A POSTA NA PERTURBAÇÃO DA ANSIEDADE

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Num dos casos conheço a pessoa. No outro a história foi-me contada por terceiros, mas possuo em casa provas factuais da existência desse ser humano cuja vida não prima pela normalidade.
Longe de possuir conhecimentos que me permitam “diagnosticar” os dois exemplos que resumirei, ao longo do início da minha vida profissional tive acesso a alguma informação acerca de comportamentos desta natureza e sinto-me tentado a enquadrá-los naquilo a que a Psicologia dá o nome de Perturbação da Ansiedade.

Uma das mais conhecidas, embora pouco (e mal) divulgada, é a Agorafobia (que se distingue, lato senso, pela fuga aos lugares ou situações em que num acesso de pânico seja difícil ou impossível contar com a ajuda de alguém). No entanto, os casos que cito têm mais a ver com a Fobia Social.
As pessoas em causa, por motivos que desconheço na totalidade, optaram pelo quase absoluto isolamento e abdicaram de muito daquilo que temos como garantido numa vida normal.
Uma delas ainda está longe de completar os trinta anos de idade. Desistiu de uma licenciatura, nunca sai de casa e fecha-se no quarto sempre que os familiares que dela cuidam recebem alguém (mesmo pessoas próximas).
A outra, quarentona, viu-se entregue a si própria quando lhe faltaram os pais e, embora financeiramente independente, enclausurou-se numa mansão de onde saiu para concretizar em Espanha (por fertilização in vitro) o sonho de ser mãe (do qual resultou o nascimento de duas crianças).

Se a primeira evolui nos sintomas com o acompanhamento próximo (não implica intervenção concreta na resolução do problema, note-se), a segunda acabou por manifestar de forma tão radical a sua inadaptação que os dois filhos foram já entregues para adopção por iniciativa dos organismos competentes.

São dois exemplos de que tomei conhecimento por via mais ou menos directa, mas estou certo de que muitos outros existirão e que boa parte serão frequentadores deste mundo virtual que lhes permite algum contacto social sem os expor às reacções que a sua mente produz.
São pessoas normais com um problema do qual têm absoluta consciência mas a que ninguém consegue dar resposta, apesar de a Medicina se acreditar capaz de o minorar com terapia e fármacos. Porém, é evidente que o próprio embaraço da pessoa afectada limita a correcta avaliação do problema e, consequentemente, o respectivo tratamento.

O sofrimento permanente de pessoas nestas condições é por demais óbvio e a sociedade que temos pouco ou nada contribui para o aliviar. O crescente individualismo acaba por acentuar ainda mais o isolamento de todos quantos possam manifestar este ou outros tipos de disfunção (associada em muitos casos a factores tão aleatórios como a hereditariedade) e a infelicidade é um dado adquirido para quem se veja vítima de um padecimento para o qual a compreensão é quase nula e o apoio é muito relativo.

Resta-me referir que não existem estatísticas sérias acerca do número de cidadãos afectados pelas diferentes variáveis de Perturbação da Ansiedade, em boa medida pelos aspectos que abordei (nomeadamente a “vergonha” que as questões do foro psiquiátrico suscitam na generalidade das pessoas).

Esta posta visa precisamente contribuir para desmistificar essa forma de entender as muitas doenças cuja origem, em boa parte, derivam precisamente da forma absurda como estamos a encaminhar a nossa vida em comum.
publicado por shark às 16:17 | linque da posta | sou todo ouvidos