A POSTA NO CONFLITO INTERNO

Reprimo muito daquilo com que o instinto me desassossega. Não porque lhe imponha algum tipo de castração de índole moral ou similar, mas porque o meu instinto não tem em conta os instintos e as sensibilidades das outras pessoas. É devasso, impulsivo, amoral. Está-se nas tintas para seja quem for ou seja o que for e eu obrigo-me a moderar-lhe o entusiasmo, dou-lhe com a consciência que me alerta para as repercussões do agir sem pensar.

A minha relação com o instinto é complicada. O seu espaço de manobra cinge-se à gestão do que há de intuitivo em mim, tudo o resto é filtrado. Condiciono a sua liberdade criativa, a sua natureza livre e selvagem, o seu ímpeto prafrentex que muitas vezes me trai. Por causa do impacto que os gestos instintivos podem ter sobre outras pessoas, cada uma a braços com o seu próprio modelo comportamental, com os seus medos, os seus preconceitos, as suas emoções.

E às vezes dá-me pena, contrariar o que o instinto me aconselha e refrear a sua tendência galopante. Dá-me pena abrandar e ver a vida a passar ao lado de tantas situações que lhe nego, que me nego para poder afirmar o poder da razão sobre o do coração (que o mapa figurado das emoções associa ao instinto que traio com as minhas negações à sua corrida destravada).

Por outro lado, por vezes fico cansado com as mazelas que resultam do livre arbítrio que aqui ou além concedo ao apelo desesperado do instinto que me grita "vive até às últimas consequências, sê egoísta porque um destes dias vais morrer ou simplesmente não vais poder embarcar nas minhas euforias e ninguém te irá oferecer um troféu pela tua prudência, pela tua moderação ou mesmo pela consideração pelos outros que os teus recuos representem".

E nestes considerandos se escoam parte das oportunidades que o instinto me diz aproveita e a minha consciência rejeita sem que isso me dê qualquer garantia de me fazer sentir mais feliz.

Eu e o meu instinto temos que ter uma conversa, um destes dias...
publicado por shark às 18:35 | linque da posta | sou todo ouvidos