ZONA DESMILITARIZADA

Vestir uma couraça que a dor não trespassa, impermeável à água e ao sal que a podem corromper. Lágrimas a verter da nascente que secou, imaginárias. Lágrimas das memórias de dias em que faria todo o sentido chorar.

Colete à prova de balas que podem ser palavras apontadas ao coração. Palavras como fechas, na ponta um espigão. Invulnerável à carta armadilhada em cada resposta desleixada, em cada repetição do atentado que deixa estropiado o pressuposto da confiança que oferece a segurança na qual deixamos de acreditar.

A resistência de uma armadura, o desconforto que perdura para lá da inevitável reconciliação. A benesse de um perdão que funciona como lenitivo, adiamento do sofrimento que cedo ou tarde acabará por sobrevir.
E tentamos reagir, fortificados na razão que nos assista, um bastião que resista ao colapso em câmara lenta da ponte levadiça que antes estendíamos sobre o fosso que pessoa alguma consegue transpor.

A força do amor (próprio), aliada ao instinto de sobrevivência emocional. A protecção total da sensibilidade atacada em cada resposta desleixada ou na evidência da nossa irrelevância nos contextos alheios.
A trincheira da salvação, escavada por cada batalha travada quantas vezes em vão. A última linha de defesa contra o assalto da incerteza, a linha que mantém a ligação pendurada por um fio, do outro lado o silêncio ou a reacção hostil.

A derrota necessária da utopia que se reergue mais tarde, reforçada pela lição estudada dos pontos mais frágeis da sua construção.
E adicionamos um canhão no veículo blindado, avançamos para qualquer lado com espírito ganhador.

As palavras de amor, munições devastadoras, palavras demolidoras que penetram as defesas mais sólidas e as melhores intenções.

Avançamos para a conquista da praça forte, desafiamos a sorte quando insistimos: “és tu!”
E depois confiamos a vitória à fragilidade de um corpo nu…
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publicado por shark às 10:15 | linque da posta | sou todo ouvidos