TERRA DE BRONCOS

Ao meio-dia ainda nem 12% dos eleitores recenseados tinham exercido o seu direito de voto no referendo em curso, sendo evidente o esforço da classe política em desculpabilizar os absentistas com base no argumento mais absurdo: as condições atmosféricas.

Pois bem: nesta altura ainda não faço ideia de quem vai ganhar. Mas já sei quem vai perder pela certa.
Deixo aos moderados a tarefa de explicar mais um fiasco da nossa democracia, sendo fácil encontrar explicações no clima, no tema ou na puta que pariu este país de amorfos sem respeito pelos seus direitos e obrigações.

Eu não sou brando nas questões que mais me tocam e viro-me do avesso quando percebo que ao longo de décadas se sacrificaram pessoas (e as suas famílias por arrasto) para que possamos todos ter uma palavra a dizer nas questões que mexem com a nossa vida, com a gestão desta realidade colectiva que é a porcaria da nação que estamos a permitir com o marasmo residente.
E não venham pra cima de mim com anticomunismos primários pois não sou comuna e só um idiota não entende que ninguém prefere uma vida de trampa como os antifascistas viveram ao longo dos 48 anos de um regime que só servia a alguns (como a História cuida de provar). Essa opção foi fruto de um ideal que, entre outras mordomias, me permite escrever e publicar estas linhas (dantes era proibido, suas aventesmas abstencionistas) e a cada um de nós votar em liberdade e de acordo com a nossa consciência quando essa oportunidade possa surgir.

Repito: não sei quem ganhará e perante o fenómeno que move a presente já me estou um bocado nas tintas, esperando que saiam a perder as/os que preferiram o conforto do lar ou a alegria do passeio em detrimento de aproveitarem o ensejo para gozarem de uma das poucas oportunidades em que podem influenciar decisões que lhes tocam ou poderão tocar no futuro.
Porque, no caso concreto, eu não serei de todo parte interessada mesmo que no futuro me veja indirectamente envolvido no processo (pois além de ser homem, tenho recursos para ir a Espanha na boa…).

Contudo, enoja-me o desrespeito que uma abstenção como a que se desenha constitui para valores que tenho por sagrados e que, em última análise, constitui um sinal para os medíocres que queiram instalar-se confortavelmente no poder que ninguém lhes contestará.
É por isso que vou votar e não porque o assunto me diga respeito de alguma forma nesta altura. Voto porque considero os referendos uma arma do povo contra a prepotência que o poder, mesmo em democracia, revela sob a influência de quem manda de facto.

E sei que outro fiasco constituirá o golpe de misericórdia nesse instrumento que qualquer regime saudável deve salvaguardar como um dos bastiões da liberdade que temos estupidamente por garantida.

Por isso, Sim ou Não, nestes termos acho que o meu país já perdeu a confirmar-se a tendência abstencionista. Preferia que ganhasse o “outro lado” com uma afluência generalizada do que ver a minha posição “vencedora” com 30 ou 40% de votantes…

Não contem comigo para grandes festejos ou para desilusões secundárias.
publicado por shark às 15:37 | linque da posta | sou todo ouvidos