PARA ANGOLA E EM FORÇA!

Deu gosto assistir aos momentos finais do Grande Programa dos Maiores Portugueses do Canal de Serviço Público tão deplorável ao ponto de ser capaz de “despachar” o Câmara Clara para o mesmo horário mas na RTP2, só para ouvir um fedelho com cara de intelectual atrevido dizer “não vamos tergiversar acerca de vaginas e quejandos” em directo, ao vivo e a cores.
Aliás, quase nem bocejei ao longo dos minutos em que pasmei com a entusiasmada argumentação de cada um(a) acerca do seu “candidato” favorito para a coroação televisiva até ao próximo Grande Programa dos Maiores Portugueses que se Deus quiser ainda vão surgir mais alguns para apimentar o tão lucrativo televoto.

Também apreciei o brilhantismo do (cada vez menos) jovem general rebelde centrista em defesa de D. João II, ao ponto de lhe adocicar a eliminação sumária de adversários (conspiravam contra ele com Castela, referiu, transformando o afastamento de oponentes à pancada numa lição da História que ele tão bem assimilou).

E a Odete, camarada, a combater o fascismo com o vigor revolucionário ou o rigor evolucionário da verdadeira comuna, chegando a contestar abertamente a medição do tempo de antena atribuído à sua bancada popular de defesa intransigente dos direitos dos trabalhadores e da memória do seu Messias grisalho.

E os outros, todos muito empenhados em defender o seu figurão lusitano como uma causa própria. Só faltaram as tiradas sinceras, emotivas, do género sou pessoana desde miúda (Clara Ferreira Alves), já n’ A Bola sempre defendi os esquemas tácticos ofensivos (Leonor Pinhão, em abono de D. Afonso Henriques) ou o homem estava era mal acompanhado porque no fundo até era muito boa pessoa (Jaime Nogueira Pinto, por Salazar).

E a Ana Gomes, coitada, a defender a caravela derradeira das dez que o Grande Público seleccionou para esta navegação rasteira, perdão, costeira pela História de Portugal que se constrói na têvê, logo a seguir ao Rosado Fernandes sorrir enquanto afirmava que político virtuoso não conhecia algum e se alguém conhecer que lho apresente que ele (Rosado) ficaria contente. Da boca de um homem que os conhece muito bem, em directo.

Contagem decrescente. Dez. Vasco da Gama, caravela ao fundo. Nove. Marquês de Pombal, tinha que ter reconstruído o Estádio da Luz para ser glorioso a valer. Oito. Fernando Pessoa, eram muitos heterónimos e o eleitorado dividiu-se. Sétimo. Infante D. Henrique, hoje apanha-se um avião e chega-se lá muito mais depressa. Sexto. D João II, defendido pelo Portas só lá ia à porrada. Quinto, Luís Vaz de Camões, o preço a pagar pelas secas que todos levamos no liceu. Quarto. D. Afonso Henriques, isto de fundar países nem ao pódio leva um gajo. Ainda se tivesse marcado algum golo importante numa final do Europeu. Três. Aristides Sousa Mendes, derrotado pela concorrência desleal da democracia em directo. Dois. Álvaro Cunhal, sendo quem é obviamente não perdeu. Um. Salazar, a morte anunciada do bom senso tombado de milhares de cadeiras ou de sofás com utentes empanturrados de queijo e atafulhados de rancor.

É um péssimo sinal, dizia Clara Ferreira Alves, ver estes resultados e o que eles querem dizer, no final deste “Sporting-Benfica” entre tele-eleitores à esquerda e à direita.
Eu já nem lhe chamo sinal. Chamo-lhe premonição.

Pelo sim, pelo não, vou fazendo as malas...
publicado por shark às 00:29 | linque da posta | sou todo ouvidos