ALGUM AMOR EM POUCAS PALAVRAS

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AMOR AMIGO
Havia de facto má vontade entre ambas as partes e o ambiente nunca era o ideal. Mas naquele dia as coisas até estavam a correr muito bem. Por isso foi com espanto que ouvimos a professora de Biologia expulsar da aula uma das mais pacatas das nossas colegas. Sem nada que o justificasse, excepto “o que lhe pareceu” e bem tentámos desmentir.
A nossa colega, normalmente muito calma, começou a mudar de cor e depois explodiu. Saiu aos berros, protestando contra a injustiça de que fora alvo.

Eu, quase tapado nas faltas daquela disciplina, mas muito chegado à pessoa em causa (apaixonado em silêncio ao longo de vários anos), consultei o mapa da minha disponibilidade na matéria. Ainda me restavam duas (em Março) e isso facilitou-me a decisão.
“Se ela vai sem ter feito mal nenhum, eu também vou.” Peguei nas coisas e saí, protestando também contra a situação, e fui juntar-me à colega expulsa que chorava de raiva, tentando animá-la o melhor que sabia.
Nem dois minutos depois, mais um colega saiu pela porta. Logo a seguir mais duas. E ainda mais uma dupla. Continuavam a sair, um após outro, com a sala a ficar vazia ao mesmo ritmo a que o choro de raiva da nossa colega se transformava numa gargalhada de felicidade e de orgulho pela sua turma que a abraçava. Vieram todos e o oitavo L fez história no liceu, com uma muito rara falta colectiva que mobilizaria as pressões suficientes para a inepta docente se ver transferida, ponderadas as situações de conflito que gerara em todas as turmas que lhe cabiam em sorte. O nosso exemplo daria origem a outras formas de luta e a medíocre perdeu.

Hoje fiquei feliz quando recebi uma chamada dessa colega que a arrogante professora de Biologia expulsou. Gostei de a saber bem e feliz, após um período menos bom que a vida lhe deu a provar. E acima de tudo fiquei deliciado por constatar que existem laços tão fortes que nem a passagem dos anos e a escassez de contactos conseguem quebrar, nascidos da amizade e da solidariedade incondicional que ela implica.
Por estas e por outras se justifica a minha crença de que a amizade séria é apenas uma das muitas formas que um grande amor pode assumir. Sem olhar a géneros.
publicado por shark às 11:11 | linque da posta | sou todo ouvidos