DA OPÇÃO INTIMISTA

Um dos maiores desafios com que me deparo de cada vez que faço uma posta é o da pertinência. Não me basta escrever o que me apetece, não porque me sinta privado da liberdade de o fazer mas porque tento sempre pôr-me na vossa pele.
E sinto-me na obrigação de buscar algo que soe de alguma forma interessante ou possa constituir um argumento para justificar o tempo que me oferecem em troca dos retalhos de homem que vos dou assim.

Não me interpretem mal, não abdico da liberdade criativa ou mesmo do direito a impôr-vos uma seca de vez em quando (voilá!). Faz parte das regras deste jogo no qual desempenhamos diferentes papéis.
Eu disputo a vossa atenção para o que sou capaz de mostrar e vocês confirmam se o consegui, com os vossos comentários ou apenas com a visita registada nos contadores.

Não escrevo para mim, embora não me imagine sem o fazer. Escrevo porque preciso, porque adoro. E só faz sentido fazê-lo porque existe com quem o partilhar.
É neste equilíbrio entre a minha necessidade de exibir o que faço e a de justificar a vossa visita que gira o meu estilo blogueiro.
O que disse até agora explica-vos porque reparo tanto no que comentam e na evolução da estatística que me confirma se vos agrada a forma como me dou.
E explica também porque opto tantas vezes pelo strip de mim mesmo, um risco aparentemente idiota que acarreta dissabores e más interpretações. Uma opção que fragiliza a imagem de quem a expõe, tanto no assumir das fraquezas que nos fazem menores como no dos aspectos que nos possam "engrandecer".
Aos olhos implacáveis de quem se está nas tintas somos apenas fracos ou vaidosos, débeis ou arrogantes, incultos ou fanfarrões.

Todavia, tudo isso faz parte do preço a pagar por quem se predispõe a blogar sem rede.
É como balouçar num trapézio, blogar sem um tema concreto no qual possamos evidenciar o nosso domínio e brilhar à luz da especialidade que nos distingue, ou sem o refúgio da paródia que nos preserva e evidencia o lado simpático, ou ainda sem o recurso a um estilo rígido e imutável que nos defende à priori mas cedo ou tarde acaba por entediar em definitivo quem nos lê.

Por isso não prevalecem nos topes que todos desdenham os blogues pessoais, intimistas, onde o culto da personalidade se sobrepõe a tudo o resto e abafa de tédio os umbigos de fora.
É esse o risco maior e mais difícil de gerir quando queremos em simultâneo cativar quem nos aprecia, oferecendo-nos em demasia, e escapar ao umbiguismo doentio.
Por isso me esforço por diversificar o registo, alternar a temática e ser tão versátil aqui como tento ser lá fora.

Quero, exijo, fazer diferente. Rejeito o recurso à decalcomania da poesia dos outros (que fica sempre tão bem e dá pala), à preguiça audiovisual do You Tube, à dissertação estafada acerca dos clássicos sempre na moda onde não me acredito capaz de inovar.
Evito a política, onde outros já cumprem a função com mestria, a literatura pela mesma razão, e fujo dos temas onde dou ou dei provas no mundo analógico e nada mais tenho a provar.

E depois confronto-me com o desafio que enunciei na abertura deste lençol, limitado à partida pelas opções (exclusões) que me imponho para justificar o meu lugar nesta comunidade exigente que não perdoa falhas, não tolera baldas e rejeita, rigorosa, as fases de menor inspiração. Um público maioritariamente constituído por colegas e que não hesita desertar de todos os espaços caídos na desgraça da vulgarização.
É essa a verdade nua e crua reflectida nos nossos contadores.

É esse o camartelo que finto como posso, em ziguezagues sucessivos que visam tornar-me uma vossa companhia indispensável, habitual. Sois rainhas e reis das minhas decisões blogueiras, pois sem a vossa anuência (o privilégio da vossa presença) não faria sentido para mim investir tanto numa "linha editorial" que vos "obrigue" a voltarem amanhã para verem o que inventei dessa vez para não vos desiludir e não acabar por sucumbir perdido no meio da imensa e crescente multidão.

Isso constituiria inevitavelmente o golpe de misericórdia na minha motivação de bobo da corte anónimo, zé-ninguém sem projecção mediática ou estatuto social ou qualquer outra coisa que me distinga senão esta paixão pelo acto de comunicar.
Sem margem de manobra para sonhar milagres ou alimentar quaisquer ilusões associadas à minha intervenção neste insano mundo virtual que, porém, alberga também pessoas de excepção.

Resta-me e basta-me a constatação dos factos que são os números que me provam acertado no caminho que trilhei até aqui. Capaz de cativar dezenas de pessoas todos os dias em torno daquilo que faço por gosto mas não desresponsabilizo na obrigação (de fazer sempre o melhor que posso e que sei).

Se insisto em justificar-me ciclicamente perante vós é porque preciso de apresentar-me justificações também. E porque acredito que posso influenciar os que aterrem entretanto, à toa como eu quando me meti nesta aventura onde escasseiam de facto as compensações e sobram os desgostos que nos damos sempre que nos confrontamos com os desgostos que os outros nos dão em troca da nossa azelhice, da nossa palermice ou apenas de meia-dúzia de momentos menos bons ou de más interpretações do que afirmamos.

E esse é sem dúvida o preço mais alto a pagar quando a barra do trapézio nos escapa por entre as mãos.
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publicado por shark às 09:32 | linque da posta | sou todo ouvidos