PONTO DE PARTIDA

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Foto: Shark

A chuva a cair diante dos seus olhos e por entre o espaço livre criado pelo colarinho afastado da nuca exposta à água e ao frio.
E ele encostado à parede, à espera de algo ou de alguém, calado na boca e vidrado na expressão.
Muita gente a passar dos dois lados da rua que ele não pretendia cruzar, à espera daquilo que queria ou talvez do que preferiria nunca encontrar.
Com a ausência estampada no vazio de um olhar.

Fora de si, encharcado pelo temporal, tempo esbanjado na espera de um milagre ou de uma simples solução para um problema qualquer.
Talvez o amor de uma mulher ou a sua falta, o peso nos ombros que o vergava o bastante para criar o espaço livre onde a chuva entrava agora, inclemente, e ele ausente em paragem incerta dentro de si.
Calhou parar ali quando a tempestade se abateu sobre a cidade onde viveu uma vida inteira sem imaginar um dia assim.
Olhar perdido num horizonte sem fim.

Longe do espaço que o seu corpo ocupava agora por mera coincidência naquele local de passagem da sua viagem pela vida, a consciência que o atormentava por alguma razão.
Um homem sozinho poisado no chão, o corpo gelado pela hipotermia da mente que vagueava pelo frio noutro sítio qualquer.
Talvez a loucura por uma mulher que o deixava à espera sem uma justificação, a chuva insidiosa na pausa ansiosa para respirar o mesmo ar de todas aquelas pessoas que passavam alheias à sua prisão.
E ele a olhar cativo para dentro da sua cabeça, fora dali, sem conseguir agarrar o momento ideal de partir no sentido contrário.

Figura de dromedário amarrado a um coqueiro com o focinho gretado pela penitência do sol abrasador, prisioneiro da sede do amor, apenas e só.

E a chuva nas pestanas, como duas persianas cobertas das lágrimas que não conseguia verter e o céu, piedoso, lhe forneceu para disfarçar aquela ausência no seu olhar.

Perdido, num tempo esquecido, no preciso instante em que optou por zarpar.
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publicado por shark às 11:17 | linque da posta | sou todo ouvidos