A POSTA DO ALÉM

Ao contrário do que o título faça presumir, ainda não morri. Mas estou longe da minha terra e isso causa-me sempre algum desconforto, mesmo que em causa estejam umas férias no sítio que o Leonel adivinhou.
No momento em que escrevo esta posta já não estou onde estava. Rumei para o ponto de onde me chegava o som de belas composições musicais e a imagem da mesma grandiosidade que os Habsburgo vincaram. É de Viena que vos dirijo agora as minhas palavras, sem imagens porque o tempo escasseia para as editar. Tal como Praga, a capital austríaca faz as delícias de qualquer fotógrafo amador. Em cada rua um momento de génio e de beleza (não estou a falar de cerveja), em cada espaço uma referência que me recorda os elos de ligação entre os povos da Europa dita ocidental. Quase faz sentido existir uma União Europeia com Constituição comum. Quase...

As diferenças são colossais, também. Não me revejo, português, na antipatia dos checos ou na frieza da maioria dos quase-alemães que vivem na Áustria. Também não me reconheço, português, na diferença de ritmo. Ou na disciplina interiorizada como uma obrigação natural. Eu atravesso a estrada com o sinal vermelho para os peões se não avistar um veículo a mais de trinta metros. Eles não. Aguardam com paciência a autorização luminosa para avançar, a voz de comando sem a qual são incapazes de funcionar. Atadinhos...
E no entanto, capazes de proezas tão simples como desenvolverem o seu país a uma passada que nos envergonha. Capazes de darem o seu melhor por uma realidade colectiva que os portugueses voltaram a desdenhar, trombas viradas outra vez para os seus umbigos e para a descrença na capacidade de vencer. Uma nação de coitadinhos que se julgam incapazes de darem a volta à merda de uma recessão, à vergonha da corrupção, a qualquer adversidade de treta quando comparada com as destes países que visito e que se viram arrastados pelo turbilhão de duas guerras mundiais. É vê-los agora, pujantes, orgulhosos, cheios de ambição.

Visitar outras terras obriga-nos a entrar em comparações e eu tenho feito as minhas. E não gosto das conclusões que os factos me impõem. Não gosto de ver Portugal a definhar por nossa culpa. Querem um exemplo concreto? Esta noite passei o serão na "feira popular" de Viena, um local fabuloso onde reina a diversão. Como fomos capazes de permitir, sem um protesto veemente, que nos privassem de um espaço assim na nossa capital? Porque cruzamos os braços perante a mediocridade e a estupidez como se fossem coisas inevitáveis ou mesmo naturais?
É isso que sinto quando me vejo, português, cheio de saudades da minha terra, cheio de certeza de que é o melhor país para viver e afinal tão hesitante perante algumas interrogações. Tão fácil seria seguirmos o exemplo de parceiros comunitários como a Irlanda e guindarmos o nosso país ao nível que lhe compete ambicionar...
Contudo, reflexões patrióticas à parte ou talvez não, vejo-me igualmente português quando me cruzo nas ruas com os magníficos olhos azuis das nativas e não escondo a minha certeza de que é no meu país que habitam as europeias mai lindas que já vi.
Eles que se entretenham a cumprir os critérios económicos de Bruxelas. Nós temos assuntos muito mais sérios e estimulantes para nos ocupar o tempo e a motivação.
publicado por shark às 00:02 | linque da posta | sou todo ouvidos