A POSTA QUE FOI POR BEM

Aprendemos aos poucos a interpretar os sinais subtis da mentira piedosa. São poucas as circunstâncias que a justificam, ainda que existam condições pontuais para a legitimar aos olhos de quem a usa.
Por norma, o pretexto é mentir para não magoar alguém. Um clássico, muito útil para quem disfarça a cobardia ou a hipocrisia inerentes à incapacidade de assumir os seus mais delicados calcanhares.
O outro pretexto mais comum é mentir para pura e simplesmente ocultar os lados que se consideram menos bons, os ângulos menos favoráveis do carácter que sabemos fraquinho mas precisamos de pintar um nadinha melhor.

De qualquer forma, a mentira piedosa implica uma fuga a uma verdade qualquer que pode aplicar-se ao próprio como a alguém que se queira enganar. Porque é isso que está em causa, o logro implícito numa mentira qualquer. Ainda que devidamente embrulhada no tal papel fantasia que disfarça um presente envenenado à espera de um dia, inadvertidamente, se abrir aos olhos de quem engoliu uma treta.
E é por isso que mesmo a mais bem intencionada patranha acaba por ferir a confiança merecida por quem a utilizou.

Na maioria dos casos são coisas desnecessárias, impulsivas ou condicionadas por um processo de raciocínio influenciado por uma personalidade menos forte ou por um medo qualquer.
Mente-se para evitar uma chatice, tão simples afinal. Mas depois de a mesma mentira se repetir éne vezes acaba por assumir um estatuto de justificação para uma falha qualquer que se ocultou dessa forma. Um lenitivo para a consciência que possa incomodar.

O problema com a mentira piedosa é o facto de ser menos convicta, displicente, fácil de apanhar num lapso qualquer. E difícil de remediar nessas circunstâncias, pela desconfiança que qualquer mentira descoberta induz.
E esse problema agrava-se quando outros lapsos ou mentiras entram de repente na equação sob um manto de dúvida quanto às alegadas boas intenções que, a cada nova história mal contada, se desmascaram como um recurso habitual de quem as contou.

A piedade acaba aí, aos olhos de quem se sente defraudado(a) por alguém. Sobretudo quando se percebe que não existe qualquer hipótese de salvaguardar o tal pressuposto de que nos mentem para nos preservar de um mal pior.

É que essa escala de valores só ao próprio compete definir.
E uma mentira pressupõe por regra mais do que um interveniente, nem que seja pelo possível alastrar boca a boca de uma questionável (e se calhar bem merecida) reputação e respectivas repercussões.
publicado por shark às 12:54 | linque da posta | sou todo ouvidos