A POSTA QUE TAMBÉM NÃO INALASTE

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Embalado por uma efeméride que serve, acima de tudo, como pretexto para os fundamentalistas debitarem as suas atoardas ignorantes mas politicamente correctas, o CDS/PP apontou hoje baterias às drogas leves.
Notem que eu escrevi drogas LEVES. E é aqui que assenta a estupidez corriqueira dos meninos de coro que vociferam contra aquilo que nos seus tempos betosos do liceu os fazia sentirem-se iguais aos outros meninos menos bem vestidos.

Nuno Melo, um rosto habitual dos centristas/populistas nos circuitos mediáticos, deu hoje voz a essa absurda cruzada da falange careta num noticiário da SIC Notícias com o beneplácito palerma do eterno totó Mário Crespo.
O beto de serviço, tão rebelde na sua actuação política enquanto o seu partido feito em cacos era gerido por quem teve tomates para lhe deitar a mão, alinhou no discurso estafado dos alegados malefícios da cannabis na população nacional.

Para início de argumentação, o iluminado invocou as salas de chuto mais umas estatísticas comparativas entre Portugal e a Suécia(?) nessa matéria. E depois de colocar a coisa no seu contextozinho infantil de quem acredita que os maus oferecem droga nos rebuçados para aliciarem as criancinhas, avançou para uma elaborada teoria acerca do índice de THC no haxixe.
O THC é a parte da planta que “bate”. Ou seja, sem THC a cannabis transforma-se no popular cânhamo que este país já tanto cultivou e só serve para fabricar têxteis e papel alternativo ao que dizima florestas por todo o planeta.
E o Nuninho afirmou que “há 20 anos o haxixe tinha apenas 3% de THC e agora tem trinta”.

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Pois eu, que ao longo dessas duas décadas tive o prazer de avaliar a evolução da cena de forma directa e não através de relatórios produzidos por caretas armados aos cucos, afirmo que isso é uma triste falácia. Triste por não corresponder a uma verdade porreira e falacioso por servir de sustentação para o temível papão da esquizofrenia e, mais rasteiro ainda, para móbil do elevado índice de insucesso escolar português.
Como qualquer político hábil, o central-populista desviou assim na boa um problema nascido da incompetência de sucessivos colegas seus para as costas dos dealers de chamon que, ao contrário dos seus colegas da pesada, mal conseguem ganhar para a bucha com as suas transacções “malévolas”.

De resto, só faltou o Nuninho apresentar um gráfico que provasse um insucesso escolar ainda maior na Holanda (onde a malta pode fumar daquilo sem a canga proibicionista), mesmo contrariando o habitual argumento do aumento de consumo que a despenalização terá provocado nesse país bem mais desenvolvido e inteligente do que aquele que produz os Nunos Melos e outros betinhos sem piadinha nenhuma.

Continuo sem perceber a falta de visão destes ignorantes que preferem entregar ao livre arbítrio e ao milagre da multiplicação dos polícias o controlo da substância (implicando esse controlo pelo Estado a cobrança de impostos sobre as verbas movimentadas pela surra), em vez de separarem as águas e explicarem com clareza que no ícone do Casal Ventoso o haxixe era material para fazer cócegas e que os iates de Medellin não têm paralelo com as traineiras de Tânger.

E pronto, fico por aqui com a minha forma de comemorar a efeméride.
Só mesmo para não deixar estes artolas sozinhos no púlpito a debitarem as suas rezas que cada vez mais me soam heresias.
publicado por shark às 22:31 | linque da posta | sou todo ouvidos