PAGES NOT FOUND

Em menos de um ano mais de um terço dos blogues que lincam o charco fecharam as portas. É confrangedor, um tipo dedicar algum tempo a percorrer os espaços que lincam o seu e constatar mais de três dezenas de óbitos. Deve ser uma sensação parecida com a de quem atinge um patamar da vida em que os convites para casamentos e baptizados se substituem pelas chamadas que prenunciam velórios e/ou funerais.

Existem diversas formas de perceber o encerramento de um blogue.
A mais polida passa pelo anúncio formal da desistência, um último post em que a renúncia se explica e o the end é confirmado pelos agradecimentos e pelo tom de adeus.
A mais frequente, contudo, é a morte súbita (rara nos blogues colectivos, mais vocacionados para a lenta agonia sob os cuidados paliativos de um ou dois dos seus mais persistentes colaboradores). Os autores desses blogues como velas que se apagam de repente sem sequer referirem a existência de uma corrente de ar pura e simplesmente desaparecem, deixando os espaços num vazio de interrogações que um último post como os outros, prevendo-se um post a seguir que não segue, em nada ajuda a esclarecer.
Estes são os blogues que acumulam comentários em forma de pergunta na caixa dessa derradeira manifestação da existência da autora ou do autor, cada vez mais espaçados no tempo, até ao dia em que ninguém coloca sequer a questão.
Também existem os que desaparecem por substituição, transitada a vontade para uma nova casa virtual onde nem sempre os linques se repetem (o que joga certo com a sede de mudança que nos leva a recomeçar quase do zero um destes pequenos projectos pessoais).

E finalmente existem os mais perturbadores, os erros 404, os terríveis page not found que surgem no monitor como buracos negros pintados de fresco, num branco sujo de palavras automáticas que variam de acordo com a plataforma que os alojava até algo ou alguém passarem uma esponja definitiva sobre os registos de tudo quanto ali aconteceu num determinado período, por norma curto, envolvendo um número indeterminado de pessoas que viram pedaços do seu tempo engolidos pela obliteração virtual.
Que se torna bem mais real aos olhos de quem fez parte dessa realidade, posts ou comentários, assim apagada sem apelo. Esbanjada cada intervenção, como se as palavras também pudessem ser cuspidas ao vento em ambiente html.
Que o são, afinal.

Em menos de um ano, uma eternidade em tempo blogado, vi-me privado do contacto com dezenas de pessoas ou apenas com os nicks que lhes vestiam personagens descartáveis, se calhar travestidas noutras designações em espaços que continuo a frequentar. Camaleões que não navegam na blogosfera, sobrevoam o seu Triângulo das Bermudas virtual onde se sabem desaparecidos por antecipação, sem rasto deixado sequer. De si ou dos outros que atraíram entretanto às suas experiências com as cobaias flutuantes em que nos tornamos, sempre que constatamos esse final abrupto de uma realidade que em certa medida constituiu uma traição à imortalidade almejada na posteridade de uma qualquer intervenção.

Na ficção assim desgravada como se amarrotam apontamentos de uma tertúlia para atearem o fogo numa lareira que lhes aqueça os dedos gelados de tanto teclarem em vão uma alma fantasma e um coração sempre frio.

Como se entregam ao vento as palavras e as memórias que ambicionamos levadas para outro lugar qualquer, mas na verdade acabam por se perceber perdidas na mais moderna dimensão do vazio.
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publicado por shark às 12:34 | linque da posta | sou todo ouvidos