PENA SUSPENSA

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A flutuar no vazio, sem peso algum. Gravidade ausente senão pela ruptura iminente da frágil ligação vital, unida como um cordão umbilical à nave-mãe que lhe suportava a vida precária.
Vagueava assim num passeio sem fim pelo espaço conquistado num momento inesperado, mais próximo das estrelas mas todavia longe demais. A meio caminho, pensava, na ilusão que alimentava por se julgar livre da atracção do planeta que contemplava à distância.

Mantido na ignorância, pois a órbita que descrevia era uma corrente que desmentia qualquer veleidade do sabor a liberdade que alimentava em vão. Apenas um momento de solidão temporária numa viagem imaginária pelo espaço julgado infinito, inevitável desconhecimento dos limites que jamais iria alcançar.
Limitava-se a flutuar, em conformidade com a prudência que constituía uma exigência de qualquer missão espacial.

Turista acidental num paraíso qualquer, distante de todas as aflições que o atormentavam quando sentia que lhe amarravam à terra a vontade irreprimível de voar. Impediam-no de sonhar nessa guerra, a realidade pesada, gravidade garantida a puxá-lo para o chão como o fio de um balão que lhe suportava a existência numa redoma de fantasia onde nada lhe reprimia a paixão e a utopia tão vitais como o ar que respirava agora.

O espaço imenso lá fora e ele a sonhar com uma tesoura que o soltasse daquela ligação artificial, o espírito imortal saído da casca limitada e a viagem ansiada sem quaisquer limitações aos confins do desconhecido.

Inconsciente jazia, adormecido, numa estranha letargia dentro do casulo em que percorria aquela distância longa demais. Vida suspensa, criogenia, em tudo diferente do interior da sua mente, o corpo congelado para o tempo ficar parado no momento da libertação total.

Mas apenas sonhava que no espaço flutuava, cativo afinal dos insuportáveis grilhões que lhe aprisionavam as ambições desmedidas.
Esperanças frustradas, tudo aquilo que sentia, induzido em erro pelas partidas do coração.

Numa estúpida euforia, conduzido para o desterro e sem hipóteses de salvação.
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publicado por shark às 12:22 | linque da posta | sou todo ouvidos