GRITO DE GUERRA

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Receber o impacto no peito e desafiar o agressor. Por não vacilar, escudado o medo por detrás do orgulho couraçado e da fraqueza feita força capaz de aguentar uma nova investida.
Assentes os pés na terra, gravidade aumentada. A coragem duplicada que gera uma raiz para prender o tronco ao chão quando deflagra a segunda explosão destinada a demolir a resistência feroz.

Um passo atrás, pela onda de choque da detonação. Ranger os dentes, vencer a dor. Avançar teimoso e recuperar a posição original, olhos nos olhos da besta infernal. Cada vez maior na sua percepção distorcida de uma vítima enfraquecida que se agiganta, animal ferido, em cada golpe da baixeza de um chicote frustrado pela falência da humilhação presumida.
Escravo rebelde, insurrecto. As marcas no peito de outras pancadas que a vida lhe deu, cicatrizadas.

A cura improvável na constituição vulnerável de um mero pigmeu, saradas pelo desespero essas feridas que o tempo tratou. Reforçado pela sobrevivência, inesperado na persistência das suas lides de forcado às marradas de um quotidiano traidor.
O poder do amor e o tónico da esperança que alimenta a confiança, espada reluzente imaginada numa das mãos daqueles braços abertos. Como galhos erectos naquele tronco nu.
Como armas letais, as palavras escritas. A guerra que gritas tu, resistente, no campo de batalha onde jazem apenas os que desistiram de lutar.

A vontade de vingar a perda sofrida, a dor infligida pelos golpes cada vez menos fortes que a experiência decifrou. A mazela que calejou, endurecimento a cada tormento enfrentado de pé. Olhos nos olhos da besta até a vergar, insistir em minar a sua arrogância por renegar a desistência prevista no plano boicotado assim.
Suportar até ao fim as suas bicadas de rapina e devolver-lhe com dentadas de surpresa, semear a incerteza onde antes residia o dado adquirido do triunfo final.

O combate desigual sem vencidos ou vencedores. O empate que adia a questão até ao dia da sublevação generalizada dos lutadores.
A força imparável de uma revolução inseminada pelo exemplo que se deu.

O sonho que se perdeu na desilusão de um mau dia.
Renascido invencível do ventre de uma utopia.
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publicado por shark às 10:42 | linque da posta | sou todo ouvidos