DIVORCIADOS DA RAZÃO

Estavam casados há uns anos e a coisa não resultou. Cada um para o seu lado, o dia ganho pelo advogado no litígio que depressa assumiu o descontrolo da situação. O costume, em boa parte das relações conjugais que se apagam como velas ainda cheias de cera e de pavio. Sopradas pelo vendaval da discussão.

Foi ela quem saiu, coisa rara, e não cuidou de alterar a morada nos contratos que só a si interessavam. O seguro do carro, por exemplo. Cujo aviso de pagamento ele terá recebido na caixa de correio que ambos partilharam enquanto a harmonia reinou. Tudo se esfumou ao vento, as coisas boas também, tábua rasa. O aviso não chegou às mãos a que se destinava e o seguro caducou.
Ela não reparou até ao dia em que se viu culpada de um acidente de viação.

O ex, que terá talvez todas as razões válidas para a odiar (e nem isso justificaria um acto/omissão tão irresponsável), comportou-se de uma forma ingrata, infantil e leviana. Canalha, se quiserem. E é fácil de ver porquê.
As relações entre as pessoas são difíceis de manter, sobretudo quando às diferenças se somam as divergências, o despertar sem maquilhagem, o wc partilhado e o fim do amor ou da pachorra. Por isso as relações podem acabar, de uma forma tão natural como começaram. E entretanto acontecem uma data de coisas boas e outra data de coisas más.

Nenhuma delas pode justificar o risco de mandar alguém que um dia no passado uniu o destino com o seu, a fé que nos move até que a vida os separe, para uma armadilha que pode implicar coima pesada, apreensão do veículo e, se as coisas correrem mesmo mal, uma pena de prisão.
Não consigo encontrar sentido numa "vingança" assim.

Gosto de pessoas. Mas ele há dias...
publicado por shark às 01:44 | linque da posta | sou todo ouvidos