A POSTA NA LIBERDADE

De cada vez que me encontro com blogueiros(as) desfaço quaisquer interrogações acerca do meu envolvimento nesta comunidade, excepção feita ao problema que referi na posta anterior.
Em Beja, e no âmbito do Dia Mundial do Livro, a Biblioteca Municipal da cidade incluiu no programa das comemorações um debate acerca da blogosfera. Seria o pretexto para uma troca de impressões que me deixou esclarecido acerca do que nos une, apesar da diversidade de perspectivas. Um painel onde a homogeneidade não imperava reflectiu, ainda assim, quase em uníssono, a paixão que nos move e a pressão que nos intimida.
E se a anfitriã, que abriu a conversa com chave de ouro no seu tom informal de blogueira convicta, deu o mote para o improviso das restantes intervenções, fiquei impressionado com o espírito de grupo que quem não bloga pôde constatar entre nós. E isso ainda foi mais evidente ao longo do dia, enquanto convivíamos.

Blogar é uma actividade da qual se pode dizer que "não são só flores", como o Zé Mário frisou com exemplos com que todos nos confrontamos. Mas tem inegáveis compensações para quem busca na blogosfera mais do que uma sede de projecção absurda (e na maioria dos casos sem pernas para andar, como a Catarina referiu) ou uma mera extensão da vaidade saloia que se exibe fora dela. Claro que um exemplo paradigmático de como se pode blogar em busca de maior visibilidade, mas com argumentos concretos e inquestionáveis, foi fornecido pelo Ricardo na primeira pessoa. A blogosfera pode efectivamente constituír um trampolim para os mais capazes de entre nós, os "sobredotados" da blogosfera que já o eram fora deste contexto. Mas só para estes (ou quase). E ainda bem.

A seriedade do que fazemos passa apenas pelo facto de darmos o nosso melhor por respeito a quem se dispõe a dar-nos atenção. Se optamos pelo tom intimista, como é o caso deste blogue, pelo tom divertido de pausa para o final de tarde (como a Gotinha assumiu relativamente ao seu blogue) ou pelo exercício da criatividade que caracteriza o blogue do João Pedro da Costa (que forneceu a uma assistência onde os blogueiros não estavam em maioria um verdadeiro "blogs for dummies"), essa escolha é irrelevante em face do que interessa: blogar por gosto, sem perder de vista a consideração que quem visita os nossos espaços merece.

A blogosfera é um espaço onde a liberdade é rainha e no qual se geram ligações fortes entre as pessoas. E estas duas realidades conjugadas inevitavelmente recordam-me o 25 de Abril. De resto, estranho seria que qualquer blogueiro ignorasse esta data.
Há pouco mais de três décadas, mesmo que existisse, a blogosfera não aconteceria em Portugal. Nem o ajuntamento de pessoas que a cidade de Beja acolheu. As conquistas de Abril fazem-se sentir das mais variadas formas. E uma das que mais se gravaram na minha memória dos dias da Revolução é precisamente a alegria e a vontade de fazer coisas, de reunir as pessoas em torno de projectos que funcionam como condutas para a Cultura fluir. De fazer o que antes o fascismo condenava e proibia.
Essa foi a imagem que a iniciativa da Biblioteca Municipal de Beja, à qual exprimo a minha mais sincera gratidão pelo convite que me endereçou, me transmitiu. Mostraram-me o rosto da liberdade numa das suas mais belas expressões.
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publicado por shark às 19:46 | linque da posta | sou todo ouvidos