AMOR CEGO

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Foto: Shark

Estremeceu quando finalmente ouviu abrir-se a porta do quarto no hotel que escolhera para se encontrarem por fim.
Escutou-lhe os passos e sentiu-lhe o cheiro com a nitidez bastante para nem precisar de fazer qualquer pergunta. Não conseguia falar, a voz prisioneira da emoção que lhe soltava o coração do peito que esmurrava por dentro as paredes que o oprimiam na sua sede de escapar para o céu.

E era ela quem o representava, a fragrância que libertava pelo ar e o fazia flutuar nas nuvens como um pássaro encantado pelo vento arrastado até ao paraíso onde ela o pousava depois.

Sem uma palavra, sentiu que se aproximava e ele deitado sobre a cama concentrado a imaginá-la no escuro, estranhamente aliviado quando percebeu o ruído do interruptor.
A pressão dos seus joelhos mesmo ao lado do seu corpo petrificado pela ansiedade, revelando a vontade que o dominava e a escuridão que eliminava a diferença que o podia inibir.

A roupa que começou a despir com a sua ajuda, os beijos que recebia da boca carnuda de uma mulher que conhecia das palavras que lhe ouvia e dos sentidos que apurava para melhor a perceber.
O tacto sublimado pelo contacto inesperado da quente suavidade da pele macia do seio que o tocou. Nos lábios sequiosos que aquele instante despertou, como o resto do seu corpo libertado dos medos que deixavam de existir.

A intensidade do sentir, extremada pela percepção muito ampliada por uma vida sem cores nem luz. A sensação que se produz quando tudo o resto se multiplica, o rasto de uma mão que fica muito para lá de um momentâneo arrepio.

Percebeu que ela sorriu quando no fim de lhe saborear o gosto, tacteou sem pressas o rosto que adivinhava sereno e encantador.

E quando ela partiu, a luz que acendeu iluminava (e ele não via), junto à bengala que brilhava, a proveniência daquele odor que absorvia. E os seus dedos acariciaram uma flor por ela deixada como uma promessa declarada, a ligação que não se desfez quando o momento mágico chegou ao fim.

A certeza de uma próxima vez. Naquele ou noutro jardim.
publicado por shark às 11:59 | linque da posta | sou todo ouvidos