A POSTA AO ALMOÇO

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Foto: Shark

Almoço quase todos os dias num daqueles sítios que o progresso quase exterminou. Um espaço cheio de cromos, gente a sério que (alguns há vinte anos) abanca por ali.
É uma sorte poder almoçar num espaço assim. Sem truques, sem tretas, sem outra coisa para oferecer que não o prazer de comer tão bem ou melhor do que em casa.

Queres mais batatas?
E um gajo diz que sim se lhe faltam ou recusa na boa, tal como aceita sem protesto aquilo que o “patrão” entenda servir-lhe nesse dia.
Hoje há dieta!
E lá aterra na mesa uma travessa king size com um generoso cozido à portuguesa.
Isto tá fraco. Levas com os nitrofuranos.
E o frango na grelha é prato do dia porque na lota a Maria não tinha peixe como deve ser.

O bacalhau à segunda, pela praça fechada. E os vinhos escolhidos a dedo pelo anfitrião que gosta de impressionar. Os queijos de fabrico caseiro, a fruta de encher o olho, a arte na grelha com décadas de refinação.
O respeito quase septuagenário pela tradição, contra todos e contra tudo o que ameaça fechar-lhe a porta. As normas que lhe estrangulam o escasso futuro que ele se esmifra todo para prolongar.
Milho aos pombos é que não!

Um tasco clandestino, na verdade uma cantina. Sempre os mesmos de ontem nas poucas mesas ocupadas amanhã. Sempre o futebol, clientela masculina, mais os escândalos do dia que a televisão anuncia nos poucos momentos em que alguém lhe presta atenção.
Os miminhos do patrão e mais ainda de quem o ajuda, de borla.
Os dramas do dia-a-dia de pessoas como qualquer um de nós. Sem papas na língua que as zangas resolvem-se com dois dedos de conversação. Não há segredos na comunhão de um ritual que é confissão por inerência, no corte da casaca cheio de boas intenções aproveitando uma ausência pontual.

O café de encerramento, um lote especial. Dois dedos de conversa, a notícia que interessa acerca dos dias que a vila viveu, actualizada a informação e complementada a conclusão que se depreende das expressões ou dos tons.

A conta e até amanhã, se a norma e a normalização não empurrarem o patrão para um final abrupto da carreira na qual toda a sua vida investiu.
publicado por shark às 16:41 | linque da posta | sou todo ouvidos