TARDE DEMAIS

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Foto: Shark

Esperou sentada pelo fim da madrugada que nunca chegaria a acontecer. Esperou pelo dia a nascer, em vão. Só chegou a solidão transportada ao colo pela brisa gelada que anunciou a teimosia invernosa que cobria o horizonte e impedia o sol de despontar.

A noite sem acabar e ela sentada no vão de uma escada à espera de um novo dia que nunca mais nascia, teimosa a escuridão.
As rugas nas costas da mão pousada na pedra fria, o tempo que lhe dizia estar prestes a acabar.

O vento frio a soprar, sozinha naquele lugar, aquecida por dentro pelo calor do pensamento e arrepiada pelo arrependimento que lhe fustigava a pele de anciã.
O olhar perdido na esperança vã de uma luz mais adiante, a espera tão frustrante pelo dia que nunca mais surgia como a doce companhia renegada na Primavera que desdenhou.

O tempo que passou foi tempo demais e agora dizia jamais voltarei ao instante em que passei, sou um caminhante incapaz de parar a olhar para trás e avanço sem apelo para o tempo que virá, em busca de cada momento que o futuro me trará.
E ela estendia o braço para agarrar um pedaço daquela velha recordação, dedos vazios na ilusão de uma imagem sem vida da oportunidade perdida que o tempo esborratava na sua mente a envelhecer.

Os desgostos para esquecer e o tempo desperdiçado em cada dia sonhado à revelia do que a realidade poderia concretizar. A mania de adiar a magia que agora se transformava numa triste assombração, simbolizada na solidão que lhe trazia o vento por companhia no momento do seu fim.

O seu tempo acabou assim, quando um estranho lhe cobriu o rosto com um lençol.

Escassos minutos antes de nascer o sol.
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publicado por shark às 10:49 | linque da posta | sou todo ouvidos