A POSTA NO SEXO DOS ANJOS

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Foto: Shark

Depois da morte mediatizada de duas modelo brasileiras por anorexia, a televisão portuguesa descobriu o fenómeno dos blogues que divulgam e fomentam essa prática imbecil e doentia.
Ocorre-me de imediato a questão que se deverá colocar a quem detém o poder na nossa sociedade tão livre: atacar estas expressões de abuso da liberdade de expressão ou confiar no bom senso que qualquer liberdade não dispensa?

Ninguém no mundo despreza mais os pedófilos do que eu. Contudo, nunca subscreverei o encerramento de um blogue que promova a pedofilia. Soa estranho? Talvez, mas o meu primeiro instinto acode em defesa do princípio sagrado da livre expressão. Mesmo que a essa liberdade corresponda o livre arbítrio dos muitos suínos que a nossa sociedade alberga.

A privação da liberdade, o precedente que isso constitui, é uma ameaça que não posso tolerar. Por isso entendo que o Estado exija, por exemplo, o fim do anonimato para quem pretenda fazer a apologia de causas unanimemente reconhecidas como perigosas, abjectas ou de alguma forma reprováveis. Dessa forma, quem exige a liberdade tem que provar merecê-la e assumir as consequências públicas, sociais, da sua afirmação pessoal.
Não é ao Estado que compete evitar que as pessoas enveredem por caminhos foleiros, desde que essas pessoas se limitem a divulgar as suas ideias ou propósitos. Fia mais fino quando, por exemplo no caso da pedofilia, os crápulas recorram aos meios ao seu alcance para aliciarem de forma directa (via email ou outras) os incautos ou demasiado jovens para toparem o redil.

Mas eu estou a falar da existência de um blogue, pelo qual homens como o nosso colega egípcio Alaa e outros em países e com pretextos similares pagam o preço que a sua luta pela livre expressão acarreta.
Proibir, como a História comprova, apenas torna clandestino o alvo da proibição. E a clandestinidade não diminui o perigo em questão, apenas o torna mais apelativo e difícil de localizar.

A liberdade, como tudo o resto, precisa de regras. Como a que citei (do fim do anonimato) ou outras que obriguem os que abraçam causas marginais a assumi-las. Se estiverem correctos, o Estado não tinha nada que meter o bedelho à partida. Se por outro lado as causas forem ignóbeis, os seus defensores enfrentarão no seu quotidiano a reprovação generalizada e outras consequências da sua posição menos correcta.

Acredito que não existem e nunca existirão soluções ideais para garantir a ausência de abusos por parte de quem se serve da liberdade como mais um instrumento para conspurcar o mundo. Mas defendo que a privação da liberdade de expressão jamais constituirá uma alternativa para eliminar esses abusos.
No caso com que abri esta posta, a dos idiotas que fazem a apologia de um disparate, é óbvio que o risco de vida implícito para muitos/as adolescentes recomenda uma actuação qualquer.
Mas que nem ocorra aos totós que têm a faca e o queijo na mão embarcarem na facilidade mediática do fecho dos blogues em causa. Exijam a divulgação pública da identidade dos/as autores/as e deixem que os cidadãos tratem do resto.

A única ameaça que a blogosfera pode constituir, como a vida lá fora, é a dos lobos com pele de ovelha.
Dispam-lhes a pele e logo veremos quantos possuem a coragem necessária para insistirem na defesa e na divulgação de causas sem nexo.

E sem defesa possível.
publicado por shark às 15:40 | linque da posta | sou todo ouvidos