CONTRACEPÇÃO HOTELEIRA

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Foto: Shark


Habituei-me aos poucos à ideia de as unidades hoteleiras não permitirem animais nas suas instalações. É chato e tal, os bichos fazem barulho, sujam tudo, podem suscitar alergias. Enfim, podem perturbar o sossego de quem busca um hotel para uma noite descansada ou um restaurante para uma refeição em boas condições higiénicas.
Habituei-me apesar do transtorno que isso me causa, pois sempre tive cão e nem sempre tenho disponibilidade financeira ou outras condições para arranjar quem tome conta do bicho para eu poder usufruir também desses privilégios que a hotelaria pode oferecer.

O princípio em causa, aquilo que leva os responsáveis pelos hotéis e restaurantes a recusarem liminarmente a presença de animais nos seus espaços de lazer, é fácil de assimilar. Mesmo um inconformado como eu, que já me vejo empurrado para a rua a contra-gosto sempre que quero fumar um cigarro (outro incómodo que a hotelaria decidiu banir, seguindo o exemplo das transportadoras e aproveitando o trilho que a Lei e os costumes vão criando), aceita os argumentos e age em conformidade.

Claro que só um parvo não percebe que a proibição, qualquer proibição, incute nos mais comodistas uma aversão natural aos alvos dessas limitações.
Cada vez menos gente se predispõe a acolher um animal na sua vida e cada vez mais pessoas preferem dispensar nas suas casas e mesmo nos seus carros a presença de quem fuma, impondo as mesmas regras que a hotelaria populariza.
A malta deixa cair na boa tudo quanto possa constituir um embaraço, um inconveniente, a maçada de qualquer limitação.
Fiquei a saber hoje, na revista de Imprensa de dois canais de televisão, que as unidades hoteleiras começam a impor restrições na admissão de famílias com crianças.
Neste caso concreto nem vale a pena dissecar a argumentação que queiram impingir para justificarem tal medida. Nem mesmo o facto de não ser ilegal essa reserva específica do direito de admissão.

Ninguém me conhece por moderado no discurso ou mesmo no comportamento quando as decisões de outrem me enojam. E é o caso.
Esta nova tendência, que coloca os putos ao nível dos cães, é mais uma machadada num valor fundamental e sagrado. Tão grave, na minha óptica pessimista de quem adivinha o impacto de tal aberração nos casais jovens sem filhos e nos que adoram qualquer pretexto para os confiarem a terceiros, tão grave que assumo sem problema que qualquer hotel ou restaurante que me tente privar da companhia da minha filha terá que chamar a polícia para acabar com o putedo. E garanto que não tenho medo de defender esta causa na pele de arguido num tribunal.

Dão-me saudades do tempo da “velha senhora”, estes liberais da trampa que aceitam o mercado como equilibrador natural destas coisas. Dizem eles que à proibição de uns corresponderá o incentivo de outros e nascerão as unidades hoteleiras vocacionadas para acolherem essas famílias indesejáveis noutros estabelecimentos. E apetece-me mandar à merda esses teóricos que ignoram o valor da Família como o primordial em qualquer sociedade, em qualquer civilização digna desse nome.
As crianças, como os anciãos (talvez os próximos alvos da purga), não podem ser interpretadas como uma inconveniência em circunstância alguma. Não podem servir de pretexto para vedar às pessoas o acesso aos locais da sua preferência, remetendo-as para onde as deixam entrar.

Estas anomalias indignas fazem-me ferver por dentro, pelo efeito que lhes adivinho num país onde a taxa de natalidade já não lhe permite compensar os desequilíbrios da pirâmide etária. Onde muitos jovens encaram a paternidade como um estorvo à progressão na carreira ou mesmo à manutenção de uma relação conjugal sem ondas.

Estas regras do jogo nojento que o dinheiro impõe empurram-me em simultâneo para a esquerda radical que não acredita no bom senso do mercado e exige maior intervenção do Estado na regulação destas coisas e para a direita mais conservadora que coloca valores como a Pátria e a Família no lugar que acredito intocável.
Viram-me do avesso e obrigam-me a soltar o labrego em mim, nos actos como nas palavras.

Representam o que de pior encontro naquilo que os mais cordatos assimilam de forma pacífica como as “consequências naturais do progresso e da evolução”.

Nem os macacos evoluíram de um modo tão repugnante, em muitos domínios.
publicado por shark às 12:07 | linque da posta | sou todo ouvidos