OS GRANDES, OS PIORES E OS ESTÚPIDOS

Foram 48 anos em coma, todo um país. Isto não tem a ver com ideologias, nem precisa. Qualquer um consegue vislumbrar os erros colossais em termos estratégicos e as respectivas repercussões na vida de todos nós.
E repito: não precisamos sequer de invocar o cariz fascista do regime que arquitectou e geriu ao longo de décadas de estagnação em quase todas as áreas que compõem uma nação.

Mesmo assim, no sufrágio mediático que dois canais de televisão propuseram aos telespectadores, António Oliveira Salazar é o protagonista mais falado em ambos.
E se tudo se conjugar na perfeição, poderá ser “eleito” o melhor e o pior dos portugueses em simultâneo (o que diz bem da sua relevância para o colectivo que formamos).
E eu pergunto: perante isto o que é que eu posso perguntar?

Foi por uma unha negra (cerca de duzentos votos) que Mário Soares não foi eleito o pior português em detrimento do bimbo-mor. Ou seja, na mesma ocasião a populaça hesitou entre a ingratidão boçal perante uma figura a quem se imputam alguns erros de palmatória mas está na origem de muito do pouco de bom que se produziu no pós-Revolução e o destaque (que se confirmou) da figura sinistra que transformou Portugal na sua alegre casinha.
Do mal o menos, optaram pela segunda.

Agora falta apurar o resultado nas urnas da RTP, onde Maria Elisa e um painel de figurões fazem de elenco do Six Feet Under à portuguesa e ajudam a enterrar a pouca esperança no bom senso da maioria dos portugas contemporâneos.
Diz-se que Salazar está mais uma vez bem posicionado para discutir com homens da craveira de Aristides de Sousa Mendes ou do Infante D. Henrique um título duvidoso, mas que no Portugal moderno e recheado de parvalhões que bebem das têvês o pouco que sabem do que se passa fora da sala de estar tem mais peso do que se julga.

E pronto, lá terei eu que dar uma seca à minha filha para lhe explicar quem foi aquele cara de mau chamado Salazar e cumprir o meu papel no que toca a impedir a lavagem ignóbil da imagem de um ditador imbecil, por muito que lhe louve os méritos da austeridade (que só aplicava a si próprio) e do patriotismo (que na sua aplicação extremada resultou numa chacina escusada como a guerra colonial).

Quanto ao discernimento e à memória colectiva dos meus patrícios eu pergunto:
O que é que eu posso perguntar?
publicado por shark às 10:35 | linque da posta | sou todo ouvidos