O HOMEM QUE SÓ VI UMA VEZ

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O meu avô, como tantos homens da sua geração, constituiu duas famílias. Uma legal, institucionalizada. A outra não.
Tinha mulher e um filho quando, a centenas de quilómetros, conheceu a que viria a tornar-se na minha avó. Apaixonou-se perdidamente. Muito se esforçou para lhe arrancar um beijo, mas depois de o conseguir as coisas complicaram-se e muito. O primeiro filho ilegítimo surgiria e outros dois se seguiriam.
Os anos passaram e o meu avô não reunia coragem para tomar uma decisão. Acabaria por tomá-la, optando por se pirar para África, de onde regressaria, depois de amealhar e de estoirar uma apreciável fortuna em extravagâncias, à primeira família que deixara vários anos antes. Para trás, na capital, deixou uma mulher solteira com três bastardos nos braços para criar.

Só conheci o meu avô na adolescência. Recusei-me a dirigir-lhe a palavra durante algum tempo, pelo desprezo que sempre lhe dedicara pela sua deserção. Mas acabámos por trocar algumas palavras, que ele forçou e eu percebi porquê quando o vi morrer pouco depois. Ele já sabia e por isso regressara. Para aplicar a única justiça que o destino lhe permitia no escasso tempo que lhe restava nessa altura, para dar o nome aos filhos que abandonou. E eles aceitaram, para se livrarem do estigma do filho de pai incógnito que os feria no orgulho como uma maldição. Reconciliaram-se. Faltava eu, o neto rebelde que lhe rejeitou sem apelo a oferta de mais um apelido. E ele deitou-se à tarefa, conversou comigo e ofereceu-me as explicações que exigi. Falou-me de amores que cegam, de deveres que condicionam. Assumiu perante mim o arrependimento possível mas fez o que pôde para me tornar explícitas as suas razões.
Depois afastou-se outra vez e não voltaria a vê-lo até ao seu fim, dois ou três meses depois.

O que me fez acreditar na sinceridade daquele ancião foi a chispa no olhar, sempre que falava da minha avó e do amor proibido que ambos viveram enquanto durou. Percebi nesse instante que era mesmo de amor que se tratava, uma paixão impossível de reprimir que o enlouqueceu. Jogava certo com a versão da minha avó, que nunca se mostrou arrependida de se entregar ao homem mais incrível que afirmava ter conhecido, mesmo tendo em conta aquilo porque passou. Nunca deixaram de se amar. Juntando a versão dos dois, serena e conciliatória, tudo mudou de figura.
E quando, por uma vez, o meu avô viu reunidos os filhos e os netos que deixava para o perpetuarem, vi no seu sorriso que, tal como eu e toda a família, também ele à sua maneira conseguiu encontrar uma forma de perdão para si próprio no saldo final daquela salganhada.

Continua difícil de entender o seu acto de aparente cobardia, à luz de diversas exibições de coragem que protagonizou ao longo da vida e me foram relatadas. Mas o tempo ensinou-me a entender-lhe a força das emoções que o guiaram por uma vida tão irregular. Movia-o a paixão arrebatada, a reacção impulsiva e pouco reflectida que, diz quem melhor o conheceu, herdei de entre muitos traços da personalidade mais a expressão do olhar daquele homem que vi apenas uma vez.
publicado por shark às 16:19 | linque da posta | sou todo ouvidos