A POSTA NA FUTEBOSTA

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O cerne da questão nem está no futebol, mas podia. Também não está no vacilar do meu benfiquismo, nem eu o admitiria.
Mas está sem margem para dúvidas no estado deplorável da justiça portuguesa, não apenas na atitude de boa parte dos intérpretes daquilo a que chamamos Sistema Judicial mas no próprio conceito que o termo "justiça" implica.

Um futebolista brasileiro foi apanhado pela polícia a conduzir com uma taxa de alcoolemia quase três vezes superior ao limite que a Lei impõe. Poderia (deveria) ser inibido de conduzir durante seis meses e até arriscava uma pena de prisão.
Por ser quem é, e nenhuma outra razão o justifica, foi condenado a 40 horas (!) de serviço comunitário (a fazer de apanha-bolas num jogo da selecção nacional, ou assim...) e não lhe apreenderam a carta, tudo isto por sugestão de um delegado do Ministério Público (MP).

Já me insurgi contra o facto de se distinguirem os criminosos com base na sua raça ou nacionalidade. Fi-lo propositadamente mais acima para relevar o conceito díspar de justiça, por analogia com o tratamento que o MP daria, por exemplo, a um qualquer operário moldavo da construção civil apanhado nas mesmas condições do internacional benfiquista da selecção canarinha de futebol.
E não está em causa o "falso moralismo" que o treinador do Glorioso invocou na sua trôpega defesa do atleta prevaricador, pois sou daqueles que não podem mandar a primeira pedra nessa questão. Mas assumir as responsabilidades quando somos "caçados" só fica bem a qualquer um, sobretudo quando auferimos um ordenado milionário e temos que o justificar com um comportamento à altura desse benefício e que o estatuto de figura pública amplifica.

Este caso de excepção envergonha (mais uma vez) o tal Sistema Judicial no seu todo, pois é inevitável que aos olhos do cidadão comum esteja constituído um precedente que desculpabiliza todos quantos decidam fazer-se à estrada no mesmo estado de embriaguez do fulano em causa. E que esse precedente nasce apenas da fragilidade do sistema às mãos das pressões dos vários poderes que o instrumentalizam.

A impunidade deste (mau) exemplo mediático constitui, como o Dr. António Marinho em boa hora frisou perante as câmaras da SIC Notícias, um rude golpe em quaisquer campanhas de prevenção rodoviária ou nas veleidades bem intencionadas de moralizar a atitude dos condutores portugueses (ou estrangeiros...) perante a questão da bebida ao volante.

Fico a torcer para que o tal Luisão (que aos meus olhos não passa agora de um luisinho) não reincida dentro dos tais seis meses em que deveria ser obrigado a andar de táxi e que, se tal vier a acontecer, não mate ou estropie alguma vítima inocente desta bandalheira que o seu caso ilustra.

Mas temo que só dessa forma trágica os protagonistas desta vergonha tomem consciência do mal que fizeram e das consequências que, no futuro, qualquer familiar de uma das muitas vítimas dos Luisões das estradas portuguesas deverão, em última análise, imputar-lhes directamente.

E com toda a Justiça, tal como a maioria de nós a interpreta.
publicado por shark às 12:49 | linque da posta | sou todo ouvidos