O CONTO DE REIS - Uma Novela no Espírito do Quadro (Cap III)

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JC não estranhou quando Nicolau pousou sobre a mesa as cuba livres, que declinou com cortesia. “Já sabes que eu só bebo tinto, é a tradição desde a última jantarada…”

- Ah pois, com os “apóstrofos”! Mas não faz mal, tenho ali um alentejano de 97 que é de estalo. E na adega há mais (o de 2004 é ganda malha)!

Os olhos de Nicolau brilhavam com o reflexo das luzinhas da árvore enquanto pensava nas “pomadas” que reunira ao longo de muitos anos de distribuição de encomendas natalícias. As gorjetas não pagavam impostos e isso em muito contribuía para a paz financeira que Natália tudo faria para preservar.

- Vê lá mas é se te emborrachas outra vez este ano, Nicolau… Lá por agora não conduzires, isso não faz com que possas esticar-te na bebida.

Ela recordava-se do último pifo, dois Natais antes, quando finalmente lhe haviam apreendido a carta de trenó em definitivo. Para não o embaraçarem, e por respeito a tantos anos de dedicação, haviam fingido que o médico da Direcção Geral de Aviação não lhe renovara a carta.
Mas ainda assim, Natália receava a mistura com a medicação (pela surra, costumava desfazer comprimidos azuis – só um nadinha – no meio da sopa).

- Pois é, cá estamos outra vez… - JC estremeceu quando a matrona voltou a abrir a matraca. Vinha lá sarilho pela certa…
E assim se confirmou.

- Então, JC, o Zé já se conformou com aquela questão… hummm… da paternidade duvidosa?

Era um assunto muito sensível para o bebé nas palhinhas sentado e ela bem o sabia.
Ficou com um chorrilho de palavrões, pecado sem perdão, mesmo à porta da boquinha infantil.
Os sininhos da porta salvaram a situação por um triz.

Nicolau, já meio tocado, abriu a porta e abraçou com intensidade o recém-chegado como se entre ambos existisse alguma espécie de proximidade.

- Porra, pá, que me parte as (cos)telas!

Era o Espírito do Quadro, um pintor frustrado que só servia para justificar o subtítulo de uma posta marada e para ver se surgia um final qualquer prá coisa antes de o Natal acabar.
Divorciado da esposa, uma amiga íntima de Nicolau na sua fase jovem e irreverente, vivia da venda de bustos para enfeitar o Natal dos hipócritas e de, como o nome indica, quadros nos quais retratava espíritos do Natal Passado e outros fósseis que o consumismo desenfreado enterrara de vez.

Natália até se benzeu, para gáudio do menino que decantava o Herdade Grande com a mestria de um escanção.
Nunca esquecera os rumores da ligação entre o seu Nicolau e a flauzina da Quadra (que agora deixara cair o apelido do ex).
Dali só podia vir bronca.

Contudo, o artista surpreenderia todos com a sua intervenção.

- Desculpem incomodar, espero não ter interrompido nada…

JC contorceu a boquinha num esgar de anuência, perante o olhar severo de Natália. Nicolau, bochechas rosadas, sorria com um ar imbecil e olhava para o Espírito do Quadro como se de um filho se tratasse.

- Venho cá para vos contagiar com a paz e a harmonia que a Quadra (não tou a falar da minha ex, claro) deve a todos inspirar!

O trio nem tugiu nem mugiu, enquanto aguardava a sequência do surpreendente intróito.
publicado por shark às 16:36 | linque da posta | sou todo ouvidos