GRÃO A GRÃO

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Foto: Shark


Onde acabam aquelas estradas, autênticos caminhos de cabras que pisamos no ponto de intersecção?
Porque nos coloca num cruzamento, indecisão, o capricho do acaso que nos transforma em marionetas?
E restam poucas escolhas certas relativamente ao melhor rumo a tomar.

E a vida, caprichosa, gosta muito de brincar. Connosco, gente que sente vontade de gerir o seu destino e afinal é um desatino dar de trombas a toda a hora com as escolhas mal feitas originadas pela imprecisão dos mecanismos ao nosso dispor.
Cegamos pelo amor e por outras coisas também. Tentamos ser perfeitos e descobrimo-nos filhos da mãe, apanhados em contra-pé pelo exagero das expectativas criadas.

As vidas desperdiçadas na deambulação, o sentido de orientação inexistente. Acabamos perdidos no meio de tanta gente, confinados ao percurso aleatório de um rebanho qualquer. Ninguém nos diz o que fazer no severo manual da sobrevivência social, apenas ensinam a decifrar o capítulo das exclusões. Ter consciência das vedações instaladas na pastagem, rasgada a paisagem pelo arame farpado proibicionista.

Um espaço limitado pela gestão equilibrista num ponto qualquer da pirâmide em que nos posicionamos, hierarquia, por aquilo que nos acham ou pelo talento para nos sabermos vender. A imagem. E o poder. O dinheiro que nos compra um espacinho maior, estatuto, mais acima de alguém. A corrida desenfreada da felicidade desbaratada no imobiliário das influências, o topo das preferências ambicionado por igual.

O que temos, o que somos. O que seremos e o que no balanço ficará por fazer. Esquecemo-nos de dizer às pessoas que as amamos enquanto desertamos no meio da fuga em frente aos medos que nos incutiram tempos atrás. Passa palavra, sexo é pecado, estar bem instalado num tacho que nada fazemos por merecer. Sempre a aprender as regras do jogo que só muda no tom.
As mesmas premissas idiotas, as festas janotas para disfarçar a tristeza e substituir a franqueza com que poderíamos desabafar as nossas preocupações.

Ocultamos as limitações que fragilizam perante as ameaças do exterior. Maquilhamos o valor para que nos aceitem tal e qual a sua própria pintura, inflados como balões, sobreavaliados. E afinal desesperados, a maioria, por nos vermos apanhados pela correria global. Incapazes de combater o sistema que nos trai, drenada a energia da única fonte de alimentação interior.

A falta de amor e da amizade também.
Uns filhos da mãe, presumidos inocentes.

Mas sempre conscientes do erro colossal.
O tempo na ampulheta, é mais do que certo, nesta estúpida travessia do deserto num imenso areal, vai escoar-se de repente.
Só aí nos arrependemos.

Quando nos escapa por entre os dedos da mão aquele que percebemos ser o último grão.
publicado por shark às 15:51 | linque da posta | sou todo ouvidos