2001 NOITES

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Foto: Shark

Os baixos a vibrarem debaixo dos pés, ainda lá fora, enquanto trocava umas larachas com o colosso porteiro. Cara conhecida, como muitas no interior do recinto. As miúdas que tive, as que ambicionava ter. Os concorrentes mais os simplesmente aberrantes que estavam ali apenas à espera de um pretexto para o sarilho com alguém.
O meu olhar de desafio, sem pachorra para diplomacias num ambiente onde tudo acontecia depressa demais.

A luz irregular, multicolor, a cerveja gelada na mão, os rostos e os corpos ao ritmo do som a rasgar, o rock a tocar e eu possuído pela batida acelerada de uma ganda malha qualquer.
O olhar cativo pelo sorriso de uma mulher agradada por um gesto subtil, a abordagem, cortando caminho pelo meio da multidão, os mais brutos e teimosos ao encontrão e logo de seguida um quéquefoi? para matar a situação antes mesmo de acontecer. A entrada de rompante num grupo de gente sentada, gente desconhecida habituada à minha presença naquele lugar.

A conversa possível, os beijos de apresentação, um atrevido a deitar o mirone armado em campeão, os sorrisos de circunstância, a atenção concentrada no mulherão capaz de me acompanhar na pedalada imparável da noite iniciada.
O amigo oportunista que se cola em busca de uma sobra de luxo naquele lote de excepção. Este é o Zé (e agora desenrasca-te). E o Zé sentado na hora a bater um coro à maluca mais à mão, os Whitesnake no prato e toda a malta para a pista abanar a carola.
Galo do bacano. Acontecia.

A loucura total, terceira ou quarta cerveja, de olho na gaja para ninguém se intrometer. O tal atrevido palerma a desatinar, uma mão no peito do rufia para arreganhar o dente e na boca um sorriso conciliador para lhe oferecer a hipótese de ficarmos por ali sem vergonhas. Uns segundos de tensão, tudo na boa, o Urgent já ecoa na catedral da rockalhada e a miúda, tão bonita, insiste em sorrir para mim.
Sempre a abrir (vamos dar uma volta?), o vitorioso cruzar da porta, até já, o porteiro (discreto) a piscar o olho maroto para me congratular pela companhia, o frio da madrugada a pedir agasalho.

De corpos húmidos pelo orvalho, em ebulição num relvado ali perto, o nome dela que me escapou, o meu nome que sussurrou enquanto se dizia minha naquele instante, o amor instantâneo no final de uma adolescência ansiosa por sensações.
As boas recordações, dedos de passeio num rosto belo, a noite mágica a abraçar cada momento com o seu cunho especial.
A noite no final quando se sacode a roupa e partimos em busca do resto da malta para cada um seguir à sua vida, talvez cá venha amanhã. Ou daqui a um mês, não fazia ideia, telefone não tenho mas dá-me o teu que eu ligo depois, e às vezes ligava. Quando me apaixonava ou uma música no FM, o “Berros”, os Cheap Trick ou assim, me lembrava de uma miúda sensacional.

Eram tempos de acelerar pela vida, de reclamar direitos, de nem admitir a ideia de perguntar um dia como o Jim Morrison: where are the feast we were promised?.
Foram gigantes as noites no Dois, o autódromo da minha corrida em fuga da idade adulta que fintava com arremedos de rebeldia, no culto da insubordinação.

A liberdade sorvida com sofreguidão, nos anos quentes da descoberta dos encantos mil que desbundámos na ressaca eufórica de um Abril especial, uma data histórica para a minha revolução pessoal.
publicado por shark às 18:08 | linque da posta | sou todo ouvidos