesperado e arrebatador.
Não existe um dispositivo na natureza humana que garanta o absoluto controlo emocional e mesmo no seio de quem se prova mais frio e distante acontecem tantas excepções que a regra acaba confirmada por si.
E quando aceitamos tal pressuposto, qualquer teoria por mais rebuscada não transcende a mais discutível tentativa de adivinhação.
 
O amor pode até escrever-se, pintar-se ou exprimir-se perante os outros de uma forma intensa, realista e absolutamente fiel à realidade que algum talento imortalizou.
Contudo, estaremos sempre perante uma perspectiva individual, perante um caso específico que pode apenas transmitir-nos com maior ou menor rigor e beleza a essência das emoções sentidas para quem as viveu. Quaisquer paralelos encontrados resultam de coincidências nas características ou nas peripécias de episódios experimentados por outras pessoas.
Quando aprofundamos essa proximidade aparente damos de caras com os desmentidos que a diferença nos pormenores oferece e voltamos à estaca zero em matéria de padrões.
 
O amor é o viveiro das emoções que mais nos perturbam, que mais nos arrastam, que mais nos justificam as reacções despropositadas, as cedências “impossíveis” e os desvios que nos surpreendem por não encaixarem no perfil que traçamos ou no que, de forma ainda mais leviana, no que traçam de cada um de nós.
É imprevisível mas desejado, é inexplicável mas universalmente reconhecido, é um estado emocional que mesmo quando nascido de uma relação parental pode fugir a todas as normas e modelos com que o tentemos caracterizar.
 
Acho que talvez…
 
A cada pessoa corresponde uma forma de amar e mesmo essa oscila em função do comportamento de quem se ama ou das contingências enfrentadas ao longo da evolução de um enlevo ou de uma relação a dois ou mesmo mais.
E isso invalida o reclamar de uma sabedoria que só pode apelidar-se fanfarrona, apoiada em análises racionais a fenómenos que só a irracionalidade consegue por vezes explicar.
 
O amor não é sequer quantificável, excepto à luz de uma bitola grosseira que se vê desmascarada por situações extremas ou pela subjectividade indissociável das suas “medições”.
 
É uma explosão interior tão difícil de prever como uma erupção, tanto no momento da ocorrência como na devastação (por vezes em sentido literal) que pode causar nesta ou naquela pessoa, no próprio discernimento de quem se tenha habituado em demasia às vitórias fáceis sobre paixonetas de circunstância ou quaisquer outras emoções superficiais.
 
Quando é amor digno desse nome, tudo se torna tão aleatório como a eventual queda na Terra de um asteróide de grandes dimensões.
E o único dado adquirido é que somos igualmente vulneráveis, indefesos até, perante qualquer destes “cataclismos” naturais…
publicado por shark às 00:17 | linque da posta | sou todo ouvidos