UM NATAL LIGHT, COM GELO E LIMÃO

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Já tresanda. A inauguração oficial da maior árvore, barulho das luzes, e o ressurgimento da Leopoldina, a iluminação artificial das ruas e o massacre dos anúncios a bonecas com telemóvel e a telemóveis com bonecos mais os folhetos em barda na caixa do correio em vez dos postais que caíram em desuso. A tensão crescente de ver o subsídio a escoar-se nas mazelas do Verão à rica enquanto se aproxima o momento inevitável de enfrentar a multidão apressada das compras de última hora.
Pelo meio, os poucos que tentam relembrar a malta que não foi o pai natal quem nasceu nesse dia cada vez mais coke e ainda menos os que se esforçam por cultivar um espírito da coisa que não aceita visa ou mastercard.

Entro sempre em conflito interior nesta quadra natalício-consumista que parece desenhada para se autodestruir em labaredas de saturação. Gosto do pretexto que o Natal oferece para sermos todos um nadinha diferentes, um pouquinho melhores do que no resto do ano em que a vida nos absorve num galope desenfreado que não deixa espaço para nada ou ninguém. E desgosto assistir à cedência colectiva a toda a pressão comercial que desaba nos ombros fatigados da maioria de nós.

Para muitos a coisa coloca-se em termos próximos do martírio. “Tenho que dar uma prenda a fulano porque ele deu-me uma treta qualquer no ano passado. E outra a sicrano porque é um gajo importante na organização que me fez um favor. E o puto quer uma consola xpto e estão esgotadas. E não posso esquecer-me do par de peúgas para cumprir o ritual.”
Ala que eles aí vão para os hipermercados, para as lojas de rua, “sim, é para oferecer”, as lâmpadas novas para a árvore, com música, compradas na loja do chinês em conjunto com as oferendas baratas para cumprir calendário na consoada embrulhada de um vizinho ou de um amigo afinal só “conhecido” que se presenteia quase por obrigação.

A generosidade imposta por oposição ao clima de festa desinteressada, o sorriso espontâneo (que deveria contagiar os cristãos como os ateus) convertido num esgar de desagrado pelo frete de ter que ir comprar.
Os natais dos hospitais e coitadinhos dos pobrezinhos, as reportagens da praxe acerca das vidas geladas na marginalidade de um universo paralelo, desabrigadas em caixas de papelão. As sopinhas que lhes dão, para borrifar um pouco de humanidade na rotina da cidade que os ignora um ano inteiro e agora esbanja o dinheiro numa farsa mercantil.

Não é esse o meu natal, embora baste uma filha para me ver enredado de alguma forma nos brinquedos da moda que a bombardeiam nos seus canais de televisão. O medo de a fazer sentir-se inferiorizada relativamente aos amigos e colegas, vaidosos de pequeninos com o seu karaoke da floribella e outros sinais exteriores da riqueza que um dia irão alardear como os progenitores.
A herança que deixamos da banalização que alimentamos com a nossa incapacidade para impor aquilo que se sabe ser mais bonito mas não encaixa no absurdo em que a nossa vida se tornou.

Um grande galo, e não falo da missa, não conseguirmos ignorar uma tristeza mansa que se instala discreta no meio da confusão na mente anestesiada pela pressão que nos afasta dos mais importantes ideais.

Hipotecamos os nossos natais no crédito ao consumo que os comprou algures, carregamos essa cruz.
Talvez acabemos um dia com a alma pendurada no prego da loja de penhores, mesmo ao lado da efígie empoeirada de um tal de Jesus.
publicado por shark às 11:14 | linque da posta | sou todo ouvidos