A POSTA FICCIONADA

Tinha cerca de vinte anos quando a conheci. Por mero acaso, na sequência de conversas cruzadas à mesa de um bar. O que dizia prendeu-me a atenção. Mais o fogo no seu olhar. Destoava em absoluto do grupo de betos que a rodeavam e isso tornou-se mais evidente à medida em que o nosso diálogo a dois evoluía. Quando ninguém reparava, sugeri-lhe que fossemos ao balcão buscar mais cervejas e ela anuiu.
Uma hora depois ainda lá estávamos, conversa puxa conversa. Falámos de política no âmbito estudantil, da Revolução e até de futebol. Acabámos a falar do amor.

O cabelo, muito comprido, parecia talhado para adornar aquele rosto (dos mais bonitos que algum dia conheci). E eu bebia-lhe as palavras, encantado, cheio de paciência pela oportunidade ideal. Um olhar de tristeza que ela lançou ao seu grupo, que se preparava para debandar, foi o sinal que o destino me deu.
- Tens horas para chegar a casa?
Disse-me que não, com uma expressão de curiosidade.
- Diz-lhes que na nossa conversa descobriste que joguei à bola com um primo teu e que me ofereci para te levar a casa, mais logo.
E ela, atordoada, assim fez.

Entrámos para o carro dez minutos depois. Revelei-lhe a minha vontade de prolongar a conversa por mais algum tempo, incapaz de a imaginar longe de mim, um clique por dentro que me anunciou o nascimento de uma paixão. E ela, receosa mas irreverente, sorriu. Quem cala consente. Liguei o motor.
Olhou-me nos olhos, perplexa, quando parei junto à fronteira com Espanha. Vamos? Tu és doido! Pois sou...
De vez em quando distraia-se da conversa, perguntava-me onde nos dirigíamos. E eu tranquilizava-a, afastava-lhe os medos com o mesmo carinho com que lhe afastava dos olhos o cabelo que os tapava. Ela acabaria por adormecer, algumas horas depois. E eu galguei quilómetros sem sono, inebriado pela visão do seu rosto que partilhava a custo com a autoestrada para Cadiz.

Acordou a bordo do ferry, a meio do Estreito, com Gibraltar pelas costas a desaparecer na bruma e o recorte das montanhas marroquinas a desenhar-se diante de nós. Ensonada, levou algum tempo a perceber e depois abriu a boca de pasmo. Mas tu és completamente maluco! Beijei-a pela primeira vez e percebi nesse instante que a história não acabava ali.


O sol brilhava em Tânger quando pisámos África pela primeira vez. Nos olhos dela, também. Deliciada com o que estava a acontecer. Sentíamo-nos tão próximos que mal conseguíamos afastar as nossas peles. Parávamos nos locais mais belos para matar as saudades dos beijos anteriores. Cada vez mais amantes, cada vez mais amor.
Quando a noite caiu convidei-a para partilhar comigo uma cama, num pequeno hotel à beira de um vale. E ela, rendida, aceitou.

Tremíamos ambos quando entrámos no quarto. De ansiedade e de emoção. E agora, perguntou. E agora fechas os olhos e embarcas para Plutão, foi o que lhe respondi, enquanto a puxava sem pressa para junto de mim.
Percorri-a enquanto ela deixou. Até não me aguentar mais por mais tempo fora de si. Descontrolada, como eu. Mais apaixonada a cada minuto que passava, comprimia-se contra mim como se quisesse entrar com a sua pele pela minha. E eu apertava-a em abraços que quase lhe tiravam a respiração, espalhava as mãos como um polvo pelo corpo magnífico daquela jovem mulher. Como se quisesse gravar-lhe em cada pedacinho uma marca da minha passagem, na vertigem de um permanente arrepio.
E ela depois, arrojada, a mimar-me. E os dois abraçados outra vez, como lapas, como um. Lacrados pela paixão que se gritou.

Tenho mais saudade ainda quando revivo cada uma das nossas carícias ou te recordo felina sobre mim. Mas é saudade feita da esperança que algures os teus olhos beijarão estas palavras. Saberás que não te esqueço desde então, todos os dias. A minha pele ainda é a tua.
publicado por shark às 03:51 | linque da posta | sou todo ouvidos