A POSTA NO ACELERADOR DE PARTÍCULAS

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Em boa medida, aquilo a que se convencionou apelidar de crise da meia-idade (que alegadamente nós homens enfrentamos pela casa dos quarenta) tem imensos paralelos com uma outra que nos toma de assalto quando o buço desponta.
E a principal semelhança entre esses dois períodos marados que nos descontrolam o pensamento e a atitude consiste na rebeldia atesoada que marca ambos com um cunho indelével e nos acelera sem controlo rumo a situações por vezes caricatas.

Confesso que na adolescência, e mal se revelou essa extraordinária utilidade suplementar de uma parte do corpo que julgava destinada apenas a cumprir funções no âmbito do sistema urinário, o acne assumiu um papel secundário nas minhas preocupações e o sexo passou a protagonizar quase todos os momentos dos meus dias.
Foi o tempo de desejar. As vizinhas, as amigas, as professoras, as primas e tudo quanto era fêmea ao alcance da vista pareciam-me sex symbols capazes de incendiarem fantasias e de condicionarem o meu comportamento de jovem aprendiz de garanhão.

Dava comigo em figurinhas patéticas, tentando atabalhoadamente sondar as hipóteses (quase sempre remotas) de concretizar na prática tudo aquilo que via nas Ginas que os colegas de turma gamavam nos esconderijos secretos dos pais. Fui aprendendo, à custa de alguns vexames próprios da época e da circunstância, a moderar a abordagem por forma a não “espantar a caça” ou a evitar comprometer-me perante esses alvos que me enlouqueciam quando se travestiam em amantes tresloucadas no meu fértil e infatigável imaginário juvenil.

E essa aprendizagem faz toda a diferença quando a ternura dos quarenta nos impele de novo para as cruzadas do amor, pois a relativa maturidade que vamos adquirindo permite-nos controlar o impulso arrebatador que nos arrasta (naquilo a que o povo desbocado designa como pensar com a pila) para um novo descontrolo hormonal que muitos entendem como o canto do cisne da nossa sexualidade primária.
Ou seja, voltamos a cobiçar (quase) tudo quanto mexe mas conseguimos dar a pala de distantes e contidos que não nos coloca sob suspeita de andarmos com falta de algo (naquilo a que o tal povo sem tento na língua apelida de mal fodidos).

Se essa é uma constatação fácil quando somos adolescentes e efectivamente o nosso olhar guloso traduz um apetite voraz por satisfazer, o mesmo pode não corresponder à realidade na fase quarentona.
Aí, o problema não reside apenas no apetite mas também no (chamemos-lhe) requinte que almejamos sempre que desejamos esta ou aquela pessoa. Mesmo que tenhamos estado na cama com alguém poucas horas atrás, o que em teoria nos sossegaria a maluqueira, basta um vislumbre de algo numa pessoa (digo pessoa porque gostos não se discutem) que nos desperte uma imagem mais sensual e a nossa libido converte-se instantaneamente num acelerador de partículas…

E essa é a parte castiça da tal crise de meia-idade que assumo pela interpretação destes sinais que nunca me abandonaram mas seguramente recrudescem nesta altura e, pela troca tímida e fugaz de impressões com outros machos da espécie, concluo indiciarem o mergulho na convenção que referi. Sobretudo quando se associam a aceleração libidinosa e a descontracção perigosa que nos leva a negligenciar a prudência em muitos domínios que a nossa vida contempla.

Não tem sido fácil de gerir, tal como não o foi outrora, este call of the wild que na caricatura mais corriqueira empurra gajos com idade para terem netos para o interior de desportivos descapotáveis.

Mas tenho que admitir que dá pica, este regresso (porquanto irregular) a um estado de espírito que a ser uma espécie de despedida aos dias de glória constitui sem dúvida um portentoso e agradável adeus…
publicado por shark às 12:13 | linque da posta | sou todo ouvidos