PALAVRAS DEMAIS

Fugir das palavras como o diabo da cruz. Profanas e sagradas, as emoções misturadas que confundem o sentido e transformam num pecado o mais convicto acto de contrição.
Escapar a uma prisão invisível cujas paredes se escrevem com tijolos feitos de letras que afinal representam os sons.
Do que dizemos quando escrevemos em silêncio o que não falamos por acreditarmos que ninguém pretende ouvir. Mas ficam os olhos à escuta das ideias evadidas que se lêem com ouvidos atentos ao som do que significam, ainda que desmintam pela interpretação descuidada a intenção de quem as proferiu.

A mente que sentiu o quebrar do silêncio com o som distante de um galho quebrado no chão pelos pés imaginários de uma visita surpresa. A presença constante de uma testemunha interior que anuncia, como um anjo ou um demónio, o juízo final. A sentença ditada por quem decifra os códigos alfabéticos e lhes desvenda o sentido tendo em conta um dado perfil. A coragem insana das palavras demais…
Corrompida dessa forma a verdade que se queria exprimir num grito exclamado ou num sussurro interrogado, descrito por palavras desnudas aos olhos de quem as interpretou.

Soltas as feras que buscam no pantanal dos enganos as escravas fugidas à vontade de um autor. Libertadas de forma involuntária e por isso obrigadas a fugir de si próprias, perseguidas pelo medo da repercussão obtida (palavras também) na verdade concebida pela mente de quem as estudou.
Nuas, à mercê da lascívia ou da perfídia nos olhares de quem as possui. Desprotegidas perante a leviandade, o poder da propriedade na interpretação arbitrária de um leitor qualquer.

Perseguir as palavras como guardas prisionais. Livres e condenadas, as ideias baralhadas que adulteram o sentido e convertem num castigo o mais inocente facto ou revelação.
Cercar um perímetro razoável cujos limites se definem com o arame farpado que afinal representa a censura inata em cada um de nós.

Do que entendemos sempre que lemos em silêncio o que acreditamos ser aquilo que alguém pretendia dizer.

Contudo, uma vez enclausuradas as palavras são punidas por si próprias na mente cobarde de quem as prefere esconder.
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publicado por shark às 15:15 | linque da posta | sou todo ouvidos