FALO PORQUE A REVOLUÇÃO ME DEIXA

Se alguém quer ver-me virado do avesso é falar mal da Revolução na minha presença. Podem chamar-me o que quiserem, insulto pior não conseguem encontrar. Porquê?
Porque eu sei o que valho e o que sou, não me atingem os insultos que não correspondem à realidade pela qual só eu sei responder. Mas uma atoarda contra o momento em que o meu país passou a ser um sítio onde eu posso criar uma filha, porque de outra forma ou estaria na prisão ou no degredo, é uma ofensa a demasiadas pessoas cuja luta e sacrifício merece respeito seja a quem for.

Ainda há uns dias eu referia no Arrastão que valia a pena visitar aquele espaço só pelo prazer de ver malta que se afirma salazarista, ou perto disso, a defender acerrimamente a liberdade de expressão.
E haja quem tente silenciar um fascista, ou similar, quando exprime a sua ideologia em voz grossa para afirmar a solidez da sua convicção…

Por essas e por outras, quando ouço os palermas que dizem que isto estava bom era antes do 25 de Abril torço-me todo por não poder recambiá-los para um espaço onde esse tempo pudesse de novo fazer-se sentir nos seus coiratos imbecis. E não falo, claro, dos que deixaram a riqueza nas ex-colónias (os meus que lá ficaram, sem nada a temer, ninguém lhes roubou coisa alguma) ou dos que mamaram da teta do clube privado de latifundiários, milionários e doutores que viviam num mundo à parte daquele em que vegetavam, cantando e rindo, os pais e os próprios idiotas que agora mordem a mão que lhes alimenta o leasing do popó novo e as restantes mordomias que o Portugal moderno oferece a uma classe média que Salazar nunca permitiu existir.

Falo destes estúpidos que nem sabem valorizar o facto de lhes ser permitido proferirem as asneiras que me viram do avesso e só dá vontade de disparar vernáculo à bruta, gajos que nasceram no nada e só pela Revolução tiveram hipótese de serem alguém.
Falo daqueles que não tiveram que lutar em África por uma causa estapafúrdia numa terra que nunca lhes pertenceu por direito ou lá perderam um ente querido sem justificação, dos que nasceram depois do facto consumado e se permitem vociferar impropérios contra o direito a fazê-lo na tromba de quem tem que engolir o nojo para não se equiparar aos canalhas que as suas posições acabam por defender.

Se nada mais houvesse para alegar em defesa da Revolução que homens como o Zeca simbolizam, bastaria o facto de eu não poder bufar a uma polícia secreta da Democracia a insidiosa e salazarenta expressão destes cretinos por forma a que os acordassem às tantas da matina para os arrastarem para uma masmorra qualquer e os torturarem até dizerem nomes e moradas de todos os amigos e familiares apologistas da mesma visão de sociedade antagónica à perfilhada pelo poder, seja ele qual for.

O que me vira do avesso é as aventesmas não conseguirem chegar à mesma conclusão.
publicado por shark às 15:01 | linque da posta | sou todo ouvidos