A POSTA QUE A CULPA É DOS OUTROS

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Preparava-me para almoçar, no restaurante do costume, quando o bacano começou a elevar o tom de voz duas mesas à minha esquerda.
Fazia parte de um grupo de oito pessoas e berrava indignado:

- Mas há alguém aqui que não faça o mesmo que eu, algum de vocês pode afirmar que nunca fugiu aos impostos? Deixem-se de merdas, faço-o eu como faz toda a gente!

Nenhum dos restantes o desmentiu.
E eu até rangi os dentes com a gana que me deu de entrar na conversa à bruta. Não sou um menino de coro em muitas matérias, mas respondo pelo meu comportamento nas questões fiscais. Não, nunca fugi aos impostos e sim, estou-me nas tintas para os maus exemplos que os outros possam dar nesse domínio.

Farto-me de afirmar que adoro pagar impostos. Quem me dera, aliás, pagar muito mais. E nunca arranjei esquemas para me furtar a esse compromisso, nem permiti a qualquer contabilista que o fizesse por mim para me tranquilizar a consciência.
Esta mentalidadezinha de treta que arrasta provavelmente a maioria dos portugueses para jogadas que fintam os cofres do Estado das mais engenhosas ou descaradas maneiras é uma das explicações para vermos o resto da União Europeia a distanciar-se de nós na pirisga.

Isto não é moralismo da tanga. O bacano estava a gabar-se por conseguir enganar o fisco. A gabar-se, como se isso constituísse um indicador da sua brilhante inteligência. Poucos dias antes apontava o dedo ao Sistema Nacional de Saúde, que utiliza sem hesitar e que sobrevive à custa dos impostos que chicos-espertos como ele se gabam de evitar.
Provavelmente trata-se de um dos patriotas de pacotilha que forraram a varanda com bandeiras nacionais quando a moda pegou.
Este “orgulho” parolo dos habilidosos que defraudam o Estado de toda a maneira e feitio é um cancro da sociedade que estamos a construir, não há volta a dar à falta de ética implícita nestas manobras de diversão por parte de quem na prática se recusa a custear os serviços que utiliza e defende como direito inalienável.

Fujo a este tipo de conversas com pessoas que me sejam próximas. Porque me enojam estas atitudes e porque fico entalado entre o conhecimento factual de uma ilegalidade e o facto de não me predispor a ser o “chibo” que mete a boca no trombone.
Conheço um que viveu mais de dois anos à conta da Segurança Social, numa baixa fraudulenta, enquanto acumulava riqueza num esquema de economia paralela a fazer o mesmo que a saúde não lhe permitia fazer ao serviço do patrão, há mais de dez anos atrás.
Conheço dois que depois dos cinquenta anos de idade conseguiram um “tacho” na Função Pública apenas com o fito de mamarem uma reforma à conta. Nunca se safariam através das vias normais, caso se candidatassem aos cargos que ocupam.
Conheço um que utilizava a viatura de serviço de uma empresa pública para durante o horário de trabalho exercer uma actividade comercial bastante lucrativa e que lhe garantiu um nível de vida bem acima daquele que o seu imerecido salário permitiria. Agora ainda tem a lata de receber uma reforma mensal.
Conheço outro que pagava o seguro contra todos de um carro bem melhor do que o meu endossando-me cheques do então denominado Rendimento Mínimo Garantido.

São apenas quatro exemplos, dos muitos que coleccionei ao longo de uma vida a assistir à forma mesquinha como milhares de portugueses traem o seu país, sonsos de merda que têm a lata de se considerarem honestos apenas porque “toda a gente o faz”. Como os ratos de Hamelin, seguem o trilho uns dos outros e em vez de exigirem aos políticos e aos governantes que apliquem bem o dinheiro dos impostos servem-se deles como maus exemplos a seguir. “Ah, isto é tudo a comer e tal…”
E assim tranquilizam as consciências.

Deviam ter vergonha, estes parasitas da sociedade.

São estes cidadãos comuns tão “exemplares” e “decentes”, estes pequenos bandalhos que transformam o meu país numa realidade onde cada vez mais hesito ser boa ideia criar a minha filha.
publicado por shark às 10:39 | linque da posta | sou todo ouvidos