LIÇÕES QUE A RUA NOS DÁ

De entre algumas cenas foleiras a que assisti ao longo da adolescência, ficou-me gravado na memória um momento de pancadaria no qual nem participei (coisa rara na altura, por via do conjunto de maus feitios reunido no meu grupo habitual).
Dessa imagem que me perturbou, que qualquer acto de violência deve perturbar quem o vive ou o observa, ficou-me na retina o derradeiro instante da zaragata.

Nem existia mais do que uma estúpida rivalidade de bairros vizinhos a justificar a animosidade entre os adversários de circunstância. Uma embirração qualquer.
Contudo, uma troca azeda de olhares e de palavras bastou para se embrulharem dois dos membros de cada uma das tribos em disputa.

A situação que me caiu na fraqueza aconteceu quando a luta já estava definida no desfecho. Um dos “combatentes”, após uns bons vinte minutos de pancada séria, já estava estendido no chão. Incapaz de constituir ameaça alguma.
Teve o azar de erguer ligeiramente a cabeça, enquanto confirmava que desistia e pareceu-me até preparar-se para pedir desculpa.
E o vencedor pontapeou-o no rosto, deixando-o inconsciente na calçada.

Acho, como achei na altura e me afastei de imediato e em definitivo do fulano em causa, desnecessária e indigna esta tendência para tratar pessoas como baratas e esquecer a réstia de misericórdia que nos distingue das restantes feras do planeta.
Não vejo coragem nem sabedoria nem outra coisa que não um evidente mau fundo num gesto similar ao do meu conhecido que literalmente rematou o assunto daquela forma excessiva.
Se alguém assume uma derrota ou se revela incapaz de “espernear” mais, tem que haver lugar para, senão a conciliação, pelo menos o “não bater em mortos” que acontece nos espezinhanços de última hora.

É nobre fazê-lo, sobretudo quando o motivo do antagonismo nem justifica uma atitude manchada por “biqueiradas” suplementares para confirmação da superioridade tão óbvia num conflito.

E na minha escala de valores não existem senão excepções raras e muito extremadas que possam de alguma forma justificar tal postura.

No caso concreto, virar as costas teria bastado para o vencedor ganhar o “troféu”...
publicado por shark às 09:36 | linque da posta | sou todo ouvidos