A POSTA QUE NÃO HÁ HERÓIS

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Há temas particularmente sensíveis para um homem. A virilidade, por exemplo, constitui quase sempre mais motivo de preocupação ou ponto de partida para um insulto eficaz do que a inteligência. Ou a falta dela.
Neste, como noutros aspectos, é foleiro generalizar. No entanto, nunca vi um fulano virar-se do avesso por alguém lhe chamar burro. Nem vi algum tão atrapalhado por errar uma conta de dividir como por lhe falhar o equipamento na hora da verdade.
Claro que um tipo pode falar disto na paródia. Entre pessoas porreiras, um desses flopes até pode ser o ponto de partida para uma segunda tentativa bem mais divertida. Pois. Mas em certas circunstâncias, o flop assume proporções desastrosas e a vontade de rir terá origem nervosa...

Aconteceu-me por duas vezes ao longo da vida e assumo-o perante vós.
No final da adolescência, depois de anos a desejá-la com o ardor típico dessa fase das erecções descontroladas (que uma pessoa julgava então que só aconteciam até aos dezoito anos), consegui finalmente o grau de proximidade que me permitia ambicionar algo mais. E algo mais aconteceu. Num carro, a sua primeira experiência em domínios que nunca ousara até então. Correu menos bem, no final, pelo arrependimento de última hora e demasiado tardio. Mas ao embaraço da situação sucedeu-se uma cumplicidade de amantes que manteve a chama acesa.
Dias depois, o segundo round desta relação pouco auspiciosa. O que ansiava nesses dias uma hipótese de lhe mostrar o quanto a desejava. Tudo perfeito. Menos eu, o avô cantigas, em choque perante uma ausência de reacção do amigo fiel que nunca antes me traíra. Não haveria uma terceira tentativa, convencidos que ficámos da discrepância entre os nossos relógios biológicos e porque nessa altura, idiota, nem me ocorreria aplicar alguma solução de recurso que nos pudesse manter entretidos até vermos o que aquilo dava. Concentrei-me apenas na terrível vergonha, egoísta, do macho incapaz de honrar os seus pergaminhos. Foi talvez o momento mais desastrado da minha vida sexual.

Voltei a deparar-me com esse fenómeno tão imprevisível poucos anos depois. Horas a fio a abrirmos caminho para um acontecimento impossível, assim o julgávamos, pela duração da nossa amizade e suas perspectivas de futuro. Mais umas horas a certificarmo-nos com beijos e carícias que "aquilo" estava mesmo prestes a acontecer. E às três da madrugada, quando cobrimos os corpos nus com o lençol da minha cama, nicles. Valeu-me a ausência do efeito surpresa (é nisto que a experiência de vida muito interfere), o que me permitiu manter a calma, gerir a situação com elegância, empenho e descontracção e depois pedir-lhe na boa duas horinhas de sono para ver se me inspirava. E não é que resultou?
Quando o despertador tocou, duas horas depois, acordei com a surpresa contrária (do tipo duracell) e só parámos para almoçar umas horas depois (ao contrário do que se vê e ouve a torto e a direito, isto não acontece tantas vezes como a malta pinta - ou então tenho tido um azar do caneco e terei que reequacionar as minhas horas de sono). Foi, em antítese, um dos momentos "épicos" do meu historial (isto já é descaradamente conversa de homem, "fiz e aconteci", "não sei quantas horas a abrir" e tal...).

Agora vejam: este tema é terrível de abordar perante homens (mesmo que já lhes tenha acontecido, raramente o admitiriam e acabam por inconscientemente olhar com piedade para o assumido fraco da coisa) e perante mulheres (pelo nosso receio de que nos desdenhem por falta de confiança na capacidade física e anímica para cumprirmos o papel que nos cabe). Porém, trata-se a meu ver do tipo de assunto que não deve morrer no segredo. Até pela informação valiosa que podemos transmitir para referência futura e para evitar recalcamentos injustificados que a longo prazo nos põem a bater mal da cabeça.
Por outro lado, tenho insistido na tecla de que não cultivo assuntos tabu e isso ainda faz mais sentido no âmbito da minha actividade de blogueiro. Mesmo que, como na sequência de postas anteriores, isso implique mais uma dúzia de emails a apelidarem-me de trombeiro (como é que ainda não perceberam, gente bronca, que isso não constitui para mim um insulto?) e/ou desiluda de alguma forma quem possa confundir-me com uma versão informática do Zézé Camarinha.
publicado por shark às 12:43 | linque da posta | sou todo ouvidos