A POSTAGEM

Decidi hoje intensificar a graduação do radical na selecção da modalidade a abordar. É verdade, como o título da presente indica vou postar acerca desse desporto arriscado que fala por si. E por mim também.
Como se constata, sou um praticante a caminho do sagrado estatuto de veterano. Mas também sou um crente, pois ainda não perdi a fé na possibilidade de tanto latim publicado de borla fazer algum sentido ou cumprir algum desígnio que, assim de repente, me escapa.

(Publicado hoje, no Desporto Radical da VOX)
A Postagem é uma modalidade que requer um conjunto de atributos difícil de reunir num só atleta, até porque as características deste desporto radical obrigam o praticante a lidar com a queda livre (quem acompanha as estatísticas de blogues sabe do que falo), o alpinismo (subir nas “audiências” não é escalada para amadores), obviamente o surf (é mais o windsurf, pois há muito post que é só vento a soprar e pouco mais), um pouco de natação (para se manter à tona em tanta água que se mete neste desafio), algumas artes marciais linguísticas (não faltam os “combates” verbo-virtuais) e, claro, o terrível e muito temido Scrabble (para conseguir decifrar os muitos códigos embutidos/embuçados nestas "salas").

Claro que nem só de palavras vive a Postagem e existem outros recursos, como a imagem ou o vídeo tão em voga, para cumprir o exigente calendário de provas das competições oficiais (alguns “profissionais” postam diariamente e até mais do que uma vez ao dia).
A performance do postador (ou postadora) é avaliada ao estilo da patinagem artística, por um júri constituído a partir do público presente no estádio (que na postagem é conhecido por monitor) e onde se sabe existirem pessoas nada generosas na sua avaliação do esforço (e do risco) em causa.

Se o esforço está limitado à capacidade para justificar o tempo de antena do júri atrás citado, o risco é impossível de determinar. Voltando à patinagem como referência, se nessa modalidade uma queda pode deitar tudo a perder mas apenas numa final, na Postagem basta um deslize para danificar seriamente a imagem pública virtual do atleta.
Isto porque cada prova é uma final quando se fala da Postagem. Não há lugar a substituições, a repetições ou a qualquer tipo de benefício da dúvida.
Caiu, não volta a levantar-se.

É a consequência da crescente dimensão do leque de praticantes da Postagem. Sempre que algum cai, logo aparecem diversos colegas para lhe passarem por cima e se certificarem de que não volta a recuperar a pedalada. Existem casos documentados de ostracismo tão vincado que conduziu atletas ao estatuto de quase banidos dos circuitos oficiais.
Muitos desistem da prática do Postar por essa razão, embora a maioria dos abandonos se deva à constatação por parte dos próprios de não possuírem o tempo, a pachorra ou mesmo o jeito para a coisa.

Postar é um exercício que pode aleijar as pessoas, tanto ao nível do intelecto e da sensibilidade de quem posta como de quem aprecia.
E por isso não deve ser praticado sem a protecção adequada.

(O abuso do anonimato, um verdadeiro doping que falseia muitos resultados e permite muita marosca, não se encaixa nesta última noção.)
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publicado por shark às 12:41 | linque da posta | sou todo ouvidos