A POSTA QUE É CLARO QUE FICO CHATEADO

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Desde pequeno dou atenção à publicidade e parece-me que não sou o único, a avaliar pela forma como alguns anúncios se agarram às tolas da malta durante décadas.
Estou a exagerar? “Dundum é o fim!” (Digam lá se não se lembram da música associada?). “Claro que fico chateado!” (Nunca usaram esta expressão com o mesmo tom do Ricardo?).

E não preciso de ser mais exaustivo. São muitos os spots que se agarram a nós como lapas e até servem para nos referenciar momentos do passado que incluíam a publicidade aos produtos mais badalados de cada época.
É a prova mais simples da importância que a publicidade conquistou na sociedade da minha geração e mantém na que lhe sucedeu.
Por isso continuo a observar a publicidade e a ver como ela reflecte em boa medida cada tempo que se anuncia, tal como denuncia o perfil do consumidor de cada época. A pasta medicinal Couto (que andava na boca de toda a gente) e o restaurador Olex (um preto de cabelo louro ou um branco de carapinha) são espelhos do tempo em que se popularizaram na então relativamente jovem têvê.
Agora basta uma vista de olhos nos cromos da bola (o Abel Xavier) ou da música (o Marco Paulo dos primeiros dias) para encontrarmos aquilo que os criativos da altura consideravam uma impossibilidade (uma aberração?).
E os publicitários já não são descarados a impingirem os produtos associando-os à capacidade de girar uma cadeira pelo ar, presa pelos dentes de um malabarista.

Contudo, é flagrante a forma como, por exemplo, as grandes superfícies tipificavam tempos atrás os seus alvos de mercado como uns imbecis ou totós. Tal como é claro na nova campanha da Tv Cabo (por €15,50/mês uma família desertora, incluindo a empregada doméstica - cujo sotaque nortenho é obsoleto e deveria ser mais em tons tovarich…) e na inefável Dareway (um veículo farsola que é anunciado por dois fedelhos “cheios de classe”, vestidos e maquilhados como uma dupla gótica) que os tempos são outros e a publicidade abardinou.

E por abardinou quero mesmo dizer avacalhou, sendo hoje possível assistir mais do que nunca a anúncios dos quais ninguém percebe o alcance, a outros que nos deixam atónitos pelo teor paupérrimo da sua concepção e a alguns que vendem mensagens com pouco de politicamente correcto – não são raras as ocasiões em que os publicitários “remodelam” os seus spots depois de se aperceberem da estupidez e da falta de bom gosto neles reflectida.

Vejam a nova e insistente campanha de natal da TMN, por exemplo. A vanguarda da piroseira móvel, sem pés nem cabeça, num ambiente pseudo-futurista e descaradamente desprovido de uma imaginação coerente com a inteligência de quem produziu algo que bombardeia os telespectadores em doses intoleráveis.
Ou mesmo a da concorrente Vodafone, ainda a explorar o “filão” dos gajos roucos de tanto falar mas com um spot baseado nos Reis Magos que, francamente, a mim não convenceu a comprar seja o que for.

Claro que o objectivo destes colossos das comunicações é cravar-nos o logótipo na mona como se fossemos vacas acéfalas no curral consumista. Mas não vejo porque desperdiçam recursos a massacrar as audiências com cenas idiotas quando podem seguir excelentes exemplos da publicidade que vemos ganhar concursos lá fora. Como alguns a que temos o prazer de assistir, baseados numa estética agradável e apelativa ou numa abordagem inteligente que nos leva a comprar a ideia sem abdicar do nosso bom gosto. E não estou necessariamente a falar das pernas da polaca loura que transformou a Pluma da Galp na bilha mais leve e memorável da publicidade portuguesa.

Onde quero eu chegar com esta palheta toda? Ao facto de ser um desperdício a forma como (uma parte d)os criativos não possuem ou deixam que os anunciantes lhes restrinjam a capacidade de anunciar com brio, com respeito por quem vai levar com o resultado do seu trabalho a cada esquina e em quase todos os pontos onde nos pousa a vista.

É que no meio das dezenas de spots que as televisões me impõem nos intervalos das suas séries, filmes, ou programas chachada da moda não encontro mais do que meia dúzia concebidos com aquele cuidado e talento que me fizeram fixar até hoje a Bic laranja mais a Bic cristal ou os fechos de correr Polylon (que já entalavam pilas há mais de trinta anos).

E sempre gostava de perguntar na cara do gajo que criou a Leopoldina, um pássaro vestido à fiel de armazém, se ele acredita que aquilo é uma referência decente para o Natal dos ávidos aprendizes de consumista que estamos a criar nesta altura.
publicado por shark às 18:58 | linque da posta | sou todo ouvidos