A POSTA QUE SEI

Admiro, e muito, as pessoas capazes de conseguirem ser porreiras a todo o tempo, imunes às agressões que as restantes (a maioria, a meu ver) lhes impõem com a sua falta de consideração sistemática perante quem prefere mostrar-lhes um sorriso pepsodent a arreganhar-lhes a dentuça.
Quero com isto assumir que não sou uma dessas pessoas que tanto admiro, serenas, bem dispostas, sólidas o bastante para não vacilarem na sua bonomia. São preciosidades nesta sociedade sem respeito pelos seus melhores.
E eu, repito, não me incluo nesse lote restrito e muito gostaria.

Vale-me nesta questão apenas a dita admiração que me leva a rejeitar o abuso, pelo menos no plano das minhas boas intenções, da boa-vontade alheia.
Todavia, e porque tendo a procurar uma postura mais próxima daqueles que admiro, acabo com frequência em posição similar e à mercê de quem confunde gajos porreiros com lorpas. E essa é uma das afrontas que mais reacções hostis me suscitam e mais me desviam de um ideal de "boa pessoa" que jamais poderei abraçar.

A linha ténue onde equilibro a minha vontade de ser um tipo baril e o meu impulso desaustinado para reagir à bruta é em boa medida traçada pelo cruzamento do meu caminho com o dos que não interpretam uma atitude afável senão como um indicador de flexibilidade que confundem de imediato com um sinal de fraqueza.
Quanto mais me exponho no esforço por conceder espaço de manobra ao gajo bacano mais desgostos e desatinos acabo por enfrentar. E assim me revelo instável, com as inexoráveis consequências a que ninguém poupa os indivíduos incoerentes nas intenções versus actuações.

É o meu mais óbvio calcanhar de Aquiles e a vida ensinou-me, em mais de uma ocasião, o custo dessa debilidade no meu grau de adaptação social, de integração em qualquer grupo ou meio onde a frontalidade seja um pecado, uma excentricidade arrogante, e a volatilidade constitua sinónimo de pouca fiabilidade e, consequentemente, motivo de sobra para a perda de confiança.
São armadilhas que um carácter pode produzir e nada nos resta senão aprender a conviver com elas, pois não conseguimos de todo vencê-las.

De pouco me vale apregoar a vontade de ser uma pessoa de bem, sustentada essa noção pela honestidade, pela incorruptibilidade, por uma vida inteira sem prejudicar alguém de forma intencional ou deliberada. Tudo isto mais uma carrada de boas acções, de gestos meritórios, de motivos de orgulho para mim e para os poucos que me acompanham e me acreditam, tudo isso sucumbe à minha incapacidade para cruzar os braços quando me lixam ou a alguém que me seja próximo.
Aí, perco por completo a vontade de ser fiel a uma imagem que prefiro de mim próprio e assumo-me tão deplorável ou ainda pior do que aqueles que me antagonizam. Porque não tolero ataques injustificados, animosidade gratuita ou meros abusos de confiança.

E é destes últimos que trata esta posta. Ou melhor, são o que a motiva.
Um blogue, como já por diversas vezes referi, serve na perfeição como um mecanismo de terapia, um saco de pancada virtual que permite desabafar e, eventualmente, atenuar a (des)proporção das reacções que dão na gana de uma pessoa.
Tenho em mãos algumas situações desta natureza.

E espero que esta posta, como outros recursos, me ajude a encontrar a paciência que há muito esgotei para as enfrentar sem fazer das minhas.
publicado por shark às 09:52 | linque da posta | sou todo ouvidos