O FIM DA HISTÓRIA OU O ÚLTIMO POST

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A acomodação expressa-se de muitas formas, embora quase nunca criativas (o que se explica pela própria natureza do conceito em causa), e consiste num golpe de misericórdia na atitude das pessoas perante os outros e acima de tudo perante si próprias.
Tenho encontrado na blogosfera inúmeros exemplos desta realidade que se apodera das pessoas e se reflecte, naturalmente, nos seus desabafos e/ou manifestações de desalento perante o que assumem como uma espécie de “O Fim da História ou O Último Post” (que me perdoe o Fukuyama).

Este tipo de atitude prenuncia uma idade das trevas contemporânea, pois parece-me cedo em termos evolutivos para concluir que nada se cria e tudo se transforma (também se perde a pica e só por isso não peço perdão ao Lavoisier também). Na prática, seria como estagnar a Cultura e o progresso intelectual a partir do momento em que um qualquer computador concluísse que já todas as palavras do dicionário foram utilizadas (o que impede seja quem for de conceber algo de novo em matéria de escrita), que todas as combinações cromáticas já foram reproduzidas (idem para a pintura) e por aí fora até nos contentarmos todos com aquilo que já está feito e pronto a consumir.
Eu rejeito liminarmente a aceitação deste tipo de pressuposto. O acto de criar é fruto da inspiração individual e se temos como garantido que não existem duas pessoas iguais é lógico presumir que o mesmo princípio se aplica a qualquer tipo de criação.
Existe alguma confusão neste nosso meio relativamente fechado (em cada vez maior número de círculos que se tocam e assim replicam uma determinada estética ou corrente ou o que lhe queiram chamar) entre essa proximidade dos estilos e a incapacidade de inovar.

Para criar algo de novo, de único, basta sermos genuínos e fiéis a nós próprios. Basta não ter medo de exprimir emoções e/ou ideias tal e qual nos assolam a mente, libertarmo-nos dos condicionalismos que os menos criativos (que os/as há) nos impõem por tabela com os seus recursos em matéria de pressão. E deixemo-nos de tangas: existem invejosos/as, despeitados/as, gente mesquinha que tenta destruir com distracções, fait divers, a capacidade criativa dos que a possuem ou mesmo o talento que conseguem exibir quando lhes desamparam a loja.

E eu vejo autores/as capazes, com provas dadas, a cederem ao ruído de fundo e a prostrarem-se diante do inconcebível: já nada de novo se produz.
O tanas! E repito: o tanas! E insisto em puxar pelos cabelos (porque não consigo chegar-lhes aos neurónios) desta malta e em abrir-lhes os olhos para (no caso da escrita) a inesgotável possibilidade de combinações entre os milhares de vocábulos do nosso Português tão rico em expressões.
Sim, é uma questão estatística se for preciso racionalizar a coisa para verem onde quero chegar.

Podemos criar TUDO novinho a estrear quando aplicamos as variáveis vocabulário/talento/inspiração/raciocínio/emoção e ainda deixo algumas (imensas) de fora para quem ousar rebater o que afirmo. É virtualmente impossível a estagnação criativa nos nossos dias quando até há meia dúzia de séculos só a uma ínfima fracção da Humanidade (e ainda hoje, bem vistas as coisas) eram concedidos os meios e a formação (e a Liberdade, porra!) necessários para essa exteriorização do infinito que cada um de nós encerra dentro de si.

Recuso-me por isso a apelidar de outra forma essa “escola Daniel Oliveira” – desculpa lá, mas ficou-me atravessado aquele post do outro dia – do já ninguém inventa nada: é preguiça! E, quando levado ao extremo, é uma cobardia imperdoável para quem possui argumentos para alimentar a Cultura que se faz porque se acredita na respectiva evolução.

E essa evolução acontece porque existe a inovação que a dinamiza. O mesmo se aplica a todas as áreas do pensamento e do conhecimento humanos, nomeadamente as ideologias.
Abdicar desta certeza é entregar os pontos a quem insiste em teorizar à exaustão as obras e as doutrinas de gajos que estão a fazer tijolo desde o tempo da locomotiva a vapor, com pequenas operações de maquilhagem eleitoral e depois continuar a ver o mundo degradar-se à mercê de visões da sociedade que já ninguém acredita a constituírem opção num tempo em que há muito deixaram de fazer sentido os binómios e na prática urge é puxar as orelhas aos pensadores e aos criativos mandriões.
publicado por shark às 15:45 | linque da posta | sou todo ouvidos