TRUE COLORS

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Foto: Shark

Tenho medo que as palavras acabem. Por isso as falo e as escrevo enquanto duram, as palavras que ainda são minhas mas podem um dia acabar com esta relação como acontece em qualquer grande amor (é disso que se trata, afinal).
Por isso as falo e as escrevo. Quantas vezes demais.

As palavras, enquanto duram, podem trair. No amor também pode acontecer a traição. Mas as palavras, que são mesmo minhas, merecem que nelas deposite inteira confiança. Até porque esse é um dos valores sagrados na amizade. Como no amor.

Falo da confiança que as palavras traem, sempre que me denunciam como um homem com fraquezas que outros conseguem esconder. Porque não as falam, não as escrevem, não lhes entregam de forma honesta a integridade das suas emoções, boas ou más. Se calhar não as amam como eu, mantêm uma relação prudente, sempre com um pé atrás, para evitarem o percalço de uma inconfidência que desvende mistérios que pretendem esconder.
Preferem não as falar ou escrever, abdicam dos momentos de paixão nas camas que façam para nelas não terem que se deitar depois. Sem mais palavras para dizer, silenciadas pela vergonha, censuradas pelo medo de falarem demais.
Preferem um silêncio (que nem parece) comprometedor.

Eu exponho-me ao mal que as palavras podem fazer quando a elas nos entregamos. Deixo-as viver à sua maneira, livres para cumprirem a sua função.
Enquanto duram, as minhas (que o são). E o seu único sentido não é o proibido que as cala mas o obrigatório que as justifica enquanto palavras para dizer. Mesmo que se possam virar contra nós, estupidamente sinceras na euforia da libertação que constitui a verdadeira razão para a sua existência.
As palavras são felizes na liberdade que só a verdade lhes oferece e definham no degredo das omissões.

Por isso as prefiro todas escritas ou faladas.
Tenho medo que acabem caladas.
Como acabam tantas paixões.
publicado por shark às 02:29 | linque da posta | sou todo ouvidos