A POSTA QUE ERA MUITO BOA PESSOA

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Foto: Shark

E de repente alguém morre.

Gente relativamente próxima mais ou menos afastada, familiar ou vizinho, mais para lá do que para cá e que não consta de todo das nossas preocupações diárias ou se calhar das de ninguém, algures na multidão de um lar dos esquecidos ou na solidão de uma casa envelhecida num ermo qualquer.
Uma maçada, afinal. Um velório e um funeral quase por obrigação, tem que ser, parece mal.

E um gajo lá vai prestar a derradeira homenagem a alguém que há muito deixara de existir na verdade dos factos mas agora a coisa torna-se oficial com registo numa pedra e anúncio num jornal.
Os pêsames à família enlutada, óculos escuros para esconder o olhar que não chorou e roupa menos colorida para dar o ar.

E depois um gajo põe-se na pele do defunto e antevê-se, nesta sociedade que nos despreza depois de velhos, o transtorno futuro para um reduzido núcleo de sobreviventes que apenas aguardam na fila de espera a sua vez de justificar uma inoportuna reunião que afinal apenas celebra o final da sua presença discreta mas, pelo sinal de alerta que constitui para “os que cá ficam”, inevitavelmente incómoda.
publicado por shark às 10:19 | linque da posta | sou todo ouvidos