UM MUNDO SÓ SEU

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Aos poucos o nevoeiro a levantar.
O sol a abrir caminho por entre o manto incolor da cegueira temporária, faz-se luz em cada recanto da ilha deserta e tudo o que não se via parece agora ao alcance da vista outra vez.
O navio lá adiante, pintando o horizonte com a sua presença visual. Apenas um barco, afinal, vontade alguma de embarcar para longe daqui.

Aos poucos o fim da bruma e um rasto de espuma que desponta logo ali onde a areia se deixa beijar pelas ondas do mar e a terra acaba. Engolida pela água cada vez mais manchada por pedaços de azul. Do céu que se percebe destapado e envia um recado que brilha nas penas daquele bando de gaivotas que voam a liberdade e transportam a verdade aos olhos de marujos e de náufragos sem uma rota para a fé.

Como estrela polar, a luz a brilhar de passagem nas asas de uma viagem silenciosa no reflexo dos olhos de alguém. E nem interessa quem, entregue a si próprio, sentado nas rochas a soprar o nevoeiro e a descobrir o mundo inteiro nas intermináveis horas de meditação.
Lições do passado, no presente avisado acerca do futuro que um mago lhe revelou. No dia em que naufragou, abalroado de surpresa por um torpedo na proa. O fim inesperado de uma embarcação condenada ao estaleiro pela falta de dinheiro de um arruinado armador.

Aos poucos a visão cristalina de um mundo só seu. Perdido por entre o breu o furor cosmopolita, abandonada em definitivo a vontade de acreditar no milagre a ressuscitar nado morto. Aquilo que nasce torto e jamais se pode endireitar.
A sensação de acordar no final do sonho e passar o testemunho ao próximo corredor, um momento de libertação indolor que sabia necessário.
O reencontro com algo que o nevoeiro tapava e agora se mostrava ao brilho da luz.

A saudade esquecida no meio da euforia pelo regresso da paz.
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publicado por shark às 11:37 | linque da posta | sou todo ouvidos