RESERVA MORAL

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Era bonita, inteligente e sensual. Uma combinação irresistível. Apaixonei-me e consegui conquistá-la. Foi uma surpresa para todos quantos nos conheciam.
Eu, estarola, andava numa fase destravada e a sorte sorria-me nos assuntos do amor, ninguém me agarrava. Ela, católica devota e virgem até às orelhas, reprimia as tentações da carne com uma tenacidade ímpar. Uma combinação impossível. Mas aconteceu, num serão em que lhe pedi licença para a beijar nos lábios e ela deixou. Depois de tal intimidade, nem se punha a hipótese de não lhe propor namoro. E eu, claro, propus.

Alguns meses mais tarde, era notório o desgaste da nossa relação amorosa. Ela sonhava-se virgem até ao casamento e eu não fazia tenção de casar nas décadas mais próximas. O conflito de interesses nessa matéria começou a gerar algum desconforto e eu gostava demasiado dela para a encurralar. Ou a seduzia o bastante para a fazer abdicar dos princípios que defendia, mandando às urtigas o voto de castidade, ou tinha que acabar com a relação antes que se tornasse inevitável ir em busca de alternativas pela surra. Mas era de uma amiga que se tratava, a primeira hipótese não se colocava.

Foi um momento complicado para ambos, como sempre acontece na sequência do final prematuro de qualquer história de amor.
Eu sentia-me desiludido e frustrado. Dois meses depois ainda não conseguira ultrapassar a situação e permanecia-lhe "fiel", apesar de livre como um passarinho. Acabei por voltar à carga, embrulhámo-nos durante umas horas e quando já a tinha seminua sobre uma cama a consciência traiu-me. Perguntei-lhe olhos nos olhos se tinha noção do que estava prestes a fazer e se avaliara bem as respectivas consequências, considerando que a minha paixão por ela não bastava para desistir dos meus ideais (tal como não queria destruir os dela). Disse-me que não. E eu abracei-a, acariciei-lhe o cabelo durante um bom bocado, conversámos um pouco e depois saí.

Quinze dias depois, nem mais um, encontrei a irmã dela. Perguntei-lhe como estava a mana e ela esclareceu-me, indignada.
Andava metida com um crápula, um gajo sem eira nem beira que, entre outras reviravoltas no destino, a possuiu.
Aquilo que negara meses a fio a um homem que a mimava entregaria de bandeja, em duas semanas, a um sabujo mau como as cobras...
Duraria mais um mês, essa relação com contornos bastante desagradáveis que envolveram a família da moça e lhe arruinaram a reputação ao ponto de ela ir viver para outra cidade, incapaz de lidar com a pressão.
Ainda hoje não sei o que me doeu mais em toda esta cena. Gosto de acreditar, em nome do romance, que doeu mais o dano irreversível que o nosso futuro a dois sofreu. Contudo, e vendo as coisas a frio, soa-me legítimo assumir que também fiquei com uma grande tola e ferido no meu orgulho machão.

Desde esse episódio ganhei a certeza de que nunca entenderei o complicado processo de raciocínio das mulheres. Mas apesar de escaldado neste exemplo concreto que convosco partilho, sei que se a vida me confrontar com um dilema idêntico reagirei da mesmíssima maneira. E isso não faz sentido algum, pelo que também me vejo forçado a reconhecer que posso ser um tipo porreiro mas parte dessa boa onda pode residir no facto de eu ser afinal um ganda otário, considerando o desfecho desta situação. Tranquilo na consciência, mas sem explicação plausível para esta estranha tendência para o papel mais absurdo que um homem pode vestir na qualidade de amante potencial.
Lembram-se da figura do batedor? Aqueles índios renegados que se alistavam no exército americano, farejavam as pistas, descobriam o melhor caminho, garantiam a segurança dos brancos e depois afastavam-se para um canto e ficavam a assistir às gloriosas conquistas e vitórias dos canalhas mais espertos e menos escrupulosos que acabavam por os lixar no fim?
Eu explico-vos daqui a um bocado, assim que a fogueira estiver no ponto para vos enviar os sinais de fumo...
publicado por shark às 16:21 | linque da posta | sou todo ouvidos